Mesas reuniram profissionais do setor em torno de uma discussão sobre o estado atual da produção e os desafios que o gênero ainda enfrenta no país
Por Clara Zamboni
Na última quarta-feira, dia 14, a Escola de Comunicações e Artes da USP organizou o ‘ECA Ópera Day’. O evento reuniu artistas, professores e gestores de casas de ópera e abordou as perspectivas sobre o mercado de ópera no Brasil e no exterior.
Aluísio Segurado, reitor da USP, abriu o evento e expressou o empenho da reitoria de apoiar o que considera “um projeto inovador e transformador, pela maneira como reúne departamentos e traz de forma integrada os saberes reunidos”. Amâncio Jorge de Oliveira, pró-reitor de extensão e cultura, colocou que o projeto da Escola de Ópera lida com temas importantes, como a formação de público, de artistas, a realização de parcerias e a diplomacia cultural e artística. Por sua vez, Mario Videira, vice-diretor da ECA, ressaltou que a Escola de Ópera pode trabalhar também para a formação de público e de novas plateias. E Flavia Albano, chefe do Departamento de Música, reafirmou a importância de se pensar a ópera como uma área de fato interdisciplinar, reunindo diferentes departamentos.
A primeira mesa discutiu o impacto da ópera na sociedade a partir da perspectiva brasileira. A encenadora Livia Sabag falou da importância de repensar as estruturas e hierarquias dos teatros de ópera, à luz da necessidade de diálogo em diferentes esferas: a escolha de títulos a serem encenados, a escolha de caminhos artísticos, de elenco. Para ela, o diálogo coloca-se como fundamental na realização artística de qualidade, o que torna diferente a comunicação com o público. Ela abordou também a estrutura de produção ligada ao repertório histórico, e falou também sobre a busca por novos formatos a partir de criação de novas óperas. Nesse sentido, lembrou o Vitória Opera Estúdio, em que todos os profissionais envolvidos participam e têm contato com outras áreas que não as suas. E do Núcleo de Criação de Ópera, no qual as obras surgem da colaboração, desde o início, entre diretor cênico, maestro, compositor, libretistas e elenco, que participam da criação.
Flavia Furtado, diretora executiva do Festival Amazonas, por sua vez, definiu o gênero como mais vivo do que nunca. Ela citou as parcerias e discussões que têm sido feitas em todo o mundo e a existência de muitos teatros Brasil afora, o que permite a criação de estruturas como a do Festival Amazonas de Ópera. Ela lembrou que fazer ópera é uma atividade que contempla diferentes aspectos, da criação de empregos e de renda ao modo como propõe o desenvolvimento do pensamento crítico, revisitando o cânone à luz de nossa época.
O compositor Leonardo Martinelli defendeu o impacto da criação de óperas. O gênero, afirmou, oferece a chance de explorar sonoridades que na ópera costumam ser mais bem aceitas do que na música sinfônica e na música de câmara. A partir também dos assuntos que se escolhe, ele acredita que é possível abordar temáticas que nos digam respeito, como em Navalha na Carne, adaptação da peça de Plinio Marcos, que ele escreveu para o Theatro Municipal de São Paulo.
A segunda mesa, Fazer Ópera na Contemporaneidade: desafios e potencialidades, trouxe Miguel Galdón, gestor cultural, músico e diretor adjunto do Teatro de La Zarzuela, em Madri. Participaram também a professora Cibele Forjaz, do Departamento de Artes Cênicas da ECA e Flavia Albano.
A representatividade e a conexão com o público atravessaram os debates sobre o cenário operístico. Galdón recuperou a história do Teatro de La Zarzuela: criado em 1856, a instituição surgiu para comportar os projetos dos compositores espanhóis, em um tempo em que a ópera italiana obtinha destaque sobre obras nacionais.
Nos dias atuais, a gestão busca aproximar o público da casa, que caiu em popularidade com o passar dos anos. Um dos exemplos disso é Proyecto ZARZA, que seleciona jovens artistas para interpretarem releituras de obras tradicionais, com libreto adaptado para dialogar com debates contemporâneos. A facilidade no acesso ao teatro, que é público e oferece ingresso a preços abaixo dos oferecidos por outras casas, motiva a inclusão de novos públicos.
No Brasil, a instabilidade do mercado de ópera motiva a academia a repensar suas abordagens na formação de profissionais, propôs Flavia Albano. Para ela, diferentemente do que acontece nos países europeus, o Brasil não apenas convive com a falta de teatros ativos e agências, mas concentra suas produções na região Sudeste. “A gente não pode ficar esperando o teatro ligar e chamar a gente para fazer Don Pasquale, a gente tem que criar os próprios projetos”, diz.
Cibele Forjaz destacou o potencial do trabalho em equipe proporcionado pela Escola de Ópera. Ela contou que a união entre departamentos – que antes não se relacionavam de maneira próxima – para garantir a qualidade da produção foi fundamental para o funcionamento.
A mesa Governança, Comunicação e Diversificação de Público reuniu Andrea Caruso Saturnino, ex-diretora do Theatro Municipal de São Paulo, Marcelo Lopes, CEO da Fundação Osesp, e Paulo Zuben, diretor artístico e pedagógico da Santa Marcelina Cultura.
Comunicar a ópera a públicos de diferentes perfis é um dos desafios da administração de teatros e salas de concerto. Marcelo Lopes comentou que é necessário incluir novas audiências sem simplificar a linguagem das produções. Saturnino destacou a importância de introduzir a programação com antecedência para preparar futuros espectadores. Um dos casos relatados diz respeito aos vídeos que introduzem as montagens, desenvolvidos a partir do envolvimento de profissionais próximos à programação. Ela acrescentou ainda que o público paulista recebe bem estreias e produções pouco executadas. Para ela, é necessário preparar o espaço para receber os espectadores. “O público não é uma massa que comprou o ingresso, cada pessoa é uma pessoa”, afirmou.
O grupo também refletiu sobre as barreiras que afastam o público da ópera. Zuben apontou que não existem fórmulas prontas, mas defendeu que a programação diversificada pode dialogar com diferentes perfis em diferentes localidades. “Às vezes, a gente assume que as pessoas não têm interesse, mas elas têm”.
Os três convidados trouxeram desejos para futuros projetos. Lopes destacou a formação de maestros e diretores artísticos que tenham olhos para a ópera e que saibam aproveitar os recursos da orquestra de forma estratégica. Zuben, na mesma linha, disse que o gênero deve estar presente no treinamento de músicos e compositores e citou o Atelier de Composição Lírica do Theatro São Pedro. Por fim, Saturnino abordou as residências de criação para o desenvolvimento de novas montagens.
Na mesa seguinte do evento, História e evolução da ópera, estiveram presentes a cantora, diretora cênica e musicóloga Ligiana Costa, o professor e pesquisador Sergio Casoy e o maestro Gabriel Rhein-Schirato.
Costa iniciou sua fala ressaltando a importância de repensar o gênero a partir do olhar do sul global e de grupos sub-representados, como as mulheres e a comunidade LGBT+. “(Historicamente) As óperas são muito problemáticas. Normalmente, os libretos operísticos são extremamente orientalistas, com um viés racista ou são problemáticos, de ordem colonial e machistas e hoje nós temos lidado com esses problemas.”
Por outro lado, Sergio Casoy afirmou que a ópera está em constante evolução, mas transformações e releituras exigem cuidado com a tradição. “Me assusta o ego de determinados encenadores, no sentido de alterar o libreto, ou o de maestros, de mexer na partitura em função de uma mensagem que tem que ser passada.” Ele defende que nada deve ser alterado, mas que a produção deve encontrar formas de conscientizar que os preconceitos impressos na ópera refletem o pensamento do contexto histórico em que foram produzidos.
Rhein-Schirato fez um breve histórico, relembrando a presença da ópera no Brasil no século XIX e citando o Theatro São João, primeiro teatro de ópera brasileiro surgido no Rio de Janeiro. Registros apontam que a apresentação de estreia contou com obras líricas traduzidas para o português – assim, afirmou, o dilema entre tradição e releitura faz parte das discussões na história do gênero. “Para alguns, o Brasil fazer ópera italiana tão bem quanto se faz na Itália seria inserir o Brasil num contexto internacional como país de progresso. Para outros, fazer ópera de um compositor brasileiro cantada em português era encontrar sua própria identidade, seu próprio caminho. Essas discussões sempre estiveram presentes.”
A última palestra do evento, Teatro, ópera e musicais: cenários futuros, trouxe Samuel MacDowell, fundador do Instituto Baía dos Vermelhos, Wilson Barros, coordenador de operações comerciais da Opus Entretenimento, Rosana Paulo de Cunha, superintendente Técnico Social do Sesc-SP, e o advogado Fábio Cesnik.
Representantes de instituições privadas, os convidados comentaram que as parcerias são a chave para equilibrar as contas e garantir espaço para a inovação. Enquanto o Teatro de Vermelhos incorpora corpos artísticos do Estado em sua programação, a Opus entretenimento aposta, por exemplo, em acordos de ‘naming rights’ com patrocinadores.
Os convidados concordam que as leis de incentivo à cultura precisam de aprimoramento. MacDowell e Barros contam que embora os projetos sejam aprovados pela Lei Rouanet, o diálogo com possíveis patrocinadores é desafiador, porque as equipes de marketing das empresas não se interessam por produtos que não atraem grandes públicos.
Cunha criticou a tentativa agressiva das empresas de inserir suas propagandas nos eventos culturais patrocinados. Ao longo da conversa, MacDowell comentou que “a lei Rouanet não foi feita para fomentar a publicidade das empresas, foi feita para fomentar a cultura”.
Cesnik lembrou do impacto positivo da Lei Rouanet. Ele ressaltou que, ao permitir que empresas patrocinem a arte, a lei impede que os projetos sejam exclusivamente dependentes do Estado. Ele também citou alternativas para atrair e manter público e investimentos. Agências podem motivar o licenciamento e transporte de produções operísticas, de forma semelhante aos musicais. Aos artistas com menor visibilidade, shows e apresentações de abertura em grandes eventos abririam portas a novos espectadores, por exemplo.
O encerramento do evento contou com recital de alunos da universidade.
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