Por Clara Zamboni
Na segunda-feira, 15, e na terça-feira, 16, a Escola de Ópera da Escola de Comunicações e Artes da USP realiza sua primeira montagem, Dido e Enéas, de Purcell, na Central Técnica de Produções Artísticas Chico Giacchieri. O elenco conta com Bruna Arisa Higa e Graziela Oliveira como Dido, e com Vinícius Almeida e Wagner Platero como Enéas. A música é executada pela Ocam, sob regência de Ricardo Bologna.
A Escola de Ópera busca formar profissionais para diversos segmentos da produção de óperas. Inaugurado em dezembro de 2025, o projeto atraiu 130 inscritos de diferentes cursos da Universidade de São Paulo. Passado o processo seletivo, os 55 bolsistas selecionados assumiram funções artísticas e técnicas.
Flávia Albano, professora de canto do Departamento de Música (CMU), participou da concepção da escola e preparou as vozes do elenco. Ela comenta que, em meio a um mercado pequeno e restrito a alguns teatros, aqueles que querem contribuir para a ópera no Brasil podem desenvolver projetos próprios subsidiados por leis de incentivo à cultura. Para isso, é necessária formação.
“Nossa ideia não era só formar cantores, instrumentistas e regentes, mas focar também na parte técnica: pessoas que sabem ‘meter a mão na massa’ e sabem montar a iluminação, cenografia, figurino, comunicação específica”, diz ela em entrevista ao Site CONCERTO. Albano destaca também o protagonismo dos estudantes, que, orientados pelos professores, tiveram autonomia na montagem.
Dido e Enéas, de Henry Purcell, mistura amor e política. Inspirada na Eneida, de Virgílio, a ópera de três atos narra o encontro entre Dido, a rainha de Cartago, e Enéas, o guerreiro troiano. O amor dos personagens, entretanto, é interrompido pelo Feiticeiro, que disfarça uma de suas criaturas de Deus Mercúrio e a envia para convencer Enéas a deixar sua amada e fundar uma nova civilzação, futura Roma.
Nossa ideia não era só formar cantores, instrumentistas e regentes, mas focar também na parte técnica: pessoas que sabem ‘meter a mão na massa’ e sabem montar a iluminação, cenografia, figurino, comunicação específica, diz Flavia Albano
Estreada em 1689, a obra barroca foi executada pela primeira vez em um colégio feminino na Inglaterra. A natureza acadêmica da peça foi um dos motivos que levou à escolha para a Escola de Ópera. O equilíbrio entre os diferentes elementos musicais e cênicos também justifica a escolha. Melissa Tomás, bolsista preparadora do coro, destaca a participação ativa do coro na trama. “Isso permitiu incluir no projeto alunos que não têm necessariamente o canto lírico como foco principal de carreira, além de nos dar a oportunidade de trabalhar a preparação de um coro com a mesma intensidade que geralmente é dedicada aos solistas.”
A releitura da Escola de Ópera aposta em tramas geopolíticas contemporâneas. Ambientada no Brasil, em que o palácio de Dido se torna o Palácio do Planalto, a montagem utiliza o encontro de Dido e Enéas para representar relações econômicas entre Brasil e Venezuela. O coro, originalmente representado ora como a corte de Cartago, ora como as criaturas do Feiticeiro, passa a atuar como a imprensa. O Feiticeiro, por sua vez, deixa a ficção e a magia e passa a representar o imperialismo norte-americano, que, motivado por interesses próprios e acompanhado por seus congressistas, manipula as relações no Sul Global.
“O que nos interessa é entender quais são os impérios vigentes que tentam ser donos do mundo nos momentos atuais e como a gente poderia reler isso para os dias de hoje. As relações amorosas que a ópera propõe podem ser relidas como transações econômicas”, comenta Júlia Zilio, diretora cênica.
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