“O messias”, de Händel, no original e em releituras

por João Luiz Sampaio 01/12/2018

Oratório será apresentado no Theatro Municipal de São Paulo, que também apresenta El niño, de John Adams; Osesp interpreta Too Hot to Handel

Mozart ofereceu uma boa definição a respeito da personalidade musical de Händel. “Quando assim deseja”, escreveu, “ele nos atinge como um raio”. Pois, na noite de 13 de abril de 1742, o compositor assolou com uma verdadeira tempestade o mundo musical ao realizar a estreia do oratório O messias. Nele, Händel narra os principais episódios da vida de Jesus Cristo, do nascimento à ressurreição. E a intensidade dramática com que o faz logo tornou a obra um clássico, presença constante nos palcos de todo o mundo, em especial na época de Natal.

Quem quiser ouvir a peça em sua versão original terá duas chances logo no começo deste mês, quando a obra sobe ao palco do Theatro Municipal de São Paulo. A regência é de Roberto Minczuk, que terá a seu lado um time de solistas do qual fazem parte a mezzo soprano Luisa Francesconi e o barítono Michel de Souza.

No entanto, quando tratamos de grandes clássicos, que se misturam à tradição e à cultura ocidental de forma tão intensa, é natural que deles nasçam releituras. E duas delas também estarão presentes na agenda de dezembro, com novos olhares a respeito de Händel e da própria forma do oratório: Too Hot to Handel, que encerra a temporada deste ano da Osesp sob regência de Marin Alsop, e El niño, de John Adams, outra atração do mês no Theatro Municipal de São Paulo, mais uma vez com Minczuk.

Cena do oratório El niño, no Festival Spoleto, em 2015 [Divulgação]
Cena do oratório El niño, no Festival Spoleto, em 2015 [Divulgação]

Improvisação

Too Hot to Handel faz um trocadilho com o nome do compositor e o verbo em inglês handle, que significa “manusear”, “lidar”, “suportar”. A expressão too hot to handle, por sua vez, refere-se a algo moderno, excitante, estimulante – termos que com certeza passaram pela mente de Alsop quando, ainda nos anos 1990, teve a ideia para uma versão contemporânea de O messias a ser apresentada pela Concordia Orchestra.

“Há tempos eu imaginava a possibilidade de um remake de O messias à luz do século XX. Eu podia, por exemplo, visualizar claramente o coro Aleluia se tornando um coro gospel”, escreveu ela em um artigo de 2006. “O próprio Händel estava aberto à ideia de que cantores e instrumentistas adicionassem suas ornamentações e seus improvisos, e Mozart também criou sua versão atualizada de O messias. Então, o conceito me parecia bastante coerente. E tudo começou a se encaixar.”

O resultado é uma releitura em que a improvisação ganha protagonismo e na a música de Händel dialoga com a cultura gospel norte-americana e o jazz, por meio de arranjos de Bob Christianson e Gary Anderson, ambos com um histórico de trabalhos na Broadway ao lado de artistas como Marvin Hamlisch, no cinema e na televisão. “O DNA da peça está intacto. Os textos, as melodias, a estrutura. Todo o resto, porém, foi retrabalhado para nosso tempo. Händel adoraria”, diz Alsop.

 

Visão feminina

El niño, de John Adams, por sua vez, nos leva em outra direção. Escrevendo sobre a primeira gravação da obra – que inclui solistas, coro, coro infantil e grande orquestra –, o crítico da revista Gramophone tentou defini-la em poucas palavras: “É a versão multicultural, pós-feminista, minimalista de O messias de Händel, a partir de fontes que vão de profetas anteriores a Cristo a escritoras de língua hispânica do século XX”. 

O esforço do crítico é louvável. Contudo, entender El niño exige um pouco mais de contexto. Em sua obra para o palco, John Adams opta constantemente por dialogar com temas da contemporaneidade. E, em algumas delas, a relação é relativamente direta. Nixon in China trata da visita do presidente americano Richard Nixon à China; Doctor Atomic aborda a criação da bomba atômica; The Death of Klinghoffer,a morte de um turista judeu em um navio sequestrado por árabes. 

Em El niño, no entanto, o ponto de partida é mesmo o nascimento de Cristo e sua infância. O que estabelece o contato com nosso tempo é o tipo de fonte utilizada por Adams e seu libretista Peter Sellars. Para fugir da narrativa oficial, eles se apoiam em passagens dos Evangelhos apócrifos, que oferecem versões diferentes da oficial e por isso mesmo foram banidos pela Igreja católica. E não só: utilizam ainda uma série de poemas de autoras como Gabriela Mistral, Sor Juana Inés de la Cruz e Rosario Castellanos, cujas obras, em diferentes momentos da história, tratam da opressão às mulheres, tornando-se leituras de referência para o movimento feminista.

Com isso, o nascimento de Cristo é narrado por meio do olhar das mulheres de sua vida, em especial sua mãe, afastando-se do original e ganhando enredo próprio. “Eis uma história sobre uma mãe muito pobre e suas duas filhas e sobre o que acontece quando aqueles que estão no poder abusam da confiança dos desamparados”, diz Adams. Uma história, infelizmente, atemporal. 


AGENDA
O messias, de Händel
Orquestra Sinfônica Municipal
Roberto Minczuk
– regente
Dias 1º e 2, Theatro Municipal de São Paulo

Too Hot to Handel
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Marin Alsop
– regente
Dias 13, 14 e 15, Sala São Paulo e dia 16, Masp

El niño, de John Adams
Orquestra Sinfônica Municipal
Roberto Minczuk
– regente
Dias 14 e 15, Theatro Municipal de São Paulo