Percussão de excelência - os 40 anos do grupo Piap

por Leonardo Martinelli 01/07/2018

Pioneiro na percussão clássica, grupo Piap celebra 40 anos como um dos mais bem-sucedidos projetos artístico-acadêmicos do país

Entre os muitos predicados que caracterizam a música brasileira, salta aos ouvidos a exuberância que o ritmo percussivo desempenha em diferentes estratos e estilos musicais criados e praticados em nosso país. Tal característica pode ser parcialmente explicada pela natureza percussiva da música das etnias africanas que integraram o holocausto da escravidão no Brasil: uma vez arraigada em solo sul-americano, a cultura musical africana passou a se mesclar à europeia, e o resultado disso nós vivenciamos em nosso cotidiano cultural. Entretanto, apesar dessa importância, a assimilação de forma mais sistemática da percussão pela música de concerto brasileira se deu apenas após sua legitimação pela “matriz” europeia.

No início do século XX, os instrumentos de percussão ampliaram seu espaço em meio à orquestra sinfônica tradicional e, a partir da década de 1920, consolidaram-se não apenas como naipe orquestral, mas também como tipo de formação instrumental independente, em especial a partir da repercussão e da popularidade de obras como o Ballet mécanique (1924), de George Antheil, Ionisation (1929-31), de Edgard Varèse, e da série de três Constructions (1939-41), de John Cage. A cena musical norte-americana foi um dos mais férteis terrenos para a chamada “percussão contemporânea” – na prática, todas as peças citadas aqui foram estreadas ou gestadas em solo yankee –, e talvez não por acaso esse tipo de prática musical tenha aportado por aqui por meio das mãos e das baquetas de um filho da cidade Buffalo, na costa leste dos Estados Unidos.

Em 1978, com apenas 24 anos de idade, bacharelado pela Universidade do Estado de Nova York e toda a animação e a energia de quem havia vencido o Concurso Internacional de Munique, John Boudler aportou em São Bernardo do Campo (SP), onde então se encontravam as instalações do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e passou a integrar seu corpo docente. Nesse mesmo ano, fundou o grupo de percussionistas do Instituto de Artes do Planalto, que lideraria por 35 anos. Em pouco tempo, a sigla do grupo viria a se tornar não apenas um nome próprio, mas também um dos mais fortes substantivos da música brasileira: Piap, que neste mês comemora quatro décadas de atividades com uma intensa agenda.

Grupo Piap [Divulgação]
Grupo Piap [Divulgação]

As origens do grupo nos ajudam a entender sua singularidade e sua importância na cena clássica brasileira desde então. Como instituição oficial de uma das mais reputadas universidades do país (seus integrantes são necessariamente alunos do curso de percussão do Instituto de Artes da Unesp), o Piap é protagonista na formação de sucessivas gerações de percussionistas de excelência, em atividade não apenas no Brasil, mas também no exterior, seja no cenário popular, seja no clássico (é difícil encontrar no país um naipe de percussão sem algum tipo de presença ou de influência do grupo).

Além da formação, o Piap promove um fluxo constante de pesquisa acadêmica realizada por intérpretes, compositores e musicólogos, inclusive dois estudos fundamentais publicados por seus atuais mentores – O instrumento do “Diabo”, de Carlos Stasi (que em 2013 sucedeu Boudler na direção do grupo), e Percussão orquestral brasileira, de Eduardo Gianesella (codiretor e integrante da Osesp) –, além de uma miríade de artigos acadêmicos, teses de doutorado, dissertações de mestrado e trabalhos de conclusão de curso.

Porém, se engana quem pensa que essa vocação pedagógica do grupo implique algum tipo de demérito do ponto de vista artístico-musical. Pelo contrário, o Piap é pioneiro no terreno do hoje tão celebrado projeto pedagógico de alto desempenho profissional: em 1986, o grupo conquistou o primeiro lugar do disputadíssimo e prestigiado Concurso Eldorado de Música, pelo qual gravou dois LPs (devidamente remasterizados e disponíveis em CD). Já no ano seguinte, o grupo realizou sua primeira turnê internacional a partir de uma série de apresentações no Estados Unidos (hoje o grupo tem seu passaporte carimbado também no Canadá, no México e na China) e passou a abocanhar uma série de premiações.

A excelência artística do Piap não passou despercebida aos olhos nem aos ouvidos de gerações de compositores brasileiros, sendo elemento importante de sua história a enorme quantidade de obras escritas, encomendadas ou estreadas pelo grupo, criadas por nomes como Almeida Prado, Mario Ficarelli, Eduardo Álvares, Willy Corrêa de Oliveira, Marlos Nobre, Jorge Antunes, Edmundo Villani-Côrtes, Flo Menezes, Arthur Kampela, Edson Zampronha, Alexandre Lunsqui, Eduardo Seincman, Roberto Victorio, Rodolfo Valente, Tiago Gati, Matheus Bitondi e Arthur Rinaldi, entre muitos outros. A vocação do Piap para a criatividade se estende aos integrantes, uma vez que o grupo é o berço de diversos percussionistas-compositores, por exemplo o atual diretor e músicos como Fernando Iazzetta, Leonardo Labrada e Henri Brandino.

Várias dessas obras poderão ser conferidas a partir do dia 25 deste mês, quando se iniciam as atividades de celebração pelos 40 anos. Além de diversos concertos, o grupo promoverá uma série de palestras e mesas-redondas sobre sua história, seu processos e a música para percussão de maneira geral. Essa grande festa levará a esse celeiro de talentos ex-integrantes e percussionistas de diferentes gerações: além do fundador, são presenças confirmadas nomes como Elizabeth del Grande, Ricardo Bologna, Fábio Oliveira, Joaquim “Zito” Abreu, Fernando Rocha, Ronan Gil, Vinicius Barros, Nath Calan, Leonardo Gorozito, Eliana Guglielmetti, Elson Oliveira, Catarina Percinio, Wesley Lopes, Daniela Oliveira e Alisson Amador, entre outros. Oportunidade única de conferir num mesmo lugar a nata da percussão brasileira.


AGENDA
Piap – 40 Anos
De 25 a 28 de julho, Instituto de Artes da Unesp (São Paulo)