Concerto comemorativo do aniversário do Coral Paulistano atravessou o tempo ao recuperar e estrear obras; participaram da festa os principais nomes de sua trajetória
O Coral Paulistano abriu a temporada 2026 na quinta-feira, 12, comemorando seus 90 anos, na Sala do Conservatório. Pude escrever algumas palavras sobre a efeméride na última edição da CONCERTO. Para esta apresentação, foram pensadas peças que remetessem à trajetória do coro na ocasião de seu primeiro concerto, em 1936, unidas a duas estreias – uma de Camargo Guarnieri, composta em 1980, e outra de Antonio Ribeiro, seu aluno, composta em 2025. Além disso, o Paulistano não só cantou, mas também escutou, junto com o público, uma gravação de 1937 do grupo, à época regido por Guarnieri. Um ponto especial da apresentação.
A entrada do coro ocorreu aos poucos e já ao som de Xangô (1935), de Villa-Lobos, obra que abriu o concerto (e fechou o concerto de 1936). Uma parte do coro já estava posicionada no palco da Sala do Conservatório, à direita do público (os assentos foram organizados na parte mais longa da sala). Sob regência de Maíra Ferreira, esta seção menor do Paulistano iniciou a obra. Durante a música, o restante dos cantores ocupou seus lugares, caminhando por detrás do público e formando outros dois grupos, à frente, cantando todo o tempo. A regência então foi dividida entre Ferreira e a regente assistente do Paulistano, Isabela Siscari, que, coordenada com a titular, conduziu os últimos dois grupos formados.
O abandono do ritual “entrada dos músicos no início do concerto”, que muitas vezes ocorre sob aplausos entre tímidos e esparsos, foi, portanto, superada aqui, o que sempre é um sucesso em termos de performance. Além disso, a ideia possibilita que o público possa experimentar a movimentação das vozes de outra maneira.
A divisão do coro grande em três menores serviu à formação necessária para a execução das três peças seguintes, uma regida por Ferreira, as outras duas por Siscari. Gitene liete rime, ov’ or si siede, Sicut cervus e Sitivit anima mea, de Palestrina, remetem à predileção do grupo pelo repertório renascentista, ao mesmo tempo em que recupera mais uma das obras cantadas no primeiro concerto do Paulistano.
Após isso, a primeira estreia, de Antonio Ribeiro – e o restante do programa foi regido por Maíra Ferreira. De Ribeiro, dois cânticos de Carmina Arborum – Cânticos das Árvores, foram executados.
Ouvir o coro completo após as três peças renascentistas provocou um contraste acústico interessante. Mas o efeito se deu também devido à força dos dois cânticos, nos quais Ribeiro gostou de trabalhar a sobreposição e filtragem gradativas das camadas de vozes, construindo, com melodias distendidas no tempo, ondas texturais entre mais e menos densas.
A obra trabalha textos que colocam a natureza como tema principal. Ambos foram recitados por Sira Milani, soprano integrante do coro, antes das execuções. No primeiro cântico, Árvore II, com poema de Mia Couto, a árvore fala de si e de suas sensações sob a chuva, sob o sol, sob os pássaros e sob as palavras. Aqui o piano de Renato Figueiredo destacou-se em vários momentos, como na execução pontilhista das gotas de chuva que “chovem dentro de mim”, agudas e espaçadas, contrastadas pelos acordes insistentes e periódicos que acalantavam as melodias, muito à maneira do célebre movimento Louange à l'Éternité de Jésus, de Olivier Messiaen (inclusive em termos de coloração dos acordes).
O segundo cântico, a cappella, sob texto da poeta e mezzosoprano Kismara Pezzati, chama-se Fortaleza. Nele, as camadas, já mencionadas, permaneceram ondulando em densidade, mas seu final, legado às vozes graves em boa parte, seguidos pelas agudas numa melodia decrescente (pensemos na sonoridade geral de segundas menores para ambos os cânticos), resultou num final introspectivo, talvez remetendo à segurança do eu-lírico que, “envolta pelas árvores”, é abraçada “nos acalantos inconfundíveis/de sua fortaleza milenar”.
Seguiu-se à estreia de Antonio Ribeiro a escuta compartilhada de um registro de Ou-lê-lê-lê!, de Dinorá de Carvalho, datada de 1937, sob regência de Camargo Guarnieri (joia encontrada pelo maestro Rafael Barrera). A gravação foi quase imediatamente seguida de outra execução da obra, dessa vez ao vivo, pelo Coral Paulistano de 2026.
Fechou o concerto de 90 anos do Paulistano o compositor Camargo Guarnieri, que a esse ponto já quase se colocava vivo na Sala do Conservatório: primeiro a partir da presença de sua filha, Miriam, na plateia; depois como professor (de Antonio Ribeiro) e também como regente titular do Paulistano (na obra de Dinorá de Carvalho). Agora, finalmente, como compositor. E com estreia.
Auto de todo mundo e ninguém é uma peça bem-humorada que pontua, com a percussão (executada por Elias Gonzaga, Guilherme Florentino, Henrique Schneider, Jefferson Silva, Renato Raul e Thiago Santos), as conclusões apalhaçadas de um Belzebu curioso. Este, encarnado por Paulo Vaz, assiste a discussão entre o coro (Todo mundo) e o tenor Erickson Nunes (Ninguém), e narra suas interpretações. O discurso musical, irônico, segue o texto de Carlos Drummond de Andrade. Alterna ritmos brasileiros e momentos que não podem ser descritos de outra maneira senão como “tiração de sarro”. Como quando Todo mundo e Ninguém falam sobre “Bajular”, e a palavra é pintada pelo clichê “rulo de tímpanos + tutti do coro, vozes dobradas”, imitando a grandiloquência própria do puxa-saco. Para terminar a noite, Ponteio, de Edu Lobo, em arranjo de Claudio Ribeiro e adaptação de Angelo Fernandes, relembra o compromisso do Coral Paulistano com a música popular.
Foi esta a célebre lista de convidados de uma festa de aniversário importantíssima para a música brasileira e para São Paulo. Só falta um nome, que permeia o concerto todo: Mário de Andrade. Criador do Coral Paulistano, agente principal da recolha das melodias usadas por Villa-Lobos e Dinorá de Carvalho (cujo Ou-lê-lê-lê! é dedicada ao polímata da Pauliceia Desvairada). Além de tudo, professor de Guarnieri (que, dizia, formou-se na Faculdade Mário de Andrade).
Dele, cabe uma breve passagem de O Banquete. Nela, o compositor Janjão dirige-se a outro personagem, Pastor Fido: “Não sou nacionalista, sou simplesmente nacional. Nacionalismo é uma teoria política, mesmo em arte. Perigosa para a sociedade, precária como inteligência”. Sob esse ponto de vista, a incumbência dada ao Coral Paulistano – a de fazer tradição executando músicas novas brasileiras – repousa num objetivo comum entre estéticas diversas. E, depois, “toda arte é social porque toda arte é um fenômeno de relação entre seres humanos”.
O que Mário queria era que se estabelecesse uma prática brasileira em terras brasileiras. Conseguiu.
Parabéns, Paulistano.
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