Em 'Resistance', Igor Levit mostra que a música é um gesto político

por João Marcos Coelho 29/10/2026

Álbum de transcrições explora as reações de Beethoven e Schoenberg ao autoritarismo

O pianista russo Igor Levit completa 40 anos em 10 de março de 2027, portanto daqui a cinco meses. Não é exagero afirmar que ele faz de Beethoven sua estrela-guia. Toca três de suas sonatas na temporada 2027 da Cultura Artística e acaba de lançar um álbum intitulado Resistance (Resistência), unindo Beethoven e Arnold Schoenberg em seu ódio irmanado contra ditadores, de Napoleão Bonaparte a Adolf Hitler.

Resistance coloca lado a lado a célebre transcrição para piano solo da Sinfonia 'Eroica' assinada por Franz Liszt — gesto até certo ponto político por parte do compositor húngaro — com a 'Ode a Napoleão', que Schoenberg compôs em plena Segunda Guerra Mundial, já radicado nos Estados Unidos em março de 1942, apenas três meses depois do ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro de 1941, que provocou a entrada norte-americana na guerra. Um libelo contra o nazismo que se espelha no poema de Lord Byron de 1814, fustigando seu ex-ídolo pelos mesmos motivos de Beethoven.

Nascido em Gorky, Levit consolidou-se como um dos grandes pianistas do nosso tempo em dois sentidos: primeiro como músico extraordinário; em seguida como ser humano que tem consciência do mundo conturbado em que vivemos e faz questão de adotar posições públicas firmes. Não é um músico que se põe a falar panfletariamente de política. Isto é, não opera apenas com declarações de cunho político, mas musicalmente. Este é seu diferencial. Faz questão de mostrar que emula seu guru Beethoven, para ele um revolucionário. Age artisticamente como seu ídolo. Beethoven passou da admiração irrestrita a Napoleão compondo uma sinfonia em seu louvor, mas rasgou a dedicatória quando o general francês autocoroou-se imperador.

Sua agenda político-musical ficou clara em 2015, quando lançou um projeto-mamute — e fabuloso, do ponto de vista artístico, por suas interpretações excepcionais — intitulado Bach, Beethoven, Rzewski (Sony). Fez de Beethoven o núcleo de um projeto portentoso, colocando lado a lado, na mesma gravação, as duas mais incensadas variações da história da música — as Goldberg de Bach e as Diabelli de Beethoven — e as mais engajadas e célebres variações do nosso tempo, as Variações sobre 'Um povo unido jamais será vencido', do norte-americano Frederic Rzewski, de 1975. Ganhou todos os prêmios internacionais naquele ano.

Mas vamos ao álbum ora lançado. Esqueci de dizer que é o segundo lançamento de sua própria gravadora, que batizou sintomaticamente de No Silence, com distribuição da Sony.

Um tirombaço contra tiranias e ditaduras de toda espécie, como nossos ouvidos testemunham na primeira obra, de Schoenberg. Dominique Jameux, em seu ótimo livro L'École de Vienne (A Escola de Viena, Fayard, 2002), lembra que a entrada dos EUA na guerra levou os músicos europeus lá instalados a se engajarem. Schoenberg aproveitou uma encomenda da Liga de Compositores de uma obra camerística para compor a 'Ode'. O poema de Byron é sarcástico contra o imperador destronado e exilado que adotara anos antes como seu ídolo. 'Schoenberg não tinha motivo para abraçar esta causa; mas encontrou na ode byroniana um texto que respirava o desprezo e a hostilidade radical que Hitler lhe inspirava', escreve Dominique Jameux. O pianista gravou Schoenberg com a atriz Dörte Lyssewski narrando e a Kammerakademie Potsdam, regida por Antonello Manacorda. Não é das obras mais instigantes do compositor, mas é lembrada sempre por suas implicações políticas.

Em todo caso, um gesto político poderoso do inventor da música serial ou dodecafônica. Mas a motivação central do álbum é, sem dúvida, a Eroica na versão de Liszt para piano solo. Surpreendentemente comedido, no texto do encarte do álbum Levit enfatiza que o heroísmo da sinfonia reside menos em figuras políticas e mais no próprio Beethoven: 'Temos aqui um homem que está perdendo a audição, que se vê à beira do suicídio e, ainda assim, segue em frente. Por meio de sua arte, Beethoven reconquista seu lugar na vida'. Mas não se esquiva de colocar a transcrição de Liszt como bem mais do que mero arranjo: 'Em essência, ele transforma a 'Eroica' em uma sinfonia independente para piano'.

De fato, é raro ver os maiores pianistas dedicando-se a transcrições e/ou arranjos. Em geral apenas pianistas médios costumam dedicar-se a este tipo de repertório (postura que recrimino com veemência, porque joga no limbo um vasto repositório de transcrições do século XIX). O gesto de Levit chama a atenção para este repertório marginal, lotado — sobretudo durante o século XIX — de gemas desconhecidas do grande público, raramente tocadas em recitais, e menos ainda gravadas.

Por tudo isso, Levit bem que poderia fazer dois recitais em setembro do ano que vem na temporada da Sociedade Cultura Artística: um com as já anunciadas sonatas 'A tempestade', 'Appassionata' e 'Waldstein', de Beethoven... e outro tocando a transcrição de Liszt da Sinfonia 'Eroica'.

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Igor levit [Divulgação/ Peter Rigaud]
Igor levit [Divulgação/ Peter Rigaud]

 

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