O inesperado está sempre à espreita

No Theatro Municipal de São Paulo, Vimbayi Kaziboni rege obras que reverberam a política Sinfonia de Luciano Berio

Do mar sonoro que inunda o terceiro movimento da Sinfonia de Luciano Berio emerge a voz do narrador. “Ora, então há um público”, nota, quebrando a quarta parede. E inicia um monólogo entrecortado por vozes e citações da música de Ravel, Stockhausen, Mahler, Hindemith, Brahms. “E quando nos perguntam o porquê de tudo isso – é difícil encontrar uma resposta. Pois quando nos encontramos frente a frente, aqui, agora, e eles nos lembram de que tudo isso não pode parar as guerras, não pode rejuvenescer os velhos nem abaixar o preço do pão, mitigar a solidão ou” – e o texto segue.

O maestro zimbabuano Vimbayi Kaziboni quer esse trecho traduzido para o português na apresentação da Sinfonia no Brasil. “Preciso que o público entenda e reflita sobre essa mensagem”, ressalta. Ele rege a obra amanhã e sábado, com a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo.

Kaziboni é fascinado pela obra de Samuel Beckett, de onde vem o trecho usado por Berio. O livro, O Inominável, apresenta o monólogo de um personagem que praticamente não existe. “Ele não sabe quem é, nem onde está, nem quando está. Berio consegue expressar essa sensação de abandono muito bem no terceiro movimento.” Genial e paradigmático, o movimento surpreende pelo artesanato. Pedaços de músicas de compositores antigos e novos são atravessados por textos cantados, falados, gritados e sussurrados. É a expressão do caos de um tempo instável, marcado por protestos, assassinatos e mísseis apontados entre países dos dois lados da Guerra Fria, em pleno ano de 1968. 

A Sinfonia é o fio condutor do restante do programa. A magnum opus virá precedida de uma interessante seleção de peças compostas praticamente ontem, entre 2021 e 2024. Com elas, Vimbayi Kaziboni pretende encapsular a imagem de Berio como artista – e isso significa tanto seu lado compositor quanto militante. "Esteticamente ele foi o primeiro mestre pós-modernista, soube trabalhar com inúmeras referências, e tinha um posicionamento político muito claro. Procurei compositores que estivessem dizendo coisas similares hoje em dia.” 

A compositora austríaca Olga Neuwirth está na lista. O nome de sua obra, Dreydl, significa “pião” em ídiche. E este brinquedo, que gira vertiginosamente, sofre oscilações sob os olhos atentos das crianças – assim como a música. A compositora escreve sobre a obra: “Padrões rítmicos contínuos são usados para sublinhar a circularidade do destino, tal como a que vivenciamos durante a pandemia, em que o tempo foi suspenso e ninguém sabe o que o futuro trará”. Para Kaziboni, foi uma escolha óbvia. “A primeira peça dela que fiz, uma música séria, orquestral, terminava com músicas pop tocadas na guitarra. Isso é muito a estética da Olga, muito parecida com a estética de Berio”, aponta. 

As interrupções de Your Network is Unstable, do norte-americano George Lewis, traz aquela certa instabilidade coordenada que podemos encontrar no terceiro movimento da Sinfonia. Lewis pensou na inconstância da sociedade contemporânea como poética, procurando, de propósito, “um desencorajamento subliminar de qualquer complacência”, como descreve o compositor. Num mundo de likes e câmaras de eco da inteligência artificial, é bem-vinda uma obra que nos tire do eixo. “É uma crítica social sobre como a tecnologia nos faz consumidores e como ela cria uma desconexão social enquanto pretendemos estar sempre conectados”, reflete Vimbayi. “É uma música com muito impulso. Há momentos de silêncio que são interrompidos com gestos urgentes, o que é exatamente o que temos vivido em sociedade.”  

Este mundo hiperconectado e dissociado da realidade material é a marca de uma sociedade desamparada, cada vez mais medicada e administrada, incapaz de refletir criticamente sobre o próprio sofrimento psíquico. Este vazio existencial é o ponto de partida da obra da britânica Hannah Kendall. He stretches out the north over the void and hangs the earth on nothing [Ele estende o norte sobre o vazio e faz a terra pairar sobre o nada] é uma reflexão sobre o desamparo do indivíduo massacrado pela indústria. A compositora encontrou nas cartas de Robert Schumann este estado de espírito ao mesmo conturbado e estático. "Schumann sentia na época que estava naquele espaço, um vazio do qual talvez não conseguisse sair", explica a compositora, em entrevista. 

A obra exige instrumentos não convencionais, como walkie-talkies e caixinhas de música, dois elementos que conferem um caráter sombrio e solitário para a música. Em um ponto da obra, uma pessoa fala no walkie-talkie, e o resultado é uma voz indiscernível, escutada como se viesse de outro planeta. “Isso evoca Berio. Quando o texto finalmente chega, ele não é recitado para ser compreendido. Kendall poderia ter escolhido que uma pessoa falasse no microfone, mas não – ela põe a voz nesse filtro, o que é um tipo de técnica pós-modernista”, reflete Vimbayi.

A densidade orquestral estática é a expressão sonora do desamparo da obra de Kendall. E ela de fato ecoa no segundo movimento da Sinfonia de Berio, dedicado a Martin Luther King. Este organum do século XX revela aos poucos o nome do ativista assassinado em abril de 1968 – o nanquim do manuscrito de Berio ainda fresco. Ninguém melhor do que ele para descrever a poética: “O texto consiste simplesmente na enunciação do nome deste mártir negro. As vozes enunciam os diferentes fonemas do nome, que é gradualmente recomposto em direção ao final: ‘Ó Martin Luther King’”. 
Intriga a atualidade de uma obra composta quase 60 anos atrás, mas a reverberação das obras mais novas do programa revela novos problemas, estéticos e políticos, para resolver. “Se hoje em dia tocamos Berio, tocamos para encontrar maneiras de expressar como nos sentimos, usando a música de um grande artista do passado”, aponta Vimbayi Kaziboni.

A Sinfonia de Luciano Berio foi tocada no Brasil duas vezes, ambas pela Osesp: em 2002, com regência do alemão Lothar Koenigs, e em 2013, sob a batuta da norte-americana Marin Alsop. As execuções coincidem com dois momentos-chave da história política brasileira: 2002, a eleição do primeiro governo de esquerda do país; e 2013, ano das jornadas de junho. Talvez seja uma boa premissa que ela vá soar por aqui novamente, em 2026, acompanhada de obras que também têm muito a dizer sobre o que temos vivido aqui e agora. E se nos perguntam o porquê de tudo isso – é, sim, difícil de encontrar uma resposta. Mas, ao contrário do que afirma o narrador na obra de Berio, não acabou. Há mais uma chance. “Precisamos organizar nossas ideias, pois o inesperado está sempre à espreita.”

Veja mais detalhes no Roteiro do site CONCERTO

O maestro Vimbayi Kaziboni [Divulgação]
O maestro Vimbayi Kaziboni [Divulgação]

 

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