Interpretação de Guido Sant’Anna do Concerto nº 2 para violino de Prokofiev deixou o público hipnotizado
Dia 28 de março, às 17 horas, ocorreu, no Theatro Municipal de São Paulo, um concerto fora do comum.
Primeiro, porque foi regido por Mei-Ann Chen, maestrina sino-norte-americana, cujas qualidades estão longe de ser banais. Sua técnica de regência é impressionante: clara, enérgica, rigorosa, levando a orquestra a seguir suas indicações com precisão e energia muito raras de obter. Ela também demonstrou uma personalidade de simpatia contagiante, associando os músicos às ovações e gentilmente estimulando o público a acentuar os aplausos para eles.
Segundo, porque teve a coragem de apresentar um programa nada habitual. Das quatro peças interpretadas, duas eram de compositores incomuns, e apenas uma bem conhecida.
O concerto abriu-se com uma obra vibrante de An-Lung Huang, a Dança de Saibei. Descobri na internet que se trata de um compositor sino-canadense nascido em 1949, com um sólido percurso acadêmico e uma longa lista de composições. Pela partitura apresentada, ele não se preocupa com a assim chamada música contemporânea: é uma obra animada, divertida, cheia de traços pitorescos para caracterizá-la como oriental, mas que, em certos momentos, podia evocar o prelúdio do primeiro ato da ópera Carmen, de Bizet. Foi uma delícia que deixou todo mundo feliz com a descoberta.
Em seguida, o Concerto nº 2 para violino, de Prokofiev, que teve como solista Guido Sant’Anna. Não é obra frequente no repertório: mistura uma transcendência espiritual, que surge desde o início: o violino começa sozinho para, mais tarde, explodir em energia angustiada, que um pulso obsessivo acentua. Exige controle técnico e um particular equilíbrio na relação entre o solista e a orquestra, em dosagens sonoras quase infinitesimais.
Ora, Guido Sant’Anna é mais que um grande violinista. Ele tem essa qualidade “a mais” que o eleva ao panteão dos intérpretes mais lendários. É tomado pela música e embebe-se nos sons que produz com tal intensidade que deixa o público hipnotizado – exceto as pessoas que conversavam animadamente nos camarotes do prefeito e do secretário da cultura do município. Nem isso, porém, foi capaz de dissipar a concentração que emanava do palco.
Mei-Ann Chen foi uma regente ideal para essa obra. Sem jamais abandonar seu rigor, desdobrou uma gama delicada de nuanças, mantendo sempre a perder a visão de conjunto e a perfeita fusão com o discurso sonoro do violinista.
Não me lembro de ter ouvido uma interpretação mais bem sucedida desse concerto.
Para seu bis, Guido Sant’Anna não fez concessões e permaneceu no mesmo nível de exigência: escolheu interpretar a Sonata nº 3 para violino solo, “Ballade”, de Eugène Ysaÿe. Composição em um movimento, ela exige grande interioridade e requinte sonoro: Guido Sant’Anna foi magistral intérprete, com vibratos inefáveis, perfeito sentido discursivo (expectativas eloquentes, exposições arrebatadas), e o timbre, que deve ser o dos anjos violinistas no paraíso.
Para iniciar a segunda parte do concerto, Mei-Ann Chen escolheu uma obra exigente, complexa, de grande dificuldade interpretativa: Nymphéa Reflection (2001), de Kaija Saariaho, compositora finlandesa falecida em 2023. Escrita para cordas, organiza-se em seis movimentos de caráter diverso, nos quais longas sonoridades de seda se entrecruzam e criam como que levitações da alma. Foi um prodigioso momento.
Enfim, a última obra foi também a única de fato conhecida: a Suíte de O pássaro de fogo, (1919). Mei-Ann Chen mereceu o entusiasmo arrebatado do público por sua regência direta, franca, precisa e entusiasta, que levou a orquestra aderir plenamente às suas intenções. O resultado foi grandioso e requintado, dionisíaco e límpido.
No final, a maestrina, num gesto incomum, foi buscar nas coxias o solista Guido Sant’Anna para que compartilhasse com ela o triunfo final.
Enfim, um concerto que marquei com pedra branca, torcendo para que Mei-Ann Chen seja novamente convidada às paragens brasileiras e sonhando, quem sabe, que um dia ela assuma uma de nossas orquestras: seria ganho imediato.
Em tempo: parece ter se tornado praxe, no Brasil, os aplausos entre movimentos.
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