‘Femina’ de Kismara Pezzati é espetáculo sensível e universal 

por Nelson Rubens Kunze 28/10/2026

Monólogo cênico-musical reúne a cantora e o pianista André dos Santos em intepretação de obras da compositora Silvia Berg

Hildegard von Bingen foi uma monja beneditina alemã que viveu na Idade Média, entre os anos de 1098 e 1179. Ela é considerada uma das compositoras mais notáveis do período medieval, talvez a primeira mulher compositora, mas também se destacou como mística, teóloga, escritora e estudiosa da natureza. Hildegard relatou visões religiosas, que influenciaram suas obras teológicas, e escreveu importantes textos sobre medicina, botânica e espiritualidade. Sua atuação artística, intelectual e religiosa fez dela uma figura única em uma época em que as mulheres tinham acesso bem limitado aos espaços de produção de conhecimento.

É esse universo de Hildegard von Bingen, sua filosofia e visão de mundo, que permeia o sensível Femina, “um monólogo cênico-musical sobre as diversas facetas do feminino”, como diz o programa do recital. Assisti ao espetáculo ontem, dia 27 de outubro, na Estação Motiva Cultural da Sala São Paulo. E gostei muito.

Femina foi criado pela mezzo soprano Kismara Pezzati, que também traduziu os textos, escreveu o roteiro e é responsável, junto com João Malatian, pela direção. As composições são de Silvia Berg, à exceção da abertura, que é de Hildegard. 

A monja beneditina é a autora dos textos em latim que compõem o Ato I do espetáculo (por exemplo, “ó força da Sabedoria, tu tens três asas: uma se eleva às alturas, outra derrama seu vigor sobre a terra, e a terceira voa por toda parte...”) e que inspiraram a criação dos textos do Ato II, escritos pela própria Kismara. 

Os textos têm caráter filosófico, introspectivo e místico, e, tratando de temas como transcendência, autodeterminação e liberdade, contêm uma forte carga de humanidade. Assim, apesar de algumas vezes ancorados na questão da afirmação do feminino, ecoam universalidade. 

Além da atmosfera de Hildegard von Bingen, o que amarra o espetáculo é a música de Silvia Berg, cuidadosamente trabalhada, moderna e acessível. Algumas passagens soam impressionistas, outras apresentam progressões rítmicas que ecoam o minimalismo. Mas Berg tem uma linguagem própria e soube equilibrar de forma muito feliz uma expressão autônoma com o acompanhamento dos textos. Para o sucesso da noite, foi fundamental, também, a total sinergia com o pianista André dos Santos.

A interpretação de Kismara Pezzati foi bem competente. Kismara é cantora lírica de consolidada carreira, tem uma bela e potente voz, escura e expressiva, que resultou muito adequada aos temas existenciais e à atmosfera do monólogo. Além disso, a artista, absolutamente à vontade sobre o palco, apresentou uma atuação cênica natural e de grande intensidade. 

Mais do que um espetáculo sobre o feminino, Femina busca articular questões existenciais e filosóficas por meio da música, da palavra e da teatralidade, levando o público uma escuta atenta e reflexiva. 


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André dos Santos e Kilmara Pezzati em Femina (Revista CONCERTO)
André dos Santos e Kismara Pezzati em Femina (Revista CONCERTO)

 

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