André Mehmari

Compositor e multi-instrumentista estreia nova obra sinfônica e se consolida como um dos maiores talentos de sua geração

Osesp, Orquestra Sinfônica Brasileira, Filarmônica de Minas Gerais, Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, Quinteto Villa-Lobos, Antonio Meneses, Ricardo Castro, Marília Vargas, Roberto Minczuk, Victor Hugo Toro, Marin Alsop, Abel Rocha… A lista está longe de ser completa, mas chama atenção pela representatividade. Na última década, orquestras, grupos de câmara, regentes e instrumentistas de ponta em atividade no Brasil encomendaram, interpretaram ou gravaram obras de André Mehmari. Aos 41 anos de idade, nascido em Niterói, criado em Ribeirão Preto e radicado em Mairiporã (SP), o multi-instrumentista e compositor conseguiu, no cenário da música erudita brasileira, um destaque no mínimo equivalente à sua brilhante carreira na música popular – uma trajetória que parece ecoar, guardadas as devidas proporções, a do gaúcho Radamés Gnattali (1906-1988), igualmente bem-sucedido em ambas as áreas.

Neste mês, ele estreia aquela que talvez seja sua obra mais ambiciosa: Torém , o índio e o mar – Cantata para vozes e orquestra sinfônica. Com meia hora de duração e participação da Orquestra Experimental de Repertório, Coro Adulto da Escola Municipal de Música e Marlui Miranda como cantora solista, será apresentada, com regência de Jamil Maluf, no Theatro Municipal de São Paulo no dia 16. Deve ser gravada pela TV Cultura e subir ao palco do mesmo teatro novamente no ano que vem, em 27 de janeiro, na semana do aniversário da cidade.

André Mehmari [Divulgação / Gal Oppido]
André Mehmari [Divulgação / Gal Oppido]

A ideia surgiu em maio deste ano, quando Mehmari tocou sob a regência de Jamil Maluf na Virada Cultural, no Theatro Municipal. “Eu tinha uma ideia fixa: havia muitos anos queria encomendar uma obra sobre a cultura musical de alguma tribo indígena brasileira”, afirma o regente. “Na música erudita brasileira, fala-se muito da herança negra, mas a tradição indígena nós conhecemos pouco, está pouco representada.”

Mehmari, para quem Jamil vem encomendando arranjos desde que, aos 18 anos, mudou-se para São Paulo para estudar música na USP, abraçou a ideia com entusiasmo. De cara, ambos decidiram que Marlui Miranda, que tem uma trajetória umbilicalmente ligada à música dos índios, estaria envolvida no projeto. Além de atuar como solista e de treinar o coro na pronúncia correta do texto, foi ela quem forneceu os temas musicais dos índios tremembé, do Ceará, que constituem o esqueleto da obra.

“O Torém é tido como o cancioneiro sagrado desses índios tremembé. Eles já têm muito de sincretismo. As palavras, por exemplo, são misturadas com o português”, explica Mehmari. “Usei cerca de cinco temas, sendo que o principal, Água de Mani, abre e fecha a peça. E também criei temas a partir dos textos deles. Eu meio que me fiz de índio”, brinca.

“Em todos os lugares, o público aplaudiu de pé, o que não é comum em uma obra nova. Acho André um talento excepcional: ele é o grande talento brasileiro de hoje. Meu sonho é que ele escreva um concerto de violoncelo para mim”
Antonio Meneses, violoncelista

Encomendas

A cantata coroa um ano especialmente prolífico em encomendas nacionais e internacionais para Mehmari. Em 20 de abril, na Sala São Paulo, em recital solo, estreou mais uma partitura pedida pela Osesp: os Estudos intervalares brasileiros, conjunto de seis peças, com 17 minutos de duração, em que cada uma delas tem uma ligação íntima com um gênero brasileiro, como toada, baião e valsa de esquina. A obra deve ser editada pela Editora da Osesp no ano que vem.

No mês seguinte, estava no Chile, tocando piano e regendo, do teclado, um programa da Orquestra de Câmara de Valdivia, cujo diretor musical é o spalla da Osesp, Emmanuele Baldini. “Acredito que André seja um dos grandes presentes que o Brasil moderno se concedeu e concedeu ao mundo”, afirma Baldini. “Seu concerto recente, com a orquestra no Chile da qual sou diretor musical, foi um evento que por muito tempo será lembrado. André é um daqueles artistas que combinam num equilíbrio perfeito talento, disciplina e uma consciência do artista na sociedade em que vive. Um ‘grande’ num Brasil que precisa tanto de artistas e pessoas como ele”, diz o violinista.

“É o trabalho de quem tem facilidade para escrever, devido a seu talento. Ele escreve como toca – a música é fluente, sai fácil de dentro dele. Mehmari é uma conjunção de conhecimento sólido, espontaneidade e talento musical”
Jamil Maluf, maestro

Em junho, foi a vez de atravessar o Atlântico para se apresentar na França com a Orquestra Regional da Normandia, regida por Jean Deroyer – especialista em música contemporânea. O programa incluía Suíte para os Jogos Pan-Americanos e Meu Brasil, uma nova obra para piano e orquestra, encomenda da Regional da Normandia, também na forma de suíte, em que Mehmari foi o solista. As peças foram apresentadas no Teatro de Caen, sede da orquestra de câmara, e em Paris, na Sala Gaveau – a mesma em que, em 1927, Villa-Lobos fez uma apresentação histórica de suas obras para o público francês.

Mais recentemente, no fim de outubro e começo de novembro, o violoncelista Antonio Meneses – com quem Mehmari gravou em duo, para o Selo Sesc, no ano passado, o CD AM 60 AM 40  festejando os aniversários de ambos – saiu em turnê pelos Estados Unidos com Paul Galbraith, um violonista escocês que já morou no Brasil e que toca um instrumento peculiar desenvolvido por ele mesmo, chamado de violão Brahms. Trata-se de um violão de oito cordas (portanto, duas a mais que o instrumento “normal”) que ele empunha na posição de violoncelo.

Para as apresentações, a dupla encomendou a Mehmari uma obra nova: Suíte lírica – quatro lugares de um Brasil imaginário, peça em quatro movimentos, todos eles sobre cidades inexistentes. Há, por exemplo, uma Cordisburgo do Sul, em homenagem ao escritor Guimarães Rosa. “2018 foi um ano muito difícil, e enveredei por esse Brasil imaginário, que nos trouxe conforto e consolo diante de tanta barbárie”, conta o compositor.

Scott Cmiel, diretor do programa de violão da San Francisco School of the Arts, que esteve presente em uma das apresentações, escreveu que a obra de Mehmari “é uma reinvenção fantástica da suíte barroca, evocando canto antigo, um bufão místico, uma árvore mágica, um deus das águas e mais. É uma obra nova, mas Meneses e Galbraith distinguiram-se em uma performance altamente virtuosística e envolvente, que fez o público delirar”. 

“Em todos os lugares, o público aplaudiu de pé, o que não é comum em uma obra nova”, conta Meneses. “Acho André um talento excepcional: ele é o grande talento brasileiro de hoje. Meu sonho é que ele escreva um concerto de violoncelo para mim. No ano que vem, tenho que estrear o concerto de Marlos Nobre, mas o próximo eu gostaria que fosse dele.”

Galbraith também reagiu com entusiasmo. “À medida que a música começou a chegar, via e-mail, minha empolgação crescia a cada nova parcela. O nível de inspiração era alto, de tirar o fôlego, com melodias inesquecíveis jorrando continuamente, de forma aparentemente espontânea. De fato, a força de André em todas as três manifestações fundamentais do pensamento musical – melodia, ritmo e harmonia – é surpreendente.”

“Para mim, além da pura fluência e do virtuosismo da escrita do André, sua música tem uma franqueza emocional que é desconcertantemente genuína”, continua o violonista. “E acho que, na rica gama de qualidades que se encontram na música de André, essa é a que eu mais valorizo.” Galbraith já encomendou uma nova peça a Mehmari – dessa vez, uma obra solo para seu violão Brahms.

Além das obras para Galbraith, o sucesso do disco com Meneses rendeu a Mehmari a possibilidade de um ambicioso projeto fonográfico para o Selo Sesc. Em março do ano que vem, ele recebe, no estúdio Monteverdi, que construiu na serra da Cantareira (onde foi gravado o último CD dado como brinde para os assinantes da Revista CONCERTO, o álbum solo de estreia do jovem pianista Leonardo Hilsorf), em Mairiporã, uma seleta camerata formada por músicos de cordas dirigidos e arregimentados por Baldini. Eles vão gravar seu Ballo  para orquestra de cordas e a integral dos concertos para instrumento solista e cordas compostos por Mehmari. Ao todo, são seis obras, tendo como solistas Gabriele Mirabassi (clarinete), Júlio César (acordeão), José Staneck (gaita), Fabio Cury (fagote), Paola Baron (harpa) e os dois membros de seu trio de música popular, Neymar Dias (contrabaixo) e Sérgio Reze (bateria).

“Meu desenvolvimento foi muito devido às encomendas, a poder ouvir e aprender o que funcionou mais e o que funcionou menos.” 

 

Gestado na prática

Difícil demarcar, na trajetória de Mehmari, quando ele começou a vida de compositor “erudito”. “Minhas primeiras composições totalmente notadas para piano solo começam com 13 anos – foi encomenda de uma escola de música de Ribeirão Preto, que queria um conjunto de obras tecnicamente simples que fossem estimulantes para os alunos iniciantes de piano. A referência era Mikrokosmos, de Belá Bartók, que eu já estudava na época”, conta.

Um ponto de virada importante foi a vitória no Concurso de Composição Camargo Guarnieri, da Orquestra Sinfônica da USP, em 2003, com Omaggio a Berio. Contudo, ele ainda se surpreende com o aluvião de encomendas que veio em seguida. “Não só não esperava, como nunca me planejei para isso nem tive estratégia para chegar aí. As encomendas me absorveram: desde 2005 eu não me sento para compor por conta própria, a meu bel-prazer, a não ser canções populares.”

E a própria dinâmica de ter obras constantemente tocadas contribuiu para o aprimoramento de sua escrita orquestral: “Meu desenvolvimento foi muito devido às encomendas, ao estímulo de poder ouvir ao vivo e aprender empiricamente o que funcionou mais e o que funcionou menos. Sou um músico gestado na prática”. 

“Mehmari é um dos músicos mais criativos, competentes e preparados da atualidade”
John Neschling, maestro

Na opinião dos regentes com que a Revista CONCERTO conversou, essa gestação deu um rebento robusto e vigoroso. “Ele sabe o que está fazendo, como conjugar os timbres orquestrais. É uma orquestração construída por um compositor com sólidos conhecimentos musicais”, afirma Maluf. “É o trabalho de quem tem facilidade para escrever, devido a seu talento. Ele escreve como toca – a música é fluente, sai fácil de dentro dele. Mehmari é uma conjunção de conhecimento sólido, espontaneidade e talento musical.”

Colegas de Jamil que já executaram obras do compositor ecoam seus elogios. “Mehmari é um dos músicos mais criativos, competentes e preparados da atualidade”, crava John Neschling, que apostou no músico ainda em 2006, quando ele completava 30 anos de idade, e encomendou, para a Osesp tocar na Sala São Paulo, Suíte de danças reais e imaginárias. “Considero André Mehmari um genial músico da nova geração que desponta no Brasil. Sua linguagem aborda, pela multiplicidade de temas, um universo que não se restringe à música instrumental; ela caminha livremente em varias dimensões”, corrobora Isaac Karabtchevsky. “Não há dúvida de que ele é convictamente brasileiro, mesmo quando brinca com Mozart e improvisa com o serialismo, propondo um estilo único e inigualável”, afirma o maestro, que gravou, com a Orquestra Petrobras Sinfônica, em 2011, Contraponto, ponte e ponteio para orquestra sinfônica, do compositor. “André Mehmari é um dos mais talentosos e multifacetados músicos brasileiros. Sua flexibilidade como pianista, camerista, compositor, faz com que ele seja a própria definição do ecletismo”, afirma Fabio Mechetti, diretor artístico e regente titular da Filarmônica de Minas Gerais. “Para a inauguração da Sala Minas Gerais, em 2015, encomendamos, entre outros compositores importantes, uma obra de Mehmari (Divertimento), que mostrou a pluralidade e a riqueza de ideias que vieram a confirmar essa linguagem própria que o define.”

“André Mehmari é um dos mais talentosos e multifacetados músicos brasileiros. Sua flexibilidade como pianista, camerista, compositor, faz com que ele seja a própria definição do ecletismo”
Fabio Mechetti, maestro

Uma pluralidade que vai continuar a levá-lo, no ano que vem, para fora do Brasil. Em janeiro, Mehmari participa do XIII Festival Internacional de Música de Cartagena, que reúne na Colômbia atrações do quilate da pianista canadense Angela Hewitt, da Philharmonia Orchestra e dos English Baroque Soloists, sob regência de John Eliot Gardiner. No dia 9, ele dá recital solo e, em seguida, apresenta-se com a Banda Sinfônica de Cajicá (não custa lembrar que Mehmari foi compositor residente da saudosa Banda Sinfônica do Estado de São Paulo em 2007).

Na semana seguinte, dia 15, seu trio com Neymar Dias e Sérgio Reze toca com o percussionista Rogério Boccato no descolado Dizzy’s Club Coca-Cola, em Nova York – que é considerado o braço do jazz do Lincoln Center, embora localizado no Time Warner Center. As atividades na música popular incluem ainda Rã, disco de canções em parceria com Bernardo Maranhão e Alexandre Andrés, um álbum em duo com a cantora portuguesa Maria João e o CD Na esquina do clube com o sol na cabeça, com Neymar e Reze. Tudo isso, obviamente, se sobrar tempo, entre uma encomenda erudita e outra. 

“Considero André Mehmari um genial músico da nova geração que desponta no Brasil. Sua linguagem aborda, pela multiplicidade de temas, um universo que não se restringe à música instrumental; ela caminha livremente em varias dimensões”
Isaac Karabtchevsky, maestro


AGENDA
Orquestra Experimental de Repertório
Coro Adulto da Escola Municipal de Música
Marlui Miranda
– voz / Jamil Maluf – regente
Dia 16, Theatro Municipal de São Paulo