Festival de Ópera de Óbidos traz apresentações até 20 de setembro

por Luciana Medeiros 08/09/2026

Há relatos que localizam a origem da vila de Óbidos, na província da Estremadura, oeste de Portugal, junto aos celtas, no século III a.C. Ocupada pelos romanos e depois pelos árabes, que teriam construído o castelo fortificado, a região da vila foi tomada pelas tropas de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, em 1148. É hoje um ponto turístico concorrido e a municipalidade promove diversos eventos de cultura — como o conhecido Festival Literário — e de tecnologia. E o Festival de Ópera, é claro, que desde 2025 tem como diretora a soprano portuguesa Carla Caramujo.

Nessa vila e no seu entorno acontece o Festival, numa encenação que traz a contemporaneidade para a história do Festival de Ópera de Óbidos que, nesta edição de 2026, começou no sábado, dia 5, com uma gala ao ar livre (com peças de Weber, Beethoven e Mozart), tendo o castelo como cenário. A primeira ópera da programação deste ano é Cinderela, de Rossini; o encerramento, nos dias 19 e 20, traz Orfeu e Eurídice, de Gluck.

Entre uma e outra obra, apresenta-se o oratório Caim, ou o primeiro homicídio (Cain, overo il primo omicidio), de Alessandro Scarlatti, com libreto de Pietro Ottoboni, e um recital que percorre a música baseada em textos de William Shakespeare– De Purcell a Britten: mais de dois séculos de paixão shakespeariana, também com obras de Haydn, Schubert e Wagner.

“O Festival de Ópera de Óbidos busca a descentralização e desenvolvimento da ópera em Portugal”, diz Carla. “O FOO 26 tem como tema Luz e Trevas, propondo uma viagem do período barroco aos alvores do bel canto e romantismo”. O Brasil tem, este ano, mais um representante: a mezzo-soprano Luisa Francesconi, protagonista de Orfeu e Eurídice.

Os palcos onde o FOO 2026 acontece se distribuem por pontos referenciais da vila. Cinderela, ou o triunfo da bondade (La cenerentola, ossia Il trionfo della bontà) acontece nos dias 11 e 13 no belo Convento de São Miguel das Gaeiras (no dia 11, antecedida por uma conversa com os artistas). “Ouviremos a versão original com a escrita pura de Rossini por uma opção da maestra Julia Jones, sem interferência das adições posteriores ao seu desaparecimento, feitas por seus discípulos”, adianta Carla. “A versão cênica contemporânea de Pedro Ribeiro destaca o aposto do título, ou seja, o triunfo da bondade. Nesta versão não há propriamente uma luta de classes, mas arquétipos que são transformados pelo poder da bondade que emana de uma criatura maltratada e invisível, a gata borralheira. A transformação dá-se através da sua humanidade e não através de magia. E há tremendo humor — a excelência da direção cênica leva-nos também a uma comédia hilariante em chiaroscuro (luz e trevas), tema deste ano. Os ensaios têm sido divertidíssimos”. Com a Orquestra das Beiras cantam Cláudia Ribas, João Terleira, Tiago Matos, Luís Rodrigues, entre outros.

A luz da bondade escurece para o assassinato de Abel por Caim, uma das narrativas bíblicas fundadoras, no oratório de Scarlatti Caim, ou o primeiro homicídio (Cain, overo il primo omicidio), de 1707, a seis vozes. Com a Orquestra Barroca de Mateus e direção musical de António Carrilho, a produção acompanha os solistas Carlos Nogueira, Ana Rosa, Eduarda Melo, Helena Ressurreição, Alexandra Calado e Job Tomé. Será apresentado no dia 12, na Igreja da Misericórdia, dentro dos muros da vila medieval. Já o recital De Purcell a Britten: mais de dois séculos de paixão shakespeariana acontece no dia 16 de setembro no Museu Abílio de Mattos e Silva, com as intérpretes Margarida Rossas (soprano) e Maria Leonor Sá (piano).

No encerramento do FOO, nos dias 19 e 20, no Convento de São Miguel das Gaeiras — que fica nos arredores da vila —, Orfeu e Eurídice, de Gluck, que estreou em 1762, retrata o mito que contrapõe a luz da vida à treva da morte. No papel de Orfeu está a mezzo brasileira Luisa Francesconi, convidada de além-mar deste ano, com Ana Quintans como Eurídice. “Luisa e Ana Quintans são sensivelmente da mesma idade, têm ambas muita experiência e uma sensibilidade musical e linguagem corporal que se completam. São um ‘par perfeito’”, adianta Carla. “O mito grego atravessa os séculos para nos lembrar que o poder do amor e a arte são transformadores, capazes de suplantar a própria morte. Veremos em palco uma cenografia despojada e muito elegante do próprio encenador Carlos Antunes, incluindo um incrível trabalho de vídeo a partir de imagens captadas na ilha da Madeira pelo próprio encenador”. Acompanham a produção a Orquestra de Câmara Portuguesa, que tem à frente o maestro Pedro Carneiro, o coro Voces Cælestes, directed por Sérgio Fontão, e o corpo de baile (com coreografia de Teresa Simas).

“É uma oportunidade maravilhosa de rever e renovar minha vivência com Orfeu”, diz a mezzo Luisa Francesconi. “Papéis masculinos são uma estrada que eu percorro. A ópera fica bem na transição entre o barroco e o clássico; estamos fazendo a primeira versão, a de Viena, muito bonita e muito clean, com uma equipe fantástica. Carla, como cantora e diretora, tem exata noção do que é preciso, das vozes adequadas, das ideias importantes. E o Festival vem ganhando nome e projeção também por isso”.

O FOO, uma iniciativa da Banda de Alcobaça — Associação de Artes, em parceria com a Câmara Municipal de Óbidos e o apoio da República Portuguesa, tem o mecenato da Égide, do BPI/Fundação ‘la Caixa’ e da Associação Portuguesa das Artes. A programação completa está em [https://festivaloperaobidos.pt/](https://festivaloperaobidos.pt/].   

 

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Luisa Francesconi [Divulgação]
Luisa Francesconi [Divulgação]

 

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