Música para todos os ouvidos

por Leonardo Martinelli 01/11/2018

Surda desde a adolescência, a percussionista escocesa Evelyn Glennie apresenta-se no Brasil em concerto com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

Nos dias atuais, questões ligadas à diversidade e à inclusão tornam-se cada vez mais proeminentes em políticas e atividades dos mais diferentes tipos de organizações públicas e privadas. Passo civilizatório fundamental, na prática não raro essas questões limitam-se a mera retórica institucional ou a ações mínimas de acessibilidade, como vagas de estacionamento para pessoas com necessidades especiais de locomoção e banheiros adaptados. Porém, o verdadeiro exercício da diversidade e da promoção da inclusão deve ir muito além do mínimo, e como cada área tem seu desafio próprio, na música nada pode ser mais desafiador que a inclusão em suas atividades profissionais de surdos e de pessoas com algum grau de deficiência auditiva.

Na história da música, o caso de Ludwig van Beethoven é o mais célebre exemplo de um surdo que se manteve ativo profissionalmente. Depois de uma infância e uma adolescência de intensa atividade, que incluía não apenas a composição, mas também muitas apresentações como pianista, por volta dos 26 anos de idade os primeiros sintomas de surdez começaram a se manifestar no jovem músico. Logo ele abandou suas atividades como pianista e passou a se dedicar exclusivamente à composição (caminho esse também trilhado por outros compositores que se tornaram surdos, como Gabriel Fauré e Bedrich Smetana), algo possível de ser feito não apenas por sua genialidade, mas, sobretudo, devido a uma sólida formação em escrita musical e solfejo.

Se por um lado a escrita musical pode ser entendida como refúgio aos músicos acometidos pela surdez, por outro quais seriam as opções de alguém nessa condição se manter artisticamente ativo fora do universo abstrato das partituras? A resposta dada pela escocesa Evelyn Glennie é simples e direta: tocar!

Nascida em 1965, ainda muito criança Evelyn passou a se dedicar à música, primeiro com uma gaita e depois com o clarinete. Quando contava com apenas 8 anos de idade, os primeiros sinais de surdez se manifestaram na jovem musicista, que aos 12 anos se encontrava profundamente (mas não de todo) surda, e dessa forma em teoria incapacitada de realizar qualquer tipo de atividade prática em música. Entretanto, sua paixão pela música, aliada a uma persistência e uma sagacidade ímpares, gradualmente a conduziram para uma atividade na qual sua deficiência poderia ser gerenciada: a percussão, pois a natureza acústica desse tipo de instrumento envolve um feedback corporal que vai muito além do ouvido.

Evelyn Glennie [Divulgação / Philipp Rathmer]
Evelyn Glennie [Divulgação / Philipp Rathmer]

“Como musicista, aprendi a usar meu corpo de forma mais holística, vendo-o como uma enorme orelha, um ressonador que acolhe som por todo meu corpo, não apenas pelos ouvidos. Eu não escuto gravações para aprender repertório; portanto, cada passagem de uma peça é uma jornada inteiramente minha, construída apenas com as influências que tenho internamente, já que não me lembro dos sons que crio”, explica Glennie, que neste mês atua como solista junto à Orquestra Filarmônica de Minas Gerais na peça Veni, veni, Emmanuel, um poderoso concerto para percussão múltipla e orquestra composto por seu conterrâneo James Macmillan.

Uma das mais renomadas instrumentistas da atualidade, tendo atuado junto a orquestras, regentes e músicos populares de destaque mundial, Dame Evelyn Glennie percorreu uma longa e pedregosa estrada de ceticismo e preconceito até ter sua arte reconhecida. “O mal-entendido mais comum que ainda hoje existe é que, se você não pode ouvir, logo você não pode e não deve se relacionar com a música. Você é removido do som. Mas o som é vibração, e o corpo é mais sensível à vibração. O corpo ouve mais que os ouvidos! Dessa forma ouço muito quando a música é tocada ao vivo. Eu trago todos os meus sentidos para que, aliado a meu senso de toque, meus olhos se tornem um mecanismo de audição”, explica sobre como supera de forma prática os desafios que toda performance musical acarreta.

As dificuldades que encontrou para encontrar seu lugar ao sol motivaram Glennie a expandir suas atividades para além de sua carreira, sendo responsável, mentora e madrinha de uma série de projetos de inclusão por meio da música. E, nesses termos, ela lança seu alerta para orquestras de todo mundo: “A inclusão é extremamente importante. As atividades de divulgação das orquestras, em que a inclusão está na vanguarda, são fundamentais. Permitir que crianças, professores e famílias fiquem no palco durante alguns ensaios pode fazer uma grande diferença na percepção das pessoas sobre o que fazemos como músicos e como isso se relaciona com o público. Alcançar a comunidade surda pelo marketing também é importante, bem como oferecer sistemas de aparelhos auditivos para escuta da música, certificar-se de que estejam instalados e funcionando. Garantir que funcionários e voluntários sejam treinados na comunicação com membros da audiência com deficiência auditiva e entender que o produto no palco deve estar disponível e acessível a todas as pessoas”, conclui Glennie, mostrando que mesmo para coisas aparentemente impossíveis há soluções. Basta estar de ouvidos e coração abertos.  [Leia também notícia sobre a Orquestra Moderna  na página 6.]


AGENDA
Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

Evelyn Glennie – percussão
Fabio Mechetti – regente
Dias 29 e 30, Sala Minas Gerais (Belo Horizonte)