Os anos “redondos” de uma preciosa geração

por Júlio Medaglia 01/12/2018

Morozowicz, Bocchino, Tavares, Miranda, Krieger e Belardi – o trabalho inesquecível de músicos que nasceram em anos do algarismo símbolo do infinito

Em minha busca incessante por motivos curiosos e culturalmente importantes para tornar meu programa Fim de tarde na Rádio Cultura FM o mais interessante possível – há mais de trinta anos – passei por uma data, neste 2018, que lembrava as comemorações dos 70 anos do flautista e regente brasileiro Norton Morozowicz. Pronto! Estava aí um bom assunto para um programa, mesmo porque, na discoteca da Cultura, existe mais de uma dezena de gravações dele – tocando sua flauta mágica e regendo orquestras país afora, sempre com repertório interessante. Uma hora de programa seria pouco para homenagear esse excelente músico nascido em Curitiba, em 1948, que estudou no Rio de Janeiro e depois na Alemanha, com Aurèle Nicolet, ex-primeiro flautista da Filarmônica de Berlim. Na época, Norton se dava ao luxo de fazer duetos com Jean-Pierre Rampal, um dos maiores flautistas de todos os tempos. 

Norton Morozowicz foi durante 17 anos primeiro flautista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Como regente, além de atuar diante de nossas melhores orquestras, foi fundador da Orquestra de Câmara de Blumenau, seguramente o melhor conjunto brasileiro do gênero. Foi diretor artístico do Festival de Londrina e idealizador dos festivais de música de câmara de Blumenau. Desenvolve também excelente carreira de professor transferindo às novas gerações conhecimentos do instrumento, o qual domina como poucos. Com a Orquestra Sinfonia Brasil, criada por ele, já realizou gravações de autores brasileiros, sempre em elevado nível técnico e artístico. 

Então, vasculhando o site da Academia Brasileira de Música, notei que outras figuras importantes na vida musical brasileira eram também lembradas neste ano que termina por completarem aniversários que fecham décadas de vida. Seriam necessárias muitas páginas nesta revista para prestigiar à altura o centenário de Alceo Bocchino, por exemplo. Excelente regente, fundador da Orquestra Sinfônica Nacional, a qual dirigiu por treze anos, período áureo dessa orquestra, e mais tarde também da Sinfônica de Curitiba. Foi um dos colaboradores mais próximos de Villa-Lobos, revisando muitas de suas obras. Tinha um domínio do artesanato musical, como regente, compositor e arranjador, como poucos no país. Ao assistir certa vez a um recital seu como pianista acompanhador em canções alemãs, os Lieder, cheguei a compará-lo, num artigo, a Gerald Moore, tais eram a sofisticação e a eficiência de sua participação no duo. Como compositor, conheci obras de Bocchino que nada devem a um Shostakovich ou um Bartók. Regente de primeira de nossas orquestras, pertenceu à geração de músicos eruditos que colaborou com nossa cultura popular nos grandes tempos das rádios, com suas orquestras maravilhosas.

Norton Morozowicz [Divulgação]
Norton Morozowicz [Divulgação]

Outra figura, cujo aniversário de 90 anos seria comemorado com entusiasmo se aqui estivesse, é Mário Tavares. Excelente violoncelista, foi por anos diretor da orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, atuando diante de seus corpos estáveis com rara segurança. Teve também intensa atividade com orquestras de rádio e de estúdios de gravação, numa época em que o som sinfônico fazia parte do repertório auditivo de nossa gente. 

E não só pessoas que já se foram devem ser lembradas neste enigmático ano. Atuando como professor de composição na USP, um compositor-símbolo de sua geração, Ronaldo Miranda, completou 70 anos em 2018. Tendo recebido há quarenta anos um prêmio de composição no Rio de Janeiro, viu rapidamente sua carreira e seu prestígio de compositor deslancharem nacional e internacionalmente. Autor de obra extensa, diversificada e da melhor qualidade, compôs três óperas, gênero pouco presente na criação dos atuais autores brasileiros. Suas óperas Dom Casmurro, A tempestade e O menino e a liberdade foram estreadas com sucesso aqui em São Paulo. 

Tão vivo e criativo como Miranda, temos o compositor Edino Krieger, que, pelos 90 anos completados neste ano, já mereceu capa e um artigo meu nesta Revista CONCERTO.

Seria injusto, porém, se deixássemos de mencionar um artista paulista que seria agora lembrado pelos 120 anos de seu nascimento e que encheu de música nossa cidade no segundo pós-guerra: Armando Belardi. Formado em violoncelo pela Academia de Santa Cecilia de Roma, com brilhante passagem pela instituição – como me relatou um ex-colega seu por ocasião de uma visita minha pela capital italiana –, estudou também piano, pois seu objetivo era tornar-se regente e especialista na ópera italiana, repertório que dominou como ninguém em nosso país. Belardi foi responsável pela formalização dos corpos estáveis do Theatro Municipal de São Paulo, com os quais apresentou em primeira mão, como diretor artístico por anos, obras básicas do repertório coral-sinfônico como a Nona sinfonia de Beethoven, Carmina burana de Carl Orff ou o Réquiem de Verdi. Além disso, criou corpos artísticos também para a antiga Rádio Gazeta de São Paulo. Arregimentando os melhores músicos da cidade e trazendo outros tantos do exterior, formou uma orquestra, um coral e um grupo de solistas de primeiro nível, com os quais fazia, semanalmente, a apresentação de uma ópera compacta aos sábados – Cortina Lírica – e aos domingos um concerto sinfônico completo, pelo qual passaram grandes regentes e solistas internacionais. 

De minha parte, que nasci em 1938, tendo, portanto, neste ano duas vezes o algarismo em minhas celebrações, continuo me esforçando para fazer jus à companhia dessas figuras tão importantes e queridas, que realizaram um trabalho que será para sempre inesquecível – mesmo porque, o 8 é também o símbolo do infinito...