Didatismo excessivo atrapalha produção de Orfeu no inferno, de Jacques Offenbach, em cartaz no Theatro São Pedro de São Paulo
Orfeu no inferno pede por um aggiornamento.
Quando estreou, em 1858, a opereta trazia uma mistura característica de sátira política e artística. Na mitologia, Orfeu vai ao Hades buscar a amada Eurídice, picada por uma cobra logo após o casamento dos dois. Na obra de Jacques Offenbach, ele é um professor de música grosseirão, aliviado por se livrar da mulher que já não suporta – e que também já não sente nada por ele.
Era uma piada com o Orfeu e Eurídice de Gluck, e, por que não, com toda a história da ópera – àquela altura, já se contavam pelo menos 60 obras baseadas nos dois personagens. Mas, em seu retrato de deuses preguiçosos e autoindulgentes, Orfeu no inferno fazia também uma alusão à corte de Napoleão III e aos poderosos do Segundo Império francês.
A crítica ao poder – e à própria ópera – é atemporal, ainda mais vestida com a fantasia da mitologia. E, no caso específico de Orfeu no inferno, há ainda outro elemento: a presença da Opinião Pública como personagem. É ela que força Orfeu a ir atrás de Eurídice. É por ela que os deuses abandonam seu torpor, não como forma de respeito, mas para, como fazem bem deuses e políticos, fingirem a mudança que permite manter tudo como sempre.
Pensar a ideia de opinião pública no mundo das redes, do controle dos algoritmos, e as relações sociais que a partir daí se colocam, é um ponto de partida interessante – e é em torno dessa ideia que se articula a nova produção da obra em cartaz no Theatro São Pedro de São Paulo, com direção musical, regência e adaptação para o português de André dos Santos, dramaturgismo de Ligiana Costa e direção cênica de Cibele Forjaz.
Nesse contexto, Orfeu no inferno seria, em um jogo de aproximação e distanciamento, veículo para uma leitura social afiada e bem-humorada, como foi em 1858 e como pode ser em 2026. Curiosamente, no entanto, a produção não é uma coisa nem outra. É um exercício de linguagem que extirpa da obra a sua sua riqueza e afasta o público da discussão que propõe.
A noção do duplo como elemento a relativizar e comentar aquele a quem reproduz é certamente interessante. Na sátira de Offenbach, no entanto, os próprios personagens já são construídos de forma a carregar a crítica àqueles que evocam ou representam
Talvez seja o caráter didático da introdução dada à Opinião Pública (Denise de Freitas), que determina de maneira ostensiva, como uma bula incontornável, a leitura que se deve fazer do espetáculo, abandonando, logo de início, o papel ativo da plateia de refletir sobre os elementos da cena. Talvez seja a profusão de efeitos: os números de dança a acompanhar as árias, a alternância entre a voz gravada e a voz acústica nos diálogos, as brincadeiras que se propõem espirituosas, mas são coreografadas demais para soarem espontâneas e engraçadas. E, em especial, a opção por criar duplos para Orfeu, Eurídice, Júpiter e Plutão, com atores e atrizes que dividem a cena – e os diálogos falados – com os personagens.
A noção do duplo como elemento a relativizar e comentar aquele a quem reproduz é certamente interessante em conceito – Cibele Forjaz o utilizou de maneira muito hábil no Guarani, de Carlos Gomes, que dirigiu para o Theatro Municipal de São Paulo. Ali, havia uma visão romântica consagrada e petrificada dos personagens que precisava ser relativizada. Na sátira de Offenbach, no entanto, os próprios personagens já são construídos de forma a carregar a crítica àqueles que evocam ou representam. Os duplos, assim, se tornam mais um didatismo a subestimar o público, esvaziando e tirando a vida dos personagens – ainda que uma justiça precise se feita: a excelente atuação de Tenca Silva como o duplo de Eurídice dá ao espetáculo seus únicos momentos de fato de respiro cômico.
Restam a interpretação musical de excelência da Orquestra do Theatro São Pedro sob o comando de André dos Santos, ainda que a adaptação para o português, em alguns momentos, brigue para entuchar as palavras na música de Offenbach. E os desempenhos vocais sofisticados de Ana Beatriz Gomes (Eurídice), Aníbal Mancini (Plutão), Vinicius Atique (Júpiter), Isabella Luchi (Diana) e, em especial, de Juliana Taino, no papel do Cupido.
Para um espetáculo de três horas de duração, é pouco.
[Orfeu no inferno segue com récitas até o final de semana; veja mais detalhes no Roteiro do Site CONCERTO.]
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