Compositoras em foco: Esther Scliar

por Redação CONCERTO 03/08/2026

Pianista, compositora e professora brasileira compreendia a música não apenas como linguagem, mas como resultado de um pensamento histórico, cultural e social mais amplo. A Estação Motiva Cultural apresenta no dia 4 de agosto recital com obras da autora e do compositor Olivier Toni, em programa dedicado a nomes que tiveram papel central na pedagogia musical no Brasil

Nascida em Porto Alegre, Esther Scliar (1926-1978) começou na música ainda na infância, estudando piano. No início dos anos 1940, fez o curso superior de música do Instituto de Belas Artes de Porto Alegre (atual Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), onde foi aluna de nomes como Paulo Guedes. Já naquela época, a composição passou a fazer parte de seus interesses – o que se tornaria ainda mais marcante após a mudança para São Paulo, em 1948, quando passou a estudar com Hans-Joachim Koellreutter.

Àquela altura, já estavam consolidadas as bases do Música Viva, movimento de vanguarda musical liderado por Koellreutter e que atuou no Rio de Janeiro e em São Paulo a partir de 1939. “O Música Viva tinha entre suas preocupações centrais a difusão da música contemporânea. Além do aspecto estritamente estético, o movimento possuía forte componente ideológico. No manifesto que o grupo lançou em 1944, afirmava-se que o ‘Música Viva, divulgando, por meio de concertos, irradiações, conferências e edições a criação musical hodierna de todas as tendências, em especial do continente americano, pretende mostrar que em nossa época também existe música como expressão do tempo, de um novo estado de inteligência’”, anotou Camila Fresca em texto sobre o compositor publicado na edição de setembro de 2015 da Revista CONCERTO [leia a matéria completa no Acervo CONCERTO; clique aqui]. 

Scliar integrou, então, um grupo de alunos que incluía ainda Eunice Catunda e Edino Krieger, entre outros. E, com eles, seguiu, em 1948, para a Itália, onde participou do Curso de Regência do XI Festival Internacional de Música Contemporânea, ministrado por Hermann Scherchen, do I Curso Internacional de Composição Dodecafônica, ministrado por Koellreutter, promovido pelo II Diapason, Centro Internazionale di Musica Contemporanea, e participou do Congresso de Música Dodecafônica em Locarno, na Suíça.

“Eunice Catunda e Esther Scliar viajaram juntas para a Europa em julho de 1948. Catunda estava então com 33 anos e Scliar com apenas 21. Este contato mais próximo com Eunice, musicista atuante e composito-ra já premiada em concurso de composição7, deve ter servido de estímulo à jovem Esther”,  escrevem Joana Cunha de Holanda e Cristina Capparelli Gerling no texto Eunice Katunda e Esther Scliar no contexto do modernismo musical brasileiro [clique aqui para ler o texto]. “Este período possibilitou ao grupo um rico intercâmbio com a ‘música viva’ da Europa, pois, no ambiente do festival, concertos, cursos e o contato com músicos de diversos países instigavam os participantes. No curso de regência com Scherchen, Scliar e Catunda também conheceram Bruno Maderna (1920-1973) e Luigi Nono (1924-1990) e uma relação de amizade estabeleceu-se entre eles.”

No retorno ao Brasil, Scliar, agora baseada no Rio de Janeiro, participou dos debates que criaram dissidências em meio ao Música Viva, em especial pela atuação de Claudio Santoro. Ligado ao Partido Comunista, e influenciado pela participação no Congresso Internacional de Compositores Progressistas de Praga, ele começa a falar na substituição da estética do ‘novo’ pela do ‘povo’, como coloca Carlos Kater em seu livro sobre o Movimento, explicando o que levaria à sua ruptura interna.

“Os anos 50 mais densamente foram de vital importância para a música no Brasil. Os conflitos deflagrados desde o início dessa década, na área de produção artística, puseram sobre um vivo palco vigorosos personagens. Era a crise do Serialismo em nosso meio musical, eram as “cartas abertas” de repúdio à sua infiltração na orientação de jovens compositores e intérpretes, eram o impasse sofrido pelos retardatários seguidores da II Escola de Viena, era o tempo de revisão desses esforços sob a oratória incendiária de Jdanov “de corpo presente” diante do jovem, inquieto e talentoso, Cláudio Santoro”, escreve o compositor Aylton Escobar em depoimento sobre Scliar publicado na dissertação de mestrado de Maria Aparecida Gomes Machado, conhecida pelo nome artístico de Aída Machado [clique aqui para ler].

“Cabeças de músicos privilegiados andavam mexidas pela nova demanda estética que desejava o trabalho criador não como mero adorno de valor apreciável apenas por grupos restritos, mas como depósitos responsáveis por uma cultura em desenvolvimento. Esther Scliar foi um dos protagonistas dessa reviravolta ao lado de ilustres companheiros: Cláudio Santoro, Edino Krieger, César Guerra Peixe, Eunice Katunda... Esther retirou dessa crise e emaranhado de paradoxos algum brilho, alguma efervescência para a sua criação e atuação pedagógica", completa o compositor.

Suas obras revelam uma atenção a múltiplas possibilidades de escrita. “Esther tinha uma visão inovadora do aproveitamento do folclore, sem abandonar as técnicas de composição cultas. Costumava dizer que o folclore brasileiro é um dos mais ricos do mundo, mas é preciso saber combinar dialeticamente a matéria-prima brasileira com a formação inovadora e vanguardista da arte, que se colocava como um problema fundamental”, escreveu, nos anos 1980, a pianista e compositora Felicia Wang a respeito da amiga e colega. 

O interesse na comunicação com o público nunca significou, para ela, a ausência de experimentação. “É extremamente difícil dizer quem, hoje em dia, está criando coisas de valor: importante é ser gente, não soçobrar na sociedade de consumo. Também não há como escolher entre as muitas tendências de hoje. E não faz mal que as coisas não fiquem muito definidas, que haja muito experimentalismo. A criatividade anda muito reprimida. É preciso deixar as coisas acontecerem”, escreveu ela no Jornal do Brasil, em 1977.

“Esther Scliar buscou utilizar-se do dodecafonismo, bem como de outras técnicas modernas de composição, no intuito de responder às necessidades específicas de cada obra”, escreveu José Maria Neves sobre a autora em Música Contemporânea Brasileira. “A profundidade do conhecimento musical de Esther, seu envolvimento com a música do século XX, sua compreensão do todo musical, a atenção dada ao folclore nacional, o valor oferecido ao canto coral e o senso crítico, são características marcantes desta musicista. Seus procedimentos pedagógicos embasavam-se no estímulo à composição e no pressuposto que a teoria é melhor assimilada a partir da vivência”, anotou Cristine Branco no trabalho O método de Esther Scliar de Teoria Musical: uma contribuição para a Música do Século XX, apresentado no XVII Encontro Nacional da ABEM, em 2008.

 

 

Entre suas principais obras estão a Sonata para flauta e piano (1960), a Sonata para piano (1961), Imbricata (para flauta, oboé e piano, 1976) e o Estudo nº 1 para violão (1976). Ela escreveu bastante para coro, produção que inclui peças como O menino ruivo (sobre poesia de Reynaldo Jardim, 1962), Desenho leve (com poesia de Cecília Meireles, 1962), Entre o ser e as coisas (com poesia de Carlos Drummond de Andrade, 1966). Também escreveu para o teatro e para o cinema, assinando a trilha de filmes como Revolução na América do Sul, documentário de Augusto Boal.

“Esther refutava qualquer tipo de aprisionamento decorrente de radicalismos estético-ideológicos, de condicionamentos exógenos que não representassem uma profunda convicção. Como um ato de fé, o compositor deveria seguir e construir sua coerência, sua verdade, não no terreno deserto das experimentações individualistas, mas em um âmbito que congregue valores da linguagem viva. A escolha de um caminho deveria estar baseada numa firme credibilidade, adquirida através da compreensão de todos os elementos que envolvem o objeto da escolha”, escreveu Aída Machado.

Scliar foi professora de gerações de músicos, conhecida como a “Nadia Boulanger” brasileira. Artistas como Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Paulo Moura, Luiz Eça, Hélcio Milito, Egberto Gismonti, Antonio Jardim, Jards Macalé, Vânia Dantas Leite, Nestor de Hollanda Cavalcanti e Ronaldo Miranda estiveram entre seus alunos. 

“Esther Scliar pertence a um quadro de personalidades especiais que influenciaram, modificaram e, de alguma forma, ainda continuam exercendo influência sobre a sociedade em que viveram e naqueles que ouvem os ecos dessa sabedoria. Esther Scliar deixou marcas profundas e perturbadoras em seus colegas, amigos e, principalmente, em seus alunos inúmeros profissionais hoje atuantes tendo sido uma das figuras mais importantes no cenário da música no Brasil. A riqueza cultural, inteligência, carisma e capacidade de comunicação fizeram dela uma figura concorrida e centralizadora de atenções. Era um ponto de referência, guia, mestra”, segue Aída Machado.

“Esther manifestava uma inquietude existencial e intelectual que foi direcionada a uma compreensão mais profunda da música, não apenas como linguagem, mas como resultado de um pensamento histórico, cultural e social mais amplo. Era uma estudiosa incansável, obcecada pelo conhecimento. Dedicou sua vida à música ao estudo e compreensão das técnicas composicionais, à criação de uma metodologia de ensino e, sobretudo, à análise, estabelecendo através desta uma crítica objetiva da sintaxe musical.  A atividade didática de Esther era indissociável de sua postura crítico-analítica em tudo que tangia a vida e influenciava o pensamento. A música, a política, o social, a verdade das intenções, a liberdade, o coletivo e o individual, a representatividade, a importância de qualquer manifestação artística em um contexto que pudesse gerar reflexão e modificação de comportamento sempre foram preocupações e diretrizes para sua vida, aulas e composição. Todo o seu conhecimento foi competente e generosamente compartilhado com os inúmeros alunos que passaram por suas classes e aulas particulares, desenvolvendo uma compreensão da música através do questionamento estético, impulsionando à composição e à assimilação dos novos rumos, fornecendo subsídio teórico para uma percepção mais engajada com a modernidade.”

A compositora e professora Esther Scliar [Divulgação]
A compositora e professora Esther Scliar [Divulgação]

 

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