Existe, sim, o prazer da materialidade, do papel, em contraponto à reprodução digital – e o cravista e professor Marcelo Fagerlande quer provar essa tese na 22ª edição da Semana do Cravo, que acontece entre os dias 15 e 17 de junho no Rio de Janeiro.
Isso porque, além dos debates e dos recitais, Fagerlande promove uma inédita visita à preciosa biblioteca Alberto Nepomuceno, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para que os participantes da Semana possam conhecer os originais de partituras e métodos armazenados na instituição – uma das mais importantes e completas das Américas. E não é um mero “fetiche”, diz o cravista.
“É uma experiência fascinante”, garante. “Quando se examina a edição original, você vê o que na tela não descobre, em termos musicológicos, do exame da obra.” Marcelo sabe em primeiríssima mão: “por volta do ano 2000, eu fiz o levantamento das obras raras da biblioteca, que nunca tinha sido feito. Foi quando descobri verdadeiros tesouros. E nós, cravistas, como resgatamos um repertório esquecido e retornamos essas obras barrocas à vida contemporânea, obviamente não há gravação desses autores. O recurso no início do século XX foi que os intérpretes se basearam nos tratados de música, justamente”.
Entre os tratados de música em suas edições originais, do século XVI ao início do XX. “Do século XVI, Le Istitutioni Harmoniche de Zarlino, que é uma referência da teoria musical; o Tratado de Harmonia de Rameau (1722), obras de baixo contínuo, do Gasparini, como L’ Armonico Pratico al Cimbalo, de 1745, e Novo tratado de Música, de Solano (1779), teórico português; enfim, são verdadeiros tesouros.”
Fagerlande deixa por último a menção ao Método de Pianoforte de José Maurício Nunes Garcia (1824), em manuscrito, que atende tanto ao cravo quanto ao piano. “José Maurício é meu velho conhecido: foi tema do meu mestrado, que teve na banca Cleofe Person de Matos”, conta ele. “Gravei as suas peças em cravo pela primeira vez e fiz com Sergio Britto o musical sobre ele.”
José Maurício transformou-se num ponto focal da Semana 2026: nos recitais, cada aluno vai tocar ao menos uma peça desse método de pianoforte do José Maurício, “juntando a prática e a teoria”. Marcelo lembra que “José Maurício compôs para os filhos, há peças didáticas, lindas, mas algumas para iniciantes mesmo”.
Nos recitais ao longo do três dias de encontro, além destas peças do Método, serão ouvidas obras de J. S. Bach, Scarlatti, Couperin, Seixas e Arne. Mas não apenas: “além do repertório tradicional e das obras do José Maurício, vamos ter também música nordestina, música armorial transcrita para cravo e também peças para iniciantes transcritas do folclore brasileiro; e até peças conhecidas das crianças, obras brasileiras, simples, familiares a eles, de desenho animado, de videogame. É o estabelecimento de uma ponte do instrumento com a contemporaneidade”.
Dentre os pesquisadores participantes que estarão nos debates e apresentando os documentos estão Paula Callegari (UFU), Rodrigo Hoffmann (Escola de Música de Brasília), Ricardo Bessa (UFBA), Roberto Dutra (Conservatório Pernambucano de Música) e, da UFRJ, Maria Alice Volpe, João Vicente Vidal, Eduardo Antonello, Clara Albuquerque, Marcia Taborda e Dolores Brandão, além dos anfitriões Fagerlande, Mayra Pereira (UFJF) e Maria Aida Barroso (UFPE).
“E, por último, mas muito importante, quero destacar a presença de Helena Jank, decana dos cravistas e que criou o curso na Unicamp”, destaca Fagerlande. “Ela também vai falar dos documentos raros e está lançando o livro autobiográfico Meus Afetos, com a sua fascinante história de vida e carreira, num bate-papo."
A Semana do Cravo é uma realização da Escola de Música da UFRJ em parceria com a UFJF e UFPE, com apoio da FAPEMIG e UFU e entrada gratuita. As visitas à Biblioteca Alberto Nepomuceno acontecem mediante inscrição pelo email semanadocravo@gmail.com. Os recitais acontecem no edifício Ventura Corporate Towers, no centro do Rio de Janeiro.
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