Enfim, o biscoito fino consumido a granel...

por Júlio Medaglia 01/05/2019

E a previsão de Oswald de Andrade parece começar a se tornar realidade

Há dias, circulando pela avenida Paulista, resolvi dar uma passada no Masp e ver a exposição dos quadros da pintora paulista Tarsila do Amaral. Havia conhecido sua mais famosa obra, o Abaporu, em uma visita ao Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires, proprietário da obra. Apreciar uma coleção com a evolução de sua criação, porém, seria seguramente emocionante além de obrigação cultural, já que se trata da mais simbólica representante do modernismo nacional no século XX. 

Doce ilusão. A praça do vão livre do Masp estava mais abarrotada que o Pacaembu em dia de Corinthians e Palmeiras…

Adiei meu desejo de visita ao museu, mas parei alguns minutos diante da cena, estarrecido e maravilhado ao ver um movimento cultural tão contestado na época de seu surgimento ser abordado por uma multidão que se acotovelava impacientemente para apreciá-lo de perto. 

Parece que o destino da criação artística no Brasil é mesmo o de estar envolvido em contradições e conflitos até a serena aprovação de seus valores estéticos, séculos depois de seu surgimento. Já na composição musical mais antiga aqui descoberta por Régis Duprat, um recitativo e ária de autor anônimo da Bahia, estavam implícitas duas informações nada agradáveis. A primeira por vermos um autor finíssimo usar um texto bajulador a poderosos de seu tempo, como uma espécie de agradecimento pelo privilégio de poder compor ou simplesmente existir. A segunda, pelo fato de que a partitura revela qualidades excepcionais da escrita barroca do compositor mulato, isto em 1759, ano da morte de Händel – e por toda a produção musical da época e da região ter desaparecido. 

A polêmica em torno da descoberta do acervo musical do barroco mineiro por um musicólogo alemão, Francisco Curt Lange, não foi menos traumática. Primeiro ele foi acusado de charlatão, de ter inventado aquelas obras. Depois, de ter roubado o patrimônio histórico brasileiro, já que havia adquirido a preço de banana aquela papelada velha no interior de Minas, usada em festas juninas para fazer foguete, e mantido ela em seu poder. Lange teve que fugir para São Paulo, armazenar os manuscritos por muito tempo em minha casa, já que sofria ameaças de busca e apreensão daquele acervo. Isso até que a apresentação dessas obras – a primeira delas feita por mim, no Theatro Municipal de São Paulo – deixasse plateia e músicos estarrecidos com sua beleza e teóricos tranquilos diante da qualidade da escrita musical.   

Abaporu, de Tarsila do Amaral [Reprodução]
Abaporu, de Tarsila do Amaral [Reprodução]

O caso do “Haydn brasileiro” não foi menos problemático. Depois de José Maurício superar os traumas de sua condição de filho de ex-escravos, obter apoio da corte portuguesa, ter criado obras-primas de natureza religiosa e ser considerado por Neukomm, o aluno predileto de Haydn, como um grande maestro, compositor e o maior improvisador ao cravo do mundo, ele perdeu a proteção oficial, com a chegada de Marcos Portugal, e morreu quase na miséria.

E o que dizer de Carlos Gomes, o maior músico das Américas no século XIX? Depois de saborear sucessos no Scala de Milão, de ser o compositor mais executado naquele templo operístico depois de Verdi e, em certo período, ser o autor com o maior número de estreias naquela casa, viu suas obras desaparecerem do cenário mundial, pelo fato de editores – que chantagearam contratos com ele – deixarem de imprimir suas partituras, enquanto os maiores autores do verismo o procuravam para obter seus ensinamentos. 

Para Alberto Nepomuceno, a situação não foi mais agradável. Ao sentenciar que “um povo que não canta em sua língua não tem pátria” e escrever obras em português para as salas de concertos, foi ridicularizado, até que uma nova geração de autores do século XX o elegesse como “pai da música nacional”.

Essa geração, capitaneada por Villa-Lobos, que não quis fazer gracinhas com o folclore nacional adotando uma postura crítica diante dele, assim como do know-how composicional europeu, via suas obras e suas ideias questionadas pelos tradicionalistas e ironizadas à exaustão pelo mais importante crítico musical da época, Oscar Guanabarino.

Poderíamos seguir com essa análise dos conflitos da criação musical brasileira até o fim do século passado, com a acirrada polêmica entre os chamados “vanguardistas”, que se encantavam com as audácias do dodecafonismo de Schönberg, e aqueles que achavam que o país oferecia matéria-prima original e rica para uma criação musical tipicamente brasileira, bem diferente da esterilidade global e artificial da linguagem dos doze sons.

Mas, se a exposição de Tarsila simboliza, quase um século depois, o sucesso das ideias da Semana de Arte Moderna de 1922, na área musical, um projeto do Itamaraty, implantado e dirigido pelo conselheiro Gustavo de Sá, do Departamento de Difusão Cultural, lança uma rajada de esperança para que a criação musical brasileira de alto repertório, com todas as polêmicas transformadas na melhor música, chegue ao reconhecimento em grande estilo e internacionalmente. O projeto prevê o registro de cem obras sinfônicas pelas filarmônicas de Minas Gerais e de Goiás e pela Osesp, gravações distribuídas no Brasil pelo Selo CLÁSSICOS e internacionalmente pela Naxos. 

Como se vê, também na área musical a previsão do marido de Tarsila, o grande escritor paulistano Oswald de Andrade, começa a se tornar realidade: “A massa ainda vai consumir o biscoito fino que fabrico…”