Maestra Lígia Amadio é demitida da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

por Redação CONCERTO 10/01/2026

Nota do Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais afirma que a direção da Fundação Clóvis Salgado alegou “falta de recursos” como justificativa para a decisão; Fundação Clóvis Salgado diz que para comemorar os 55 anos da instituição decidiu convidar regentes de renome nacional que já estiveram à frente da orquestra

O Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais publicou uma nota nas redes sociais lamentando a demissão da maestra Lígia Amadio da direção musical e da regência titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, corpo artístico do Palácio das Artes, gerido pela Fundação Clóvis Salgado. Segundo o comunicado, a direção teria sido contraditória ao alegar falta de recursos “em um momento em que anuncia uma grande programação para a temporada”. Em 2026, a Fundação Clóvis Salgado completa 55 anos e a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, 50 anos.

Lígia Amadio, que ocupa a direção da orquestra desde 2023, tem amplo apoio dos músicos, conforme destaca a nota do sindicato. Além de sua atuação artística, o comunicado chama a atenção para o papel da maestra na defesa das reivindicações salariais e das condições de trabalho dos músicos. O texto sugere ainda a possibilidade de que a decisão esteja relacionada a essa postura, ao afirmar: “Lamentamos profundamente a demissão de Lígia Amadio nesse contexto, que pode parecer uma reação injustificável à sua postura em defesa dos músicos. Esperamos mais habilidade e bom senso dessa diretoria nesse momento tão significativo para essa instituição cultural”.

Em resposta a questionamento da Revista CONCERTO, a Fundação Clóvis Salgado respondeu: “A Fundação Clóvis Salgado (FCS) informa que, para comemorar os 55 anos, decidiu convidar regentes de renome nacional, que fazem parte da história e já estiveram à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, para conduzir as apresentações previstas para este ano de 2026. Em virtude dessa readequação, a execução do contrato da Diretora Musical e Regente Titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Lígia Amadio, será encerrado definitivamente, abrindo espaço para um novo momento na música erudita de Minas Gerais”.

A saída de Lígia Amadio repercutiu nas mídias sociais. Emanuelle Baldini, spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, escreveu: “Um trabalho sério, consistente e respaldado por anos e anos de experiência não deveria acabar assim. Me solidarizo com os músicos e com a própria Lígia, que sempre teve e sempre terá minha admiração mais profunda, humana e artística”.

O violinista Alessandro Borgomanero também se manifestou: “Meu total apoio à excelente maestra @amadio.ligia, que foi recentemente desligada da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Além de uma grande musicista, ela sempre lutou para melhorar as condições estruturais e salariais das orquestras por onde passou, algo de grande importância no difícil cenário orquestral brasileiro. Minha total solidariedade”.

No Instagram, em postagem com dezenas de milhares de visualizações, a deputada federal por Minas Gerais Duda Salabert escreveu que Amadio “é um marco, é um patrimônio. Em um dos espaços mais machistas da música clássica, rompeu a lógica que aceitava mulheres apenas como ‘convidadas’ e se tornou a primeira regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Construiu um trabalho de excelência, teve o apoio dos músicos e defendeu melhores condições de trabalho. Mesmo assim, foi demitida. Isso não é só uma decisão administrativa: é um sinal de como o poder ainda reage quando uma mulher ocupa, com autoridade e compromisso, lugares historicamente negados. A cultura pública não pode punir quem a eleva. O legado de Lígia é maior que qualquer cargo: ela abriu caminhos, enfrentou o machismo estrutural e mostrou às novas gerações que esse espaço também é nosso”.


Leia abaixo a íntegra da Nota do Sindicato dos Músicos de Minas Gerais sobre a demissão da maestra Lígia Amadio

Após uma temporada de grandes realizações, os músicos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais foram surpreendidos, ainda durante as férias, pela preocupante notícia da demissão de Lígia Amadio. Essa maestra de reconhecimento Internacional vinha realizando um trabalho de alto nível à frente da orquestra desde 2023.Tudo indicava que esse trabalho teria seu ponto alto em 2026, quando a OSMG comemora 50 anos de sua criação.

Há um consenso entre a maioria dos músicos de que o trabalho realizado pela maestra foi fundamental para a elevação da qualidade artística do grupo e que seu desligamento vai impactar negativamente no nível do trabalho. Além disso, os músicos viam nela, mais que uma liderança artística, uma aliada nas reivindicações por melhoria nas condições de trabalho e salário. Isso ficou evidenciado numa recente Audiência Pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais na qual se comemorou os 80 anos do Sindicato, ocasião em que ela foi homenageada. Lígia fez um pronunciamento enfático e respeitoso em defesa das necessárias melhorias para os profissionais da orquestra.

A comissão de representantes dos músicos procurou o Sindicato para uma tentativa de solução negociada junto à direção da fundação Clóvis Salgado. Pedimos uma reunião e fomos prontamente atendidos. Infelizmente, a boa vontade em nos receber não perdurou perante nossas argumentações. A direção foi contraditória ao alegar falta de recursos em um momento em que anuncia uma grande programação para a temporada. Foi argumentado pelo Sindicato que no ano da comemoração dos 50 anos da OSMG e 55 anos da FCS é de grande importância para a cultura mineira a permanência da liderança que trouxe esse corpo artístico a esse patamar de grande qualidade. Ainda assim, a direção não recuou da decisão pela interrupção desse trabalho. 

Lamentamos profundamente pela demissão de Lígia Amadio nesse contexto, que pode parecer uma reação injustificável à sua postura em defesa dos músicos. Esperamos mais habilidade e bom senso dessa diretoria nesse momento tão significativo para essa instituição cultural 

Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais

[Matéria atualizada em 10/01, às 19h, para inclusão da resposta da Fundação Clóvis Salgado.]

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OPINIÃO
Demissão de Ligia Amadio expõe situação precária da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, por Nelson Rubens Kunze

Maestra Lígia Amadio (divulgação)
Maestra Lígia Amadio (divulgação)

 

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Sou musico profissional, com formação em BH,e com passagem por todas as Orquestras que funcionaram entre 1958/1975, Sinfônicas, Opera, Balè, Coral, etc. Sinto muita tristeza com o epsodio e nvolvendo a Fndação Clovis Salgado e a Grande e Querida Maestrina Lidia Amadio.
Mas para nós, musicistas antigos de BH, não è nenhuma surpresa, porque sempre nos trataram assim durante decadas. Talvez por ciumes e incompetencia, ao verem um trabalho profissional e humano irrepreensivel. Parabens Maestrina, esse epsodio somente elevarà o seu nome. Eles não te merecem. Dalton Nunes, Violinista.

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Não conheço a maestrina mas me solidarizo profundamente a ela. Também estou mais que calejado deste tipo de retaliação, preconceito, medo do sucesso alheio, ciumeira, ego, egoísmo, maldade, que no fundo reina contra quem apresenta competência, argumento, sai da caixinha da mesmice, do pensamento estreito e que luta por melhorias.
Sou da educação pública de Brasília e sofro os mesmos revezes vindos de um sindicato pruto, seco, que defende a educação em teoria mas faz tudo ao contrario na prática.
Se solidarizo à sua dor. Ofereço meus ombros e preces. Um dia superarmos juntos sandices como esta. Força e a luz que vc ja tem serão legados na superação deste momento duro e cruel.

Nesta audiência pública, a regente foi direta ao criticar o governo de MG pelo desprestígio ultrajante com que trata esta orquestra profissional cinquentenária. Ela revela que os músicos em início de carreira ganham menos de R$1700 por mês, ou menos de R$70 por dia de trabalho. O governo, que já é avesso à Cultura, não deve ter gostado. https://youtu.be/Ep9KMkNEh4I?si=Oh-3eyAVQpqkE8aW

Acho que a matéria deixa claro de subetender que o salário da maestrina foi incorporado á grande temporada que pretendem fazer, levando maestros convidados. Cada qual sabe onde o sapato aperta. Mas esse tipo de mudança prejudica a orquestra

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