Gigante do canto, morre o baixo-barítono belga José Van Dam, aos 85 anos

por Redação CONCERTO 20/02/2026

O baixo-barítono José Van Dam morreu no dia 17, aos 85 anos. A informação foi divulgada pela Capela Real Rainha Elisabeth, da Bélgica, onde ele atuava como professor desde 2004. A causa da morte não foi informada. Van Dam foi um dos grandes cantores líricos de sua geração, conhecido por interpretações marcantes tanto do repertório operístico quanto de canções, e pelo cuidado na escolha de papeis.

Nascido em 25de agosto de 1940, ele começou a estudar canto aos 14 anos e logo entrou para o conservatório, do qual saiu diretamente para um contrato de quatro anos com a Ópera de Paris. Em 1968, ele participou de uma gravação de L’heure espagnole, de Ravel, com o maestro Lorin Maazel, que então o contratou para o elenco da Deutsche Oper de Berlim. Foi ali que interpretou pela primeira vez papeis que se tornariam pilares do seu repertório, como Leporello, em Don Giovanni, e Figaro, em As bodas de Figaro, de Mozart, e Escamillo, na Carmen, de Bizet.

“Comecei a cantar profissionalmente com 20 anos, pequenos papéis, alternados a primeiras grandes oportunidades, na Ópera de Paris. Trabalhar em companhias como a francesa ou a de Berlim, para onde fui depois, me deu as bases para a carreira. Nelas, você não apenas exercita a voz, ganha experiência, mas também tem a chance de trabalhar ao lado de gente experiente, que conhece a fundo aquele mundo no qual você está começando. Lembro que, em Berlim, preparei Figaro com uma pianista que havia trabalhado com Furtwängler, Klemperer. E isso foi decisivo na minha percepção do papel”, contou ele em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em 2011, em uma da vezes em que veio ao Brasil para recitais, a convite do Mozarteum Brasileiro.

Na mesma ocasião, ele definiu a forma como via a voz de baixo-barítono: "É uma voz bastarda. Não dá para cantar os papéis mais pesados de baixo, nem os mais leves de barítono. Mas permite interpretar Felipe II, Scarpia, Simon Boccanegra, Macbeth ou mesmo o Germont, da Traviata, que tenho cantado nos últimos dois anos. É uma voz grande, que pode dar uma cor diferente a certos papéis."

Van Dam atuou como Leporello no filme com a ópera de Mozart dirigido por Joseph Losey e, no cinema, também participou do filme O Mestre de música, de Gerard Corbiau, no qual interpretava um cantor de ópera no final da carreira que aceitava dois jovens promissores como alunos, aconselhando os dois a combinar a paciência com um foco rigoroso na técnica.

Foram orientações que ele próprio seguiu ao longo de sua trajetória. Quando Herbert von Karajan o convidou para atuar e gravar óperas como Lohengrin, de Wagner, ele se recusou, afirmando que “é o maestro que deve se ajustar às características da voz e não o contrário”. Ainda assim, o cantor e o maestro desenvolveram uma longa parceria. 

Van Dam foi intérprete de referência de papéis como o Don Quixote, de Massenet, ou Felipe II, na versão francesa do Don Carlos, de Verdi. Também deixou registros preciosos de As bodas de Fígaro, de Mozart, do Fausto, de Gounod, de Falstaff, de Verdi, e de Parsifal e Os mestres cantores de Nuremberg, de Wagner. Fez história também como o protagonista da ópera São Francisco de Assis, de Messiaen, que criou e interpretou em toda a Europa. 

Com o tempo, foi abandonando o repertório operístico e se concentrando exclusivamente no repertório de canções, dedicando-se a compositores franceses e alemães com a mesma atenção à medida em que foi se afastando dos palcos e encerrando sua carreira. “A coisa mais importante é que, no dia em que eu parar de cantar, as pessoas digam: ‘que pena que Van Dam não canta mais’ – e não ‘que pena que Van Dam continua cantando’.”

O baixo-barítono belga José Van Dam [Divulgação/Naomi Baumgart]
O baixo-barítono belga José Van Dam [Divulgação/Naomi Baumgart]

 

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