Músicas políticas

por Jorge Coli 01/12/2018

Mário de Andrade e uma reflexão sobre como a música move as coletividades]

Escrevo esta página enquanto ouço Rigoletto. Apesar de minha atenção para com a escrita, Verdi joga a alma para lá e para cá com violência. Alimenta-as de energias. Fico torcendo para que elas passem um pouco nestas minhas frases.

Lembro-me de Mário de Andrade escrevendo sobre essa ópera. Redigiu essa passagem no início de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Quatro longos artigos, intitulados “Músicas políticas”, quatro análises profundas das características musicais que correm por meandros provocados pelo espírito de improviso: idas, vindas e digressões. Quatro artigos que, no entanto, não perdem de vista as formas sonoras de expressões coletivas, a maneira de conduzir os sentimentos humanos pelos sons. Descrevendo como essas formas vivem, circulam, batem e combatem com propósitos políticos.

Mario de Andrade (por Lasar Segall, 1927) [Reprodução]
Mario de Andrade (por Lasar Segall, 1927) [Reprodução]

No caso de Rigoletto, constata a reiteração de um motivo rítmico: “Uma semicolcheia em arsis seguida de colcheia em thesis”. Tá-tam: um tá rápido, um tam apoiado. Diz o autor: “É que os compositores, sempre que pretendem exprimir uma fatalidade má que nos subjuga, um decreto perverso do destino, uma punição que nos escraviza, se utilizam muito desse motivo rítmico”. Mário de Andrade chega a dizer que poderia mesmo se chamar “tema da escravidão”. Talvez a denominação tema seja demais, não sei. Talvez “célula da escravidão” fosse mais apropriado, embora célula e escravidão, juntas, possa parecer confuso. Mas não importa: entende-se perfeitamente o que ele quer dizer quando constata onde está presente, acompanhando de modo obsessivo o Iberê de Carlos Gomes assim como a escravidão dos nibelungos de Wagner. Vai buscar ainda outra aparição, mais inesperada, dessa célula no início de Sonata ao luar, de Beethoven, que caracterizaria um “valor doloroso, tão trágico de fatalidade e abatimento”.

Aqui se destaca Rigoletto. A citação é longa, todavia tão admirável: “Quero chamar ainda a atenção dos conhecedores para o caso esplêndido de Verdi, significativo de sarcástico, de trágico, de cômico, de dolorosíssimo, do ‘lará, lará’ que precede a ária de Rigoletto no segundo ato, ‘Cortigiani, vil razza danata’. O motivo rítmico é o mesmo, e […] ele modifica seu sentido de abatimento, sem perder a fatalidade, fazendo a melodia subir. Pois obrigado pela sua comicidade de bufão, mas desgraçado pelo rapto da filha, entre pândego e trágico, o canto de Rigoletto repete interminavelmente o ritmo da fatalidade, mas a linha ora sobe, ora desce, entre decisão e abatimento, como de um furor desnorteado que não sabe o que fazer. Na realidade é preciso estudar mais Verdi. O gênio dele não é boniteza vocal só, como imaginam os levianos”.

Mário de Andrade afasta-se em modo evidente das análises formalistas que dominaram a modernidade, porque está fascinado por uma arte que seja atuante, que intervenha no mundo. 

Mário de Andrade afasta-se em modo evidente das análises formalistas que dominaram a modernidade, porque está fascinado por uma arte que seja atuante, que intervenha no mundo. É uma análise que tende para o geral teórico, mas que pressupõe um projeto normativo.

É impossível resumir aqui toda a complexidade que os textos de Mário de Andrade contêm. Resulta num ensaio semântico, ou “semiótico”, caso se prefira, capaz de envolver vários registros da apreensão musical, da mais física à mais simbólica. Notável é o percurso que parte descrevendo o papel que tem o ritmo nas músicas “políticas”: importância nula, ou quase, da rítmica contida nos textos poéticos; preponderância do ritmo binário, derivado do passo humano – arsis como impulso inicial, thesis como estabilidade conclusiva. Tudo isso envolve relações fisiológicas. Mas eis que o “tema da escravidão” projeta o fisiológico no simbólico: determinada célula rítmica significando em nossa cultura submissão e fatalidade. E a ela se acrescenta uma intrínseca propriedade da melodia, que “sobe” ou “desce”, numa relação em que o sentimento físico se encontra com a percepção semântica. Encontro “natural” e inevitável em nossa cultura. Mário de Andrade ensina que as afirmações de liberdade se fazem, nos cantos que estuda, por meio de um desenho melódico ascensional. Mas que não é apenas melódico: é físico, corporal, projetando a liberdade na “dinâmica das alturas”.

Mário de Andrade trouxe, com esses textos, reflexão essencial para quem estiver interessado em entender como a música move as coletividades. E também para o compositor que quiser investir política e socialmente em suas composições. Embora esses artistas sejam difíceis de achar, artistas que seriam tão necessários nestes tempos conturbados em que vivemos.