A música de nosso continente poderia, sim, ganhar as salas de concerto de todo o planeta – desde que tratada com o apuro, respeito e convicção do pianista russo, que se apresentou com a Osesp nesta semana
Dizem que São Paulo é o túmulo do samba, mas mesmo por aqui o Carnaval opera milagres. Quem poderia imaginar que um dia um dos maiores pianistas do mundo viria à cidade para gravar um disco pela Deutsche Grammophon?
Pois o mesmerizante Daniil Trifonov resolveu que a Osesp – com a qual, em 2013, tocou de forma deslumbrante a Rapsódia sobre um tema de Paganini, de Rachmaninov – seria a parceira ideal para seu novo projeto fonográfico – História Americana: Sul, uma jornada pelas diversas poéticas latino-americanas.
Estive presente na sexta-feira, 13 – data agourenta para quem consegue crer. Para a primeira parte, Trifonov escolheu uma série de miniaturas – que tratou com a meticulosidade de ourives que o caracteriza. A música de nosso continente poderia, sim, ganhar as salas de concerto de todo o planeta – desde que tratada com o apuro, respeito e convicção de Trifonov.
Falar de seus recursos técnicos é desfilar uma sucessão de superlativos que não dão conta da efetividade do fenômeno Trifonov. Com uma gama de dinâmica ilimitada, ele parece comandar um órgão – tamanho o caleidoscópio de timbres que extrai do instrumento. Uma mesma nota, com uma mesma dinâmica, pode soar completamente diferente – dependendo de seu toque sutil e da imaginativa utilização dos pedais. Mérito nisso também a George Boyd, o mago da afinação que possibilitou que o Steinway da Sala São Paulo soasse como poucas vezes se ouviu, respondendo a cada uma das multifacetadas e sofisticadas demandas do pianista.
Além disso, ao falar musicalmente as diversas variedades do português e do espanhol da América do Sul e do Caribe, Trifonov não soa como um turista, mas como um nativo. Parece à vontade tanto nos gêneros dominicanos abordados por Juan Francisco García e Bullumba Landestoy, quanto na Valsa da dor, de Villa-Lobos, e na Dança negra, de Guarnieri – executada com verve inegável. As equalizações entre diversos níveis de pianíssimo elevou a Milonga, de Alberto Ginastera, a um nível poético que tangenciou o inefável. E o Tango de sua própria autoria – tributário tanto da tradição tangueira russa que passa por Stravinsky e Schnittke quanto da escrita de Piazzolla – não destoou deste painel.
Após essa sucessão de peças breves, Trifonov concluiu a parte inicial do programa com uma obra de fôlego: as Bachianas brasileiras nº 4, de Villa-Lobos (cuja versão orquestral Kirill Petrenko regeu com a Filarmônica de Berlim em 2021).
Com cada um de seus movimentos dedicado a um virtuose do teclado, as Bachianas brasileiras nº 4 são uma inspirada e vigorosa afirmação do nacionalismo de Villa-Lobos, unindo uma possante evocação do sertão nordestino e uma noção singular do legado bachiano. Desde o Prelúdio, Trifonov mobilizou extremos de dinâmica e pausas tchekhovianas para construir um arco que transformou a partitura em um rico painel de Portinari, rico em matizes, cores e afetos. Em certo sentido, fundiu a versão para teclado e a partitura orquestral, tamanha a grandiosidade da concepção sonora e a variedade da paleta timbrística. É daquelas interpretações que transfiguram nosso entendimento do compositor e da obra – e que, ao ser consolidada em disco e distribuída internacionalmente, tem potencial para dar um impulso decisivo à recepção da partitura em escala global. Na versão de Trifonov, essa obra pode ser a grande embaixadora da música brasileira no cenário do piano internacional.
Houve intervalo e, infelizmente, na segunda parte a temperatura da Sala São Paulo caiu consideravelmente. Não por causa de Trifonov, que não deixou seu talento e carisma nos camarins. Nem por causa da Osesp. Em formação camerística, a orquestra estava reduzida à fina flor de seus executantes, que mostraram muito empenho, compromisso, foco e qualidade para realizarem a estreia fonográfica de uma orquestra brasileira na Deutsche Grammophon.
A questão é que, por maior que seja o talento, há limites na quantidade de leite que se pode extrair de determinadas pedras. E que rochedo árido são os Cuadros del Sur, a peça do venezuelano Gonzalo Grau (que atuou também como regente e percussionista) que Trifonov encomendou para ser estreada e gravada neste projeto!
Por volta do ano 2000, o compositor argentino Osvaldo Golijov virou hype devido à Paixão segundo São Marcos, um oratório impregnado de ritmos latinos. A moda Golijov passou, mas a Paixão seguiu com certo apelo. Em 2009, Grou tomou temas desta partitura como base para Nazareno, para os dois pianos das irmãs Katia e Marielle Labèque e orquestra. E, agora, voltou ao oratório de Golijov nos Cuadros del Sur, produzindo algo difícil de não qualificar como kitsch – assim como seu arranjo de Aquarela do Brasil.
Felizmente, esse jogo já estava ganho no primeiro tempo. E foram as reminiscências da parte solo da apresentação que permitiram aos foliões da Sala São Paulo voltarem para casa com a felicidade de súditos de Momo.
Leia também
Crítica Paulistano, 90, mostra seu álbum de retratos sonoros, por Ana Cursino Guariglia
Notícias Petrobras Sinfônica anuncia temporada 2026 com diferentes séries
Notícias Orquestra Sinfônica Brasileira anuncia temporada do primeiro semestre
Notícias Filarmônica Senai-SP anuncia temporada batizada de Mosaicos
Notícias Nova temporada da SPCD vai da tradição ao contemporâneo
Notícias Sinfônica de Piracicaba recebe convidados, toca música chinesa e apresenta balés em 2026
É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.

Comentários
Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.