Caderno de 44 páginas contém aulas de composição dadas pelo compositor à harpista Marie-Louise-Philippine de Bonnières de Guînes em 1778
A Biblioteca Nacional da França anunciou no final da semana passada a descoberta de um manuscrito desconhecido de Mozart, datado de 1778, durante um período em que o compositor visitou Paris. Trata-se de um caderno de 44 páginas com lições de composição que ele deu à harpista Marie-Louise-Philippine de Bonnières de Guînes (1759-1795), filha do Duque de Guînes, ele próprio flautista, que havia encomendado ao compositor o Concerto para flauta e harpa KV 299.
Segundo o presidente da Biblioteca, o manuscrito foi encontrado em fevereiro deste ano. “Na opinião dos especialistas, esta é uma das descobertas mais importantes das últimas décadas, por dois motivos. Primeiro, lança luz sobre a última estadia de Mozart em Paris e, segundo, revela as atividades cotidianas de Mozart como jovem professor em diálogo com sua aluna”, diz ele, em entrevista publicada no site da instituição.
O manuscrito foi identificado por François-Pierre Goy, curador do departamento de Música pré-1800 da coleção da biblioteca. Ele estava examinando cadernos de música anônimos quando reconheceu a escrita de Mozart. A partir daí, ele procurou especialistas no compositor para confirmar suas impressões. Em abril, dois meses após a descoberta, o parecer de musicólogos fez com que a Bibliotheca Mozartiana do Mozarteum in Salzburg confirmasse a autoria.
“O uso de papel francês e o conteúdo do manuscrito – exercícios de composição e sete peças para flauta e harpa – sugerem que se trata de um registro das aulas diárias que Mozart dava a Marie-Louise-Philippine de Bonnières de Guînes, filha de Adrien-Louis de Bonnières de Souastre, Duque de Guînes (1735–1806), um renomado flautista que encomendou o Concerto para Flauta e Harpa, KV 299, entre maio e julho de 1778, durante sua última estadia em Paris”, explica Goy.
“Convencido de que sua filha era um gênio, o duque queria que ela aprendesse a compor grandes sonatas para seus dois instrumentos. Durante seu período como embaixador em Londres, de 1770 a 1776, ele adquiriu uma flauta capaz de tocar o dó grave, instrumento para o qual tanto o Concerto KV 299 quanto as peças deste manuscrito foram escritos, e que era raro, senão único, naquela época em Paris, onde as flautas só conseguiam alcançar o ré grave, como comprovam outras obras de Mozart para o instrumento. As aulas foram suspensas quando Mademoiselle de Guînes se casou, em 26 de julho”, continua o especialista.
“Este caderno aparentemente modesto, com 44 páginas, é um recurso precioso para o estudo da abordagem de Mozart no ensino da composição, sendo a evidência mais antiga que possuímos desse tipo. Contém os exercícios que Mozart descreve minuciosamente em uma carta ao pai, datada de 14 de maio de 1778, na qual lamenta a falta de invenção musical da aluna, uma deficiência que ela própria, ao que parece, foi a primeira a reconhecer. Com exceção de alguns exercícios escritos inteiramente à mão por Mademoiselle de Guînes, as contribuições de professor e aluna se entrelaçam ao longo da obra em proporções variáveis. Seis das peças para flauta e harpa estão completas. Essas peças, pode-se afirmar, partem de ideias propostas pelo próprio Mozart, podem ter influenciado o julgamento inequívoco que ele expressou em uma carta de 9 de julho a respeito da incompetência de sua aluna na composição.”
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