Seus ensinamentos sobre música eram, antes de tudo, pretextos para o desenvolvimento de um espírito crítico e emancipado
Por Rubens Russomanno Ricciardi, ex-aluno de Olivier Toni, Professor titular do Departamento de Música da FFCLRP-USP
Em 27 de maio comemoramos o centenário de George Olivier Toni (São Paulo, 1926-2017): compositor, maestro, professor e fagotista, um dos nomes centrais da música paulista na segunda metade do século XX.
Aluno de Camargo Guarnieri e Hans-Joachim Koellreutter, “Olivier Toni foi a síntese dialética do neofolclorismo brasileiro com o experimentalismo de Darmstadt”, na definição de Gilberto Mendes. E concentrou sua arte em duas frentes. De um lado, a reconstrução de memória da música colonial, em especial a partir de suas residências em Prados. De outro, com a difusão da música contemporânea, foi um dos pilares do Festival Música Nova Gilberto Mendes (fundado em Santos, em 1962, com sede na USP de Ribeirão Preto desde 2012). Chegou ainda a ser a principal liderança do Manifesto Música Nova, de 1963, embora seu nome não conste entre os signatários – em sua maioria, seus alunos mais próximos (Gilberto Mendes, Rogério Duprat, Régis Duprat e Willy Corrêa de Oliveira, entre outros).
Fagotista da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo desde 1951, atuou sob a batuta de diversos maestros, entre eles Heitor Villa-Lobos, de quem recebeu forte influência.
Inovador e sempre a serviço do bem comum, Olivier Toni idealizou corpos estáveis sinfônicos e outras instituições públicas e gratuitas de excelência no ensino da música.
Fundou diversas orquestras: em 1956, a Orquestra de Câmara de São Paulo (OCSP), hoje extinta, mas com uma turnê europeia em 1964; em 1968, a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo, posteriormente denominada Orquestra Experimental de Repertório (OER); em 1972, a Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (Osusp), a princípio concebida como orquestra de estudantes da USP; e em 1995, a Orquestra de Câmara da ECA/USP (Ocam). Finalmente, com a USP Filarmônica, em 2011, concretizou seu projeto de dotar a universidade de uma orquestra formada por estudantes de graduação.
Em 1969, criou também a Escola Municipal de Música de São Paulo e, dois anos depois, o Departamento de Música da ECA-USP, do qual foi chefe por muito tempo, tornando-se o primeiro professor titular. Ali, idealizou ainda as Bienais de Música.
Foi igualmente fundador do Festival de Música de Prados (desde 1977), em trabalho conjunto de décadas com o saudoso maestro Adhemar Campos Filho (Prados, 1926-1997).
A relação de Olivier Toni com Ribeirão Preto remonta às décadas de 1950 e 1960, quando atuava como músico convidado da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP) nos tempos dos maestros Ignazio Stabile, Enrico Ziffer e Spartaco Rossi. Foi também nessa cidade, nos anos 1960, durante uma reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em um jantar numa choperia, que o maestro Olivier Toni e o professor Erasmo Garcia Mendes tomaram a iniciativa de criar o Departamento de Música da ECA-USP. Erasmo (irmão de Gilberto Mendes) mantinha estreita parceria com o professor Maurício Rocha e Silva, da USP de Ribeirão Preto, então presidente da SBPC.
Anos depois, apoiou o nosso projeto de fundação de um novo curso de música na USP de Ribeirão Preto (de 2001 a 2010 vinculado à ECA-USP e, desde 2011, promovido à condição autônoma de Departamento de Música da FFCLRP-USP). Regeu por diversas vezes a OSRP nos anos anteriores à fundação da USP Filarmônica, a qual não chegou a reger por limitações de saúde. Ainda assim, presidiu a primeira seleção de bolsistas, em fevereiro de 2011. Já professor emérito da ECA-USP, lecionou por alguns semestres (a partir de 2003) na USP de Ribeirão Preto, contribuindo também aqui para a formação de novos talentos. Seu último aluno foi o ribeirão-pretano Lucas Eduardo da Silva Galon, maestro e compositor, hoje professor da USP.
Olivier Toni não foi propriamente um professor de composição, mas um professor de filosofia da composição. Seus ensinamentos de harmonia e contraponto eram, antes de tudo, pretextos para o desenvolvimento de um espírito crítico e emancipado. Ensinou-me que o mundo do trabalho possui um potencial maior do que o mero mercado de trabalho: “devemos inventar nossos próprios empregos e sempre favorecer os mais humildes por meio de projetos públicos e gratuitos”. Segundo Lucas Eduardo da Silva Galon, ao definir sua modernidade sempre instigante, “Olivier Toni era de um tempo em que a acidez, a ironia e a provocação eram cultivadas – e não desprezadas – como ferramentas para a apreensão do pensamento complexo”.
Guardo na memória, com especial carinho, o concerto que organizei para o maestro Olivier Toni frente à Kammerorchester Berlin e ao Coral da Universidade Humboldt no Schauspielhaus (hoje Konzerthaus) em Berlim, em 1991, com música colonial mineira e Mozart – ocasião em que o jovem Cláudio Cruz atuou como solista. Foi a expressão da mais fraterna gratidão pelos ensinamentos recebidos.
