“O violino segundo meus princípios” traz os ensinamentos de um dos maiores professores do instrumento

por Camila Fresca 13/11/2018

O violino é um dos instrumentos mais importantes para o desenvolvimento e o repertório da música clássica ocidental. No entanto, excetuando-se os métodos dedicados aos estudantes (e, ainda assim, muitas obras clássicas têm de ser importadas) a literatura em português sobre o instrumento é extremamente restrita. Só por isso, já é importante o lançamento de “O violino segundo meus princípios” (Violin playing as I teach it, de 1921), de Leopold Auer, em tradução de Luiz Amato e Robert Suetholz (Editora Prismas, 2018). 

O húngaro Leopold Auer (1845-1930) foi um dos mais destacados professores de violino de seu tempo, ensinando, entre outros Jascha Heifetz, Misha Elman, Nathan Milstein, Tosha Seidel e Efrem Zimbalist. Em O violino segundo meus princípios ele conta que iniciou os estudos do instrumento aos seis anos de idade em sua cidade natal e, alguns anos depois, mudou-se para Budapeste, onde estudou no conservatório da cidade pelo método “École de violon”, escrito por Jean-Delphin Alard (1815-1888; Alard sucedeu Baillot como professor no Conservatório de Paris, entre 1843 e 1875), uma vez que “naquela época, a França dominava toda a Europa, musicalmente falando, sobretudo a Europa Oriental. Paris era a visão de um sonho que flutuava diante dos olhos de cada estudante, de cada artista que desejasse reconhecimento”. Mais tarde, Auer ainda foi aluno de Jacques Dont, no Conservatório de Viena. Depois de se formar, foi estudar com Joseph Joachim em Hanover, em 1862, durante dois anos: “foi um marco na minha vida de estudante”, afirma no livro. 

Leopold Auer e ao lado a capa do livro O violino segundo meus princípios [Reprodução]
Leopold Auer e ao lado a capa do livro O violino segundo meus princípios [Reprodução]

O primeiro capítulo evidencia dois aspectos do universo da música, e em especial do violino, próprios da época em que Auer escreve. Um é como, para o aprendizado de um instrumento, era fundamental (e ainda é) a transmissão de conhecimento via relação mestre-aluno. Ainda que dispondo de métodos específicos, há um largo espaço para a subjetividade. Se este aspecto é ainda relevante para o ensino do instrumento nos dias de hoje, o outro mudou muito em quase um século: pelo relato de Auer fica clara a dificuldade de se encontrar material, conhecer o trabalho de outros músicos, aprender ouvindo os grandes mestres – algo que mal podemos recuperar nesta época de ultraconectividade.

É também no primeiro capítulo que Leopold Auer reconta seu período de estudos e algumas de suas experiências mais marcantes – ele conviveu, conheceu, foi aluno (e depois professor) de boa parte dos grandes violinistas de sua época. Durante 49 anos, deu aulas de violino no Conservatório de São Petersburgo, onde era considerado uma sumidade. A família do menino prodígio Jascha Heifetz tentou por diversas vezes fazer com que Leopold Auer o ouvisse, chegando até a se mudar para São Petersburgo, para ficar mais perto do mestre. Quando Auer finalmente concedeu uma audição ao jovem Heifetz, ficou estupefato. “Nunca ouvi ninguém mais genial”, teria dito. Após dois anos de estudos com Leopold Auer, Heifetz fez uma estreia retumbante em São Petersburgo. E, aos 10 anos de idade, estreava na Alemanha solando com a Filarmônica de Berlim. Aos 12 anos Jascha Heifetz era um dos violinistas mais discutidos da Europa, e nunca deixou de reconhecer o papel que Auer teve em sua formação: “ele foi um professor incomparável; não acredito que haja no mundo alguém que se compare a ele. Não me pergunte como ele faz, pois não saberia responder. Mas ele é diferente com cada aluno – talvez essa seja a razão da sua grandeza como professor”.

Auer também desenvolveu carreira como instrumentista, sendo spalla em Düsseldorf e Hanover, liderando um quarteto de cordas e se apresentando como solista. Foi o mais velho dos alunos de Joachim a ter feito uma gravação (em 1920, portanto aos 75 anos!). Em 1918, após a Revolução Russa e aos 73 anos de idade, Auer mudou-se para os EUA, onde seguiu dando aulas: no Instituto de Arte Musical (futura Juilliard School, em Nova York) e no Curtis Institute, na Filadélfia. Foi naquele país que Auer escreveu, além de “O violino segundo meus princípios” outros dois livros e um método de violino em oito volumes.

Assista a Leopold Auer tocando a Dança húngara n.5 de Brahms, aos 75 anos de idade. 

 

“O violino segundo meus princípios” é uma espécie de testemunho e possui um conteúdo um tanto híbrido, podendo servir tanto aos que querem saber mais sobre o grande pedagogo da escola russa de violino como àqueles interessados propriamente na técnica do instrumento. “Não se trata de um método como tradicionalmente se conhece, com exercícios em dificuldade crescente e fotos ilustrativas de postura, mas um testemunho pessoal de seu próprio aprendizado, de suas convicções sobre praticamente todos os aspectos técnicos e musicais de relevância para o violinista, professor e aluno”, afirmam os tradutores na introdução do volume. Além de alargar a restrita literatura sobre o instrumento em português, este lançamento ainda nos dá a chance de conhecer melhor um dos maiores professores de violino do final do século XIX e início do XX.