Homo ludens: Leo Brouwer, 80 

por Sidney Molina 01/03/2019

O violonista Sidney Molina, membro fundador do quarteto de violões Quaternaglia, escreve sobre os 80 anos do compositor cubano

“A cultura é um enorme panorama, uma paisagem maravilhosa, mas que deve ser vista através de janelas; dez janelas, nove fechadas e uma aberta. Eu trabalho em muitas dessas nove que estão fechadas. Seria bom se todas elas pudessem se abrir mais frequentemente, porque a cultura é infinita, é grande. A cultura é, para mim, um romance de Alejo Carpentier, mas é também a maneira como se toma um café, como se anda pela rua.”

A citação foi extraída de um depoimento do compositor, regente e violonista Leo Brouwer. Nascido em Havana em 1º de março de 1939, ele completa 80 anos neste mês.

Sua trajetória é bela e complexa. Órfão desde cedo, utilizou a solidão para mergulhar profundamente nos estudos, o que o levou a construir uma obra autoral volumosa e que não recusa nenhum elemento técnico ou poético disponível à contemporaneidade; ao mesmo tempo, esses filtros não o afastaram das discussões de seu tempo, das simplicidades da canção popular nem, sobretudo, do amálgama vital com a riqueza das tradições afro-caribenhas. Sua busca por universalidade parte do e retorna ao particular. 

Para o violão, ele é inescapável: Brouwer é, por consenso, o autor mais importante da atualidade para o instrumento, e não seria exagero – tendo em vista a qualidade e a quantidade de sua obra violonística – citá-lo ao lado de Sor (1778-1839), Ponce (1882-1948) ou Villa-Lobos (1887-1959) como um dos grandes de sua história.

Os principais nomes do violão de sua geração – basta mencionarmos Julian Bream e John Williams – encomendaram a ele peças e concertos com orquestra, e ele mesmo manteve por muitos anos uma carreira internacional como concertista. Como intérprete, sua discografia inclui vários trabalhos para o selo alemão Deutsche Grammophon.

A prodigiosa precocidade de sua escrita permitiu que obras até hoje favoritas dos violonistas tenham sido compostas entre os 17 e os 21 anos, como Peça sem título nº 1, Dança característica e a célebre primeira série de Estudos simples, presente, hoje, em todo programa de iniciação ao instrumento ao redor do mundo.

Leo Brouwer [Divulgação]
Leo Brouwer [Divulgação]

Costuma-se dividir sua produção em três fases: a primeiracom elementos nacionalistas cubanos – transmutados por uma forte inspiração de Bartók e Stravinsky (anos 1950-60), cujo ponto culminante talvez seja Elogio de la danza (1964); a segunda, com uso acentuado de elementos seriais, aleatórios, teatrais e técnicas estendidas típicos das vanguardas dos anos 1960-70, em que se destacam obras como Canticum (1968) e La espiral eterna (1970); e a terceira em geral remetida à nova simplicidade e ao minimalismo, inaugurada em 1981 por El decamerón negro e pela segunda série de Estudos simples.

Se por um lado facilita a navegação por um catálogo tão vasto, esse tipo de classificação esconde tensões e peculiaridades: afinal, Brouwer nunca é “nacionalista” no sentido estrito, isto é, ele nunca pretende emular a música folclórica; em uma das conversas que tivemos, ele exemplificou que “seria ridículo exigir de uma orquestra sinfônica a riqueza da bateria de uma escola de samba ou de um grupo de música nordestina”. Seu interesse é tomar o elemento étnico para abrir novas janelas.

Uma vez que jamais abandona o interesse por estruturas universais, a fase vanguardista também não se perde em experimentalismos sem lastro: seu pensamento tem um pé na semiótica da cultura, na matemática da natureza, na dialética entre tensão e relaxamento, as quais captou em quadros de Paul Klee (1879-1940), no contato com Luigi Nono (1925-90) e nas amizades com Toru Takemitsu (1930-96) e Umberto Eco (1932-2016).

Enfim, seu minimalismo recusa o estereótipo e a mecanicidade, adiciona swing e se afasta de clichês. Ademais, as duas últimas décadas – extremamente prolíficas – têm adicionado elementos que ainda não foram estudados em detalhe: obras como Concerto de Perugia para coro, violão e orquestra (1999), Concerto itálico para quatro violões e orquestra (2001) e a série recente de sonatas para violão solo são bons exemplos dessa fase.

Uma lesão o levou deixar de se apresentar como concertista ainda nos anos 1980, período a partir do qual intensificou a carreira de regente – com ouvido absoluto, gesto claro, mente construtiva e balanço latino, tem percorrido o mundo para trabalhar com orquestras, entre as quais a Filarmônica de Berlim e a Orquestra de Córdoba (Espanha), criada e dirigida por ele ao longo de quase dez anos.

Sua obra orquestral e camerística é igualmente vasta, e aqui cabe citar alguns poucos itens das diversas fases: Es el amor quien ve para soprano e conjunto de câmara (1972), Canción de Gesta para orquestra de sopros, piano e percussão (1978) – uma de suas obras mais programadas –, Vitrales de La Habana vieja para orquestra de cordas (2007) e Las ciudades invisibles para orquestra (2008).

Combinando o máximo rigor com a pura alegria, Leo Brouwer uma vez afirmou que, “precisamente por querer brincar na vida, por querer apreender a fantasia, é que somos artistas”. Aos 80 anos, o homo ludens de Havana segue ávido, criando e brincando.