Retrospectiva 2025: Luciana Medeiros, jornalista e escritora, colaboradora do site e da revista CONCERTO
Foi um ano algo singular para a música de concerto e a ópera no Rio de Janeiro. O Theatro Municipal continua montando alguns títulos – esse ano foram três, muito conhecidos: A Viúva alegre, de Lehár, em versão tradicional de André Heller-Lopes, Os pescadores de pérolas, de Bizet (que há bastante tempo não era montada no Rio), e uma correta Butterfly de Puccini. Isso, fora a ótima ideia de fazer um festival de pequenas produções líricas com intuito de formar corpo técnico na prática. Nesse festival, destacou-se O afiador de facas, de Piero Schlochauer, uma das jovens promessas da lírica brasileira. A montagem de Os pescadores, assinada por Julianna Santos, trouxe inovações cênicas, com muitas projeções complementando o cenário e os figurinos de Desirée Bastos. Na direção artística da casa, segue o empenhado Eric Herrero, toureando as sempre complexas circunstâncias da cultura carioca submetida ao comando estadual.
Dos concertos, uma salva de palmas para a Quinta de Mahler com Marcelo Lehninger com a OSB, na comemoração dos 85 anos da orquestra carioca, que veio se reestruturando com muita determinação – há sussurros a respeito da entrada do regente de maneira mais permanente. A ver. O ano de 2026 traz a presença de João Guilherme Ripper na curadoria dos espetáculos, o que reafirma qualidade. Mas, no ar, fica o zumbido: o Rio de Janeiro precisa ter mais concertos sinfônicos, com programação mais sólida e mais coerente. Faz falta uma Sala São Paulo ou uma Sala Minas Gerais. A Cidade da Música não realizou seu potencial. Flopou.
Na música de câmara, destaque para os três pianistas trazidos por Lilian Barretto na versão reduzida de seu Festival de Piano. A canadense Élisabeth Pion, a chinesa Xiaohui Yang e, principalmente, o extraordinário jovem (23 anos) Estefan Iatcekiw, curitibano que promete carreira de sucesso. Lilian promoverá em 2026 seu Concurso, que já revelou nomes como Fábio Martino e Dmitri Shishkin, entre muitos outros. Lilian também chamou a atenção para a redução de mulheres pianistas em concursos – entre competidoras e no júri – e pretende manter o assunto em pauta. Aliás, não custa lembrar: a Academia Brasileira de Música elegeu esse ano sua primeira presidente: Ilza Nogueira assume em março.
Voltando ao Municipal do Rio: vale pontuar que o Balé, depois de tenebroso inverno, veio se recuperando com a absorção de jovens talentos vindos da Escola de Dança Maria Olenewa e esse ano, sob a direção de Hélio Bejani, apresentou montagens muito elogiadas e destaques como Luís Paulo Martins, Marcella Borges e Tabata Salles.
Por fim, entre muitas outras coisas, uma outra salva de palmas para a cinquentenária Bienal da Música Contemporânea, pela resistência e relevância. Com a determinada atuação de André Cardoso, a Bienal segue abrindo horizontes para a música, na continuação do projeto do saudoso mestre, tão grande artista quanto realizador, Edino Krieger. [Depoimento de dezembro de 2025.]
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