Sem tensão não há movimento

Diálogo nem sempre simétrico entre dança e música marca o balé A flor azul, de Frank Martin, ovacionado na Sala São Paulo

A magnífica música de Frank Martin, aliada à coreografia enérgica da Compagnie Käfig, mereceu a calorosa exaltação do público da Sala São Paulo na noite de sexta-feira, dia 11. É um privilégio acompanhar a apresentação de uma obra desse calibre menos de dois anos após sua estreia em Genebra, em outubro de 2024. Mais uma iniciativa excelente de Thierry Fischer, que tem desafiado e assim extraído o melhor da Osesp em termos de repertório. Não sou capaz de puxar na memória uma sucessão de obras semelhante a que temos visto o grupo executar, e de maneira empolgante: Wozzeck, de Alban Berg, Gruppen, de Stockhausen, e, agora, essa novíssima partitura (soa nova mesmo quase 90 anos depois), brilhantemente orquestrada por Nicolas Bolens. 

A flor azul é um balé que Frank Martin escreveu para um concurso em 1936. Em suma, a música foi rejeitada por ser considerada moderna demais para ser coreografada. Em entrevista à CONCERTO deste mês, Mourad Merzouki, diretor da Käfig, surpreendentemente reitera esta afirmação. Diz: “Concordo com a análise que fizeram na época: era mesmo, e ainda é, uma música que não se encaixa facilmente na dança". Mas ressalva: “Vivi essa experiência como um desafio, precisamente porque a música não se prestava naturalmente ao movimento.”

O diálogo entre os desejos da música e da dança tem tudo a ver com o próprio enredo do balé, que apresenta duas histórias que acabam, também, convergindo: a história da cigana Flor Azul, que descobre seu futuro e se encanta com os segredos noturnos da floresta; e a do citadino, que sofre as violências dessa mesma floresta e acaba amarrado e deixado para morrer

A flor azul tem força expressiva de poema sinfônico: as cores da noite e do dia, a violência contrastada com a energia vertiginosa da dança cigana: está tudo na música. Mas nem todos os quadros convidam imediatamente ao movimento. Nesses momentos mais estáticos (e não por isso desinteressantes), Merzouki acertou em tensionar coreografia e música, sob o belo desenho de luz de Yoann Tivoli. O início, por exemplo, é notadamente ruidoso. Bailarinos movimentam caixas, malas e lampiões, montando acampamento. Seus corpos procuram sincronia com a música aos poucos, como que a tateando. É interessante acompanhar o movimento dos bailarinos em redor da orquestra, aproveitando os espaços entre os instrumentistas e até mesmo o pódio do maestro. Um pouco como se o próprio Merzouki estivesse montando acampamento no discurso musical de Martin, pedindo licença, mas não sem mostrar a que veio. 

O resultado deste encontro a princípio tenso surpreende ao longo do balé, que logra o ponto máximo de convergência entre dança e música durante os quadros em que os bailarinos são praticamente convocados a dançar ao ritmo marcado e andamento rápido da orquestra. Este caminho pode até parecer um erro ou um desequilíbrio, mas só o é para quem acredita que harmonia significa sincronia constante. Na verdade, harmonia é o abrir de caminhos que transformam dissonâncias em consonâncias e vice-versa, enquanto dure a forma. Sem tensão não há movimento.

Além disso, o diálogo entre os desejos da música e da dança tem tudo a ver com o próprio enredo do balé, que apresenta duas histórias que acabam, também, convergindo: a história da cigana Flor Azul, que descobre seu futuro e se encanta com os segredos noturnos da floresta; e a do citadino, que sofre as violências dessa mesma floresta e acaba amarrado e deixado para morrer. Ao final estes dois personagens se encontram: Flor Azul salva o citadino da morte, dando-lhe a esperança de dias melhores.

São camadas como essa que proporcionam um sabor único à Flor azul de Frank Martin. Sabor que o júri do concurso de composição formado em 1936 infelizmente se recusou a provar, mas a que finalmente o público pode assistir.


Leia também
Notícias 
Filme aborda a vida do compositor Antonio Vivaldi
Notícias ‘Don Pasquale’, de Donizetti, ganha nova produção no Theatro São Pedro
Notícias Prêmio Citi está com inscrições abertas até 26 de julho
Crítica Sem tensão não há movimento, por Ana Cursino Guariglia
Opinião Henze, 100 anos: um compositor absolutamente antenado com seu tempo, por João Marcos Coelho
Crítica Uniopera estreia ‘Turandot’ no Teatro Bradesco, por Nelson Rubens Kunze


Cena do espetáculo 'A flor azul', apresentado pela Osesp [Divulgação/Bianca Tatamiya]
Cena do espetáculo 'A flor azul', apresentado pela Osesp [Divulgação/Bianca Tatamiya]

 

Curtir

Comentários

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.

A ideia de que “sem tensão não há movimento” ultrapassa a dança. Ela aparece na grande literatura (Tolstói talvez seja um dos melhores exemplos), onde os personagens só amadurecem porque vivem em permanente conflito entre desejos, deveres, ideias e realidade. Não há desenvolvimento sem contraste, e não há contraste sem tensão.

O mesmo vale para a arte e para a vida pública. Uma cultura que busca apenas a concordância tende à estagnação; concordar o tempo todo apenas preserva o status quo. Já uma sociedade que aprende a conviver com a dissonância cria espaço para inovação, reflexão e crescimento. Harmonizar não é eliminar diferenças nem impor sincronias permanentes, mas encontrar uma forma de coexistência em que as tensões deixem de ser destrutivas e passem a impulsionar o movimento.

O passado deve ser reverenciado pelo que legou, mas isso não basta. Também deve ser criticado, confrontado e, quando necessário, combatido. Tratar a tradição como algo intocável é condenar a cultura à repetição. O futuro não nasce da obediência ao passado, mas da coragem de enfrentá-lo, de superar seus limites e de transformar seus legados em novos caminhos. Sem essa tensão, resta apenas a estagnação.

É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.