O laboratório musical de Debussy

por Leonardo Martinelli 01/10/2018

Em Pelléas et Mélisande, que sobe ao palco do Theatro Municipal de São Paulo, encontramos uma partitura operística sem precedentes

Ao longo do século XIX, a música passou por um intenso processo de desenvolvimento e transformação, tanto em suas implicações sociais como nos meandros de sua linguagem e sua escritura. A consequência disso foi um impasse quanto ao rumo a ser tomado pelos compositores às vésperas do século XX, a partir da complexa herança que o romantismo os havia legado.

Tal situação foi especialmente acentuada no teatro de ópera, pois no palco lírico os paradoxos típicos do espírito e das artes românticas se materializaram em forma de acirradas disputas, nas quais se antagonizavam os entusiastas do hedonismo à italiana (simbolizado pela obra de Giuseppe Verdi) e os fiéis da grandiloquência alemã (simbolizado pela obra de Richard Wagner), enquanto os franceses situavam-se a um meio-termo entre esses polos, porém sempre a carregar o fardo de seu passado e de sua tradição.

Talvez não tenha sido mera coincidência o fato de um compositor francês romper com esse tensionamento com o qual a arte operística deu seus primeiros passos rumo à modernidade, pois foi dessa maneira que podemos entender a importância musical e histórica de Pelléas et Mélisande, de Claude Debussy (1862-1918).

Em 1893, a peça Pelléas et Mélisande, do belga MauriceMaeterlinck (1862-1949), foi apresentada pela primeira vez no palco do Théâtre des Bouffes-Parisiens, em Paris. Autor comumente associado ao simbolismo, nessa peça Maeterlincktrabalha os ciclos perpétuos de criação e destruição por meio da interação simbólica entre Eros (deus do amor, mas mais especificamente do impulso sexual) e Anteros, seu exato oposto. Essa ideia é materializada no enredo a partir do triângulo amoroso entre Mélisande, noiva de Golaud (um dos netos do rei Arkel), que, no entanto, acaba se apaixonando por seu cunhado, Pelléas. Quando Golaud se dá conta do afeto existente entre Pelléas e Mélisande, em um acesso de fúria, assassina o irmão. Gravemente enferma e grávida, Mélisande jura que o filho não é de Pelléas (antecipando assim a dúvida que anos depois fustigaria o personagem Bentinho de Dom Casmurro, de Machado de Assis) e, antes de morrer, dá à luz uma menina anormalmente diminuta.

Mary Garden, que interpretou Mélisande na estreia da ópera, em 1902 [Reprodução]
Mary Garden, que interpretou Mélisande na estreia da ópera, em 1902 [Reprodução]

Impressionado com a força simbólica do enredo, no mesmo ano em que a peça de Maeterlinck foi estreada, Debussy começou a se dedicar ao projeto de levá-la para o palco de ópera. O início dessa empreitada foi realizado pela cena final do quarto ato (quando ocorre o fratricídio), momento em que o compositor francês também se deu conta do peso da tradição wagneriana na música operística, em especial de sua técnica a partir de “motivos condutores” (Leitmotiv).

Determinado a não se tornar um mero epígono, Debussy faz da partitura de Pelléas et Mélisande um verdadeiro laboratório musical, no qual, em vez de requentar antigas fórmulas, ele inventa combinações e compostos sonoros, um conjunto exuberante de timbres que lhe valeriam a alcunha de “o impressionista” da música de concerto, referência ao movimento das artes plásticas francesas iniciado décadas antes, no qual os traços de delineação cedem espaço a um virtuoso uso do pincel e de matizes da paleta cores.

Como resultado, encontramos em Pelléas et Mélisande uma partitura operística sem precedentes, na qual o lirismo das partes vocais é deliberadamente eclipsado (Debussy chegou a dizer que “a melodia, se é que posso falar isso, é antilírica”) em prol de uma escritura musical que valoriza o conjunto das sonoridades construídas de forma delicada (para dar uma ideia, a ópera conta apenas com quatro fortissimos ao longo de mais de três horas de duração), que convidam a plateia a realizar uma viagem sonora, não teatral, pela sucessão de suaves atmosferas musicais. Não seria isso tudo uma ópera confessadamente antiteatral, uma espécie de precursora da “antiópera”, atitude que caracterizaria o gênero ao longo da modernidade e do século XX?

Além de Debussy, a força do argumento de Maeterlinck influenciaria outros compositores, como Gabriel Fauré, que em 1898 compôs a música incidental para uma nova encenação da peça, e o alemão Arnold Schönberg, que, em 1905, finalizava um poema sinfônico também sob a trágica égide da história de amor impossível entre Pelléas et Mélisande


AGENDA
Ópera Pelléas et Mélisande, de Claude Debussy
Iacov Hillel – direção / Alessandro Sangiorgi – regente
Dias 12, 14, 17, 19 e 21, Theatro Municipal de São Paulo