Salzburg: um balanço

por Jorge Coli 01/10/2018

Algumas ideias depois de 14 óperas, concertos e peças de teatro

Tive a grande felicidade de assistir a vários espetáculos no Festival de Salzburg deste ano. Foram 14, entre óperas, concertos e uma peça de teatro. Escrevi críticas detalhadas para o site da Revista CONCERTO. Mas pode-se, além disso, tentar, senão um balanço, ao menos especulações gerais.

Depois de algumas atividades precursoras desde 1877, o Festival de Salzburg foi criado em 1920. Sua história quase centenária não conheceu, de fato, interrupção: mesmo com a proibição de todos os festivais após o atentado contra Hitler em 1944, houve duas apresentações: a Sinfonia nº 8, de Bruckner, por Wilhelm Furtwängler, e o ensaio geral de O amor de Danae, de Richard Strauss.

Tem seus rituais. Inicia-se sempre com a peça Jadermann, de Hugo von Hofmannsthal, que, junto a Max Reinhardt, criou o festival. 

Mozart, que nasceu na cidade, recebe atenção especial. Há sempre óperas dele, e todos os anos o evento apresenta a Grande missa em dó menor, sempre na abadia de São Pedro, ali, onde o compositor a regeu, sua esposa Constanze cantou a parte do primeiro soprano, e seu pai Leopold assistiu, junto com sua irmã Nannerl. É um momento alto.

O festival mostra-se fiel a artistas que se ligaram a ele, como Norrington ou Pollini; apoia intérpretes originários da cidade e que adquiriram fama internacional; e retoma obras do passado hoje um pouco esquecidas – neste ano, a fabulosa ópera As bassárides, de Hans Werner Henze, e O processo, de Gottfried von Einem, ressurreição de uma notável partitura. Ambas tiveram suas estreias no festival, em 1966 e 1953.

Ópera As bassárides [Divulgação]
Ópera As bassárides [Divulgação]

O Festival de Salzburg reúne, assim, artistas excepcionais: há um “nível Salzburg” que é altíssimo. São apresentações pulsantes, vivas, que unem passado e presente, associando estrelas e jovens intérpretes de formidável qualidade. Nos mais importantes teatros de ópera ou salas de concerto, em que a qualidade é também muito elevada (Metropolitan, Covent Garden, Scala, Carnegie Hall, Barbican Centre, Philhamonie de Paris...), existem variações de nível – nunca muito baixo, está claro, mas demonstrando que é impossível manter, seja onde for, tal esplendor permanente numa temporada de vários meses. 

O festival dura cinco semanas, com apresentações múltiplas e diárias. A venda dos ingressos contribui com € 27 milhões. O poder público, com € 16 milhões. O setor privado, com € 11 milhões. O que dá, aproximadamente, o enorme custo de € 54 milhões.

No entanto, a cidade de 150 mil habitantes recebe, por causa dele, dezenas de milhares de visitantes de todas as partes do mundo, vende  260 mil ingressos, rendendo, direta ou indiretamente, € 183 milhões e criando 2.800 empregos plenos. Gera € 77 milhões em taxas e impostos. Como reúne 680 jornalistas de oitenta países diferentes, irradia-se em grande repercussão internacional.

A lição é límpida: investir em cultura é muito lucrativo. Contudo, esse investimento não pode ser cosmético. É preciso ter seriedade e conhecimento para que o resultado seja, de fato, digno do interesse que provoca.

A flauta mágica no Festival de Salzburg [Divulgação / Salzburger Festspiele - Ruth Walz]
A flauta mágica no Festival de Salzburg [Divulgação / Salzburger Festspiele - Ruth Walz]

No Brasil, temos a malsinada e assim chamada Lei Rouanet, que obedece aos caprichos dos patrocinadores. Com poucas exceções que são por vezes excelentes, não conduz, na maioria dos casos, a um desenvolvimento constante e a projetos sérios; antes, estimula o efêmero, o circunstancial que interessa às empresas.

Diante dessa situação, vale refletir sobre as palavras de Helga Rabl-Stadler, presidente do Festival de Salzburg desde 1995: “‘Você não tem medo de que os patrocinadores tentem influenciar o programa?’ é uma pergunta comum nas seções de artes de vários jornais, especialmente desde que obtivemos tanto sucesso na conquista de patrocinadores. E sempre posso responder de maneira espontânea e honesta: ‘Não, não tenho medo disso’. Nossos patrocinadores são inteligentes demais para não saberem que tentar influenciar o conteúdo do programa resultaria num efeito bumerangue. Pelo contrário, espero que nossos patrocinadores continuem a nos influenciar, no sentido de eles possibilitarem a implementação de projetos que não poderíamos realizar de outra forma por falta de dinheiro”. Acrescenta: “Há, naturalmente, mais ideias artísticas que dinheiro para realizá-las, mas nunca renunciamos a algo importante”. Ela preserva a independência de Markus Hinterhäuser, o diretor artístico.

Sábias palavras. A cultura não pode ficar entregue nas mãos de quem paga. A seriedade e a autonomia das realizações dependem de competências, não de interesses imediatos nem de caprichos mais ou menos amadores. 

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Diário de Jorge Coli em Salzburg