Vida, amor e morte em um recital memorável

por João Luiz Sampaio 08/09/2026

São Paulo Chamber Soloists interpretaram no Teatro Cultura Artística, ao lado do barítono Paulo Szot, programa fascinante, pela escolha das peças e pela interpretação refinada e sensível

A São Paulo Chamber Soloists apresentou na manhã do último domingo no Teatro Cultura Artística um programa fascinante, pela escolha de peças e pelo diálogo entre elas. Talvez o elemento a unir as obras de Clarice Assad, Gabriela Ortiz, Samuel Barber e Gerald Finzi seja uma reflexão sobre a morte, mesmo quando ela se mascara como vida. Ou sobre as sombras que pairam sobre a fragilidade humana. São temas centrais na história da arte, potencializados por intérpretes criadores cuja visão clara sobre as peças não os impediu de abrir possibilidades múltiplas de leitura.

A apresentação teve início com Antologia de emoções, da brasileira Clarice Assad, que, em sete movimentos, busca retratar uma gama ampla de sentimentos: Wanderer, Tension and release, Frantic, Malleable, Last word, Lachrimae e Joie de vivre. Para descrever as emoções, a compositora recorre a diferentes influências musicais que servem como registro de pausa e recomeço a cada movimento. Os músicos se mostraram atentos a isso, da urgência de Frantic ao humor de Last word ou ao maxixe que encerra a obra como símbolo da alegria de viver; mas também nos lembraram que, quando se aborda emoções, a linearidade é apenas ilusória.

Em Tension and release, por exemplo, Assad propõe o caminho de uma mente ansiosa, atacada por pensamos intrusivos, que aos poucos encontra segurança na esperança de que a dor é temporária. A tensão é colocada de modo tão intenso, porém, que se sobrepõe sobre a liberação e segue pairando sobre os movimentos seguintes, até que parece se desfazer, de fato, em Lachrimae, cuja utilização do termo em latim quer mostrar que as "lágrimas são feitas da falta de esperança, da dor, do medo, e da alegria", como explicou a compositora. É interessante que seja assim, da forma proposta pela São Paulo Chamber Soloists. Pois o tempo da emoção não cabe no instante de um movimento – é a permanência das lágrimas, em toda a sua complexidade, que explica a tensão tanto quanto é forma possível de resolvê-la.

Em seguida, veio La Calaca, de Gabriela Ortiz. O termo faz referência ao esqueleto símbolo das celebrações do Día de los Muertos da tradição mexicana, que propõe a morte como parte natural e festiva da vida. Por isso mesmo, diz a compositora, ela quis criar uma música “repleta de alegria, vitalidade e força expressiva”, com elementos do folclore mexicano, que os músicos recriaram de forma bastante livre e idiomática – mas, em alguns momentos, emulando o movimento dos esqueletos de uma forma frenética que sugeria que mesmo a celebração carrega em si uma tensão interna.

As últimas duas peças do programa trouxeram para a conversa a voz, com a canção Dover Beach op. 3, de Samuel Barber, e o ciclo Let us Garlands bring, de Gerald Finzi, nos quais o barítono Paulo Szot se uniu aos músicos.

Barber inspirou-se em poema de Matthew Arnold que nos leva da calma à impossibilidade, este lugar desterrado onde terminam o texto e a canção e onde se encerra a vida. O compositor encontra o poeta contemplando o ar doce da noite e a tranquilidade do mar, até que as ondas, ao recuar após tocarem a praia, trazem, com sua lenta cadência, a “nota eterna da tristeza”. 

Abre-se um abismo. A música faz da tristeza melancolia; exalta-se, então, ao se dar conta de que não pode haver alegria, amor ou luz: como pode existir paz ou alívio para a dor se estamos fadados a permanecer “como em uma planície escura, atormentados por alarmes confusos de luta e fuga”?

O mar está no movimento das cordas. É metáfora daquilo que, de fora, nos ameaça, mas também dos fluxos internos de consciência e inconsciência. Fora ou dentro, há nuances sob o tormento – e foi comovente o modo como os músicos, de forma sensível, recriaram esses matizes, tão conectados ao canto do barítono Paulo Szot, ele também mestre da expressão, substituindo a alternância entre claro e escuro por um colorido que, quando já não se distinguia, soava dolorosamente humano.

Fechando o programa, o ciclo de Gerald Finzi fez a síntese do programa. As cinco canções de Let us Garlands bring foram compostas a partir de trechos de comédias de Shakespeare. Who is Silvia?, O mistress of mine e It was a lover and his lass são baladas de amor em que a música assume caráter de serenata, de jogos ente amantes, que Finzi retrata com gentileza, leveza, alegria de viver, contrastando com o tom  de Come away, come away, death, uma canção sobre a dor da rejeição – e cada uma delas ganhou, na leitura dos músicos e de Szot um caráter muito particular.

No centro do ciclo, no entanto, está aquela que o compositor Ralph Vaughan Williams definiu como uma das maiores canções da história da música britânica, Fear no more the heat o’the sun. “Não tema mais o calor do sol, nem a fúria do inverno. Cumpriste tua tarefa terrena, voltaste ao lar.” Jovens, rapazes e moças, hão, como todos, retornar ao pó. Nada de mal, então, poderá acontecer. 

É uma canção desafiadora. A escrita carrega uma simplicidade que parece afastar qualquer elemento sombrio ao nos lembrar que não será necessário se preocupar com as agruras do mundo no momento em que a vida cessar. Mas há uma tensão no modo como essa elegia  é sustentada, em especial na escrita vocal, que é difícil de ignorar – ou ao menos foi assim no domingo.

A realidade da morte é suficiente para dar à vida a leveza que aspiramos? Há de fato paz nos momentos finais? 

Como bis, Szot interpretou passagens de musicais como South Pacific e Man of la Mancha, seu primeiro musical e seu próximo espetáculo na Broadway, um repertório que ele interpreta com a verve dos grandes do gênero.

Na saída do teatro, no entanto, restavam as perguntas de Finzi e a melancolia de Barber. Talvez tenha sido o dia cinzento, frio e chuvoso. Ou não.

Apresentação da São Paulo Chamber Soloists com o barítono Paulo Szot no Teatro Cultura Artística [Divulgação]
Apresentação da São Paulo Chamber Soloists com o barítono Paulo Szot no Teatro Cultura Artística [Divulgação]

 

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