São Paulo, Prados e Ribeirão Preto, as cidades de Olivier Toni 

por Redação CONCERTO 01/05/2026

Seus ensinamentos sobre música eram, antes de tudo, pretextos para o desenvolvimento de um espírito crítico e emancipado 

Por Rubens Russomanno Ricciardi, ex-aluno de Olivier Toni, Professor titular do Departamento de Música da FFCLRP-USP 

Em 27 de maio comemoramos o centenário de George Olivier Toni (São Paulo, 1926-2017): compositor, maestro, professor e fagotista, um dos nomes centrais da música paulista na segunda metade do século XX. 

Aluno de Camargo Guarnieri e Hans-Joachim Koellreutter, “Olivier Toni foi a síntese dialética do neofolclorismo brasileiro com o experimentalismo de Darmstadt”, na definição de Gilberto Mendes. E concentrou sua arte em duas frentes. De um lado, a reconstrução de memória da música colonial, em especial a partir de suas residências em Prados. De outro, com a difusão da música contemporânea, foi um dos pilares do Festival Música Nova Gilberto Mendes (fundado em Santos, em 1962, com sede na USP de Ribeirão Preto desde 2012). Chegou ainda a ser a principal liderança do Manifesto Música Nova, de 1963, embora seu nome não conste entre os signatários – em sua maioria, seus alunos mais próximos (Gilberto Mendes, Rogério Duprat, Régis Duprat e Willy Corrêa de Oliveira, entre outros). 

Fagotista da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo desde 1951, atuou sob a batuta de diversos maestros, entre eles Heitor Villa-Lobos, de quem recebeu forte influência. 

Inovador e sempre a serviço do bem comum, Olivier Toni idealizou corpos estáveis sinfônicos e outras instituições públicas e gratuitas de excelência no ensino da música. 

Fundou diversas orquestras: em 1956, a Orquestra de Câmara de São Paulo (OCSP), hoje extinta, mas com uma turnê europeia em 1964; em 1968, a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo, posteriormente denominada Orquestra Experimental de Repertório (OER); em 1972, a Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (Osusp), a princípio concebida como orquestra de estudantes da USP; e em 1995, a Orquestra de Câmara da ECA/USP (Ocam). Finalmente, com a USP Filarmônica, em 2011, concretizou seu projeto de dotar a universidade de uma orquestra formada por estudantes de graduação. 

Em 1969, criou também a Escola Municipal de Música de São Paulo e, dois anos depois, o Departamento de Música da ECA-USP, do qual foi chefe por muito tempo, tornando-se o primeiro professor titular. Ali, idealizou ainda as Bienais de Música. 

Foi igualmente fundador do Festival de Música de Prados (desde 1977), em trabalho conjunto de décadas com o saudoso maestro Adhemar Campos Filho (Prados, 1926-1997). 

A relação de Olivier Toni com Ribeirão Preto remonta às décadas de 1950 e 1960, quando atuava como músico convidado da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP) nos tempos dos maestros Ignazio Stabile, Enrico Ziffer e Spartaco Rossi. Foi também nessa cidade, nos anos 1960, durante uma reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em um jantar numa choperia, que o maestro Olivier Toni e o professor Erasmo Garcia Mendes tomaram a iniciativa de criar o Departamento de Música da ECA-USP. Erasmo (irmão de Gilberto Mendes) mantinha estreita parceria com o professor Maurício Rocha e Silva, da USP de Ribeirão Preto, então presidente da SBPC. 

Anos depois, apoiou o nosso projeto de fundação de um novo curso de música na USP de Ribeirão Preto (de 2001 a 2010 vinculado à ECA-USP e, desde 2011, promovido à condição autônoma de Departamento de Música da FFCLRP-USP). Regeu por diversas vezes a OSRP nos anos anteriores à fundação da USP Filarmônica, a qual não chegou a reger por limitações de saúde. Ainda assim, presidiu a primeira seleção de bolsistas, em fevereiro de 2011. Já professor emérito da ECA-USP, lecionou por alguns semestres (a partir de 2003) na USP de Ribeirão Preto, contribuindo também aqui para a formação de novos talentos. Seu último aluno foi o ribeirão-pretano Lucas Eduardo da Silva Galon, maestro e compositor, hoje professor da USP. 

Olivier Toni não foi propriamente um professor de composição, mas um professor de filosofia da composição. Seus ensinamentos de harmonia e contraponto eram, antes de tudo, pretextos para o desenvolvimento de um espírito crítico e emancipado. Ensinou-me que o mundo do trabalho possui um potencial maior do que o mero mercado de trabalho: “devemos inventar nossos próprios empregos e sempre favorecer os mais humildes por meio de projetos públicos e gratuitos”. Segundo Lucas Eduardo da Silva Galon, ao definir sua modernidade sempre instigante, “Olivier Toni era de um tempo em que a acidez, a ironia e a provocação eram cultivadas – e não desprezadas – como ferramentas para a apreensão do pensamento complexo”. 

Guardo na memória, com especial carinho, o concerto que organizei para o maestro Olivier Toni frente à Kammerorchester Berlin e ao Coral da Universidade Humboldt no Schauspielhaus (hoje Konzerthaus) em Berlim, em 1991, com música colonial mineira e Mozart – ocasião em que o jovem Cláudio Cruz atuou como solista. Foi a expressão da mais fraterna gratidão pelos ensinamentos recebidos. 

Pintura de Olivier Toni no Departamento de Música da USP, Ribeirão Preto (Reprodução)
Pintura de Olivier Toni no Departamento de Música da USP, Ribeirão Preto (Reprodução)