Violinista residente da temporada, Lozakovich foi destaque em programa que contou ainda com uma obra da compositora contemporânea Reena Esmail e com a Quinta sinfonia de Prokófiev
Que privilégio é morar numa cidade cuja orquestra pode ter como artista residente um violinista do calibre de Daniel Lozakovich! É verdade que, na última sexta-feira, dia 28, o metrô que levava à Sala São Paulo não poderia estar mais lotado. Porém, se o corpo padecia com o sufoco de uma sardinha em lata, era para que a alma, em breve, se elevasse e voasse desprovida de constrangimentos.
Entrevistei Lozakovich para a Revista CONCERTO no começo do ano. Nascido na Suécia de pai quirguiz e mãe bielorrussa, ele falou de música como um personagem dostoievskiano – uma espécie de reencarnação moderna do príncipe Mýchkin (de O Idiota) ou Aliocha Karamázov. Sobre o concerto de Sibelius, por exemplo, afirmou: “A natureza é só atmosfera. Não é a essência do concerto. Ele tem fator humano, a missão de encontrar a si mesmo, de se conectar à Deus, à eterna fé”.
Porém, muito mais impressionante do que a maneira de Lozakovich falar sobre música é seu jeito de falar pela música. Como é possível tamanha maturidade e bom gosto em um jovem de apenas 25 anos?
Composto em 1904, o Concerto para violino de Sibelius é uma espécie de Himalaia da técnica do instrumento. Como Lozakovich me disse, “nunca antes o violino soou assim. É como se fossem dez violinos”. Nas mãos dele, todos os dez soam de modo lindo – e diferente. Lozakovich desincumbe-se como se nada fossem das excruciantes dificuldades das cordas duplas e dos harmônicos (creio que os do terceiro movimento ficarão para sempre em minha memória). Mas não o faz como exibicionismo, ou exercício de um virtuosismo vazio, e sim a serviço de um projeto poético e narrativo.
Afinal, o concerto de Sibelius talvez seja o mais belo poema jamais escrito em língua finlandesa – e, por prescindir de palavras, aquele destinado a tocar de forma direta o maior número de pessoas. Para Lozakovich, nesta obra, o compositor “luta contra seus demônios. Ama sua mulher e luta contra o alcoolismo. Luta para chegar à divina beleza eterna”. E, após a “música entre vida e morte”, do primeiro movimento, e o “canto quase suicida em meio às estrelas que caem da orquestra”, do segundo, o solista, em catarse, “vence no fim”, passando pela “dança da morte, com muito fogo”, do terceiro movimento.
Com um narrador tecnicamente tão sólido, musicalmente tão convincente e de uma sonoridade tão encantadora como Lozakovich é difícil não concordar. Ele vê ainda a obra como um “combate entre violino e orquestra”. E que admirável contendor a Osesp se revelou sob a direção da chinesa Xian Zhang!
No primeiro quarto do século XXI finalmente mulheres no pódio de orquestras (e como compositoras, nos programas de concerto) têm se tornado um fenômeno menos raro – embora a situação ainda se encontre longe do ideal. Após conduzir a orquestra com segurança pela paleta hollywoodiana de RE/Member, obra composta em 2021 por Reena Esmail, 45, Zhang levou a Osesp a responder à altura ao discurso musical de Lozakovich, produzindo um confronto/diálogo incandescente.
No bis, o violinista deu um gostinho do que seria seu recital de domingo, dia 30, tocando uma obra solo de Bach. Articulação, vibrato, fraseado: materializou-se um instrumentista que era simultaneamente o mesmo e outro, saltando do universo nórdico de Sibelius e do começo do século XX para uma evocação poderosa do cerebralismo arquitetônico e da espiritualidade da concepção que tornam único o universo do mestre do Barroco alemão.
Não haveria mais Lozakovich. Mas a química entre Zhang e a Osesp me fez ficar para a segunda parte. Afinal, seria tocada uma das mais expressivas obras do repertório orquestral russo: a Quinta sinfonia de Prokófiev.
Datada de 1944, quando o compositor já tinha 53 anos, essa talvez seja a primeira sinfonia “ortodoxa” de Prokófiev. Pois, se a primeira era de um neoclassicismo avant la lettre, entre evocação e paródia do universo de Haydn e Mozart, a segunda emulava a estrutura atípica, em dois movimentos, da Sonata op. 111, de Beethoven. Já as duas subsequentes eram subsidiárias de obras para o palco, reaproveitando, respectivamente, material da ópera O anjo de fogo (Sinfonia nº 3) e do balé O filho pródigo (nº 4).
Esta última data de 1930. Ao se debruçar sobre a Quinta, portanto, Prokófiev não apenas se encontrava afastado do gênero há 14 anos, como não arriscara nenhuma sinfonia desde seu regresso à URSS, em 1936.
Nesse meio tempo, seu colega mais jovem, Dmítri Chostakóvitch, consolidara, com sua Quinta sinfonia, de 1937, o paradigma de partitura orquestral soviética em conformidade com as exigências do assim chamado “realismo socialista”. Envolvido, na época, em obras de caráter “bélico” como as três “sonatas de guerra” para piano (nºs 6, 7 e 8), a adaptação operística de Guerra e paz, de Tolstói, e a trilha sonora de Ivã, o terrível, de Eisenstein, Prokófiev saiu-se com uma obra vigorosa e otimista.
Presente à estreia, na Grande Sala do Conservatório de Moscou, em 13 de janeiro de 1945, Sviatoslav Richter descreveu: “quando Prokófiev assumiu seu lugar no pódio e o silêncio reinava na sala, salvas de artilharia ressoaram. Ele esperou, e só começou depois de os canhões pararem. Havia algo de muito significativo nisso, algo de simbólico. Era como se todos nós – incluindo Prokófiev – tivéssemos alcançado uma espécie de ponto de virada compartilhado”.
Os canhões soavam para celebrar o fato de as tropas soviéticas terem cruzado o rio Vístula e marcharem para derrotar o invasor nazista. Seria a última aparição de Prokófiev como regente: alguns dias depois, ele sofreria uma queda em casa, que resultaria em concussão cerebral e, embora ainda vivesse por oito anos, e conseguisse compor, não mais teria energia para assumir a batuta.
Energia não faltou, na última sexta-feira, a Xian Zhang. Precisa e atenta aos detalhes, Zhang extraiu da orquestra as curvas dramáticas e de dinâmica requeridas pela partitura de Prokófiev, deixando todos seus matizes preencherem a Sala São Paulo, e entregando sem reservas o puro júbilo que é a essência da obra.
Nos últimos quatro anos, a gestão da Osesp deu um salto de profissionalização e representatividade, e a atmosfera cotidiana descarregada tem se refletido na qualidade do fazer musical. Dissipadas as nuvens pesadas que por tanto tempo pairaram sobre ela, a orquestra agora pode se expressar como deseja, e se desenvolver como merece. Nós, o público, agradecemos.
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