Encenação será produzida pelo Anhaltisches Theater da cidade de Dessau; leia a entrevista com o brasileiro Yuri Colossale, dramaturgo do teatro
A ópera Alma, do compositor brasileiro Claudio Santoro (1919-1989), terá sua primeira montagem fora do Brasil. A estreia está marcada para o dia 28 de fevereiro de 2026, no Anhaltisches Theater Dessau, na Alemanha. Haverá récitas ainda nos dias 7 e 20 de março, 25 de abril e 3 de maio.
Composta na década de 1980, Alma é uma ópera em quatro atos baseada na primeira parte da trilogia Os condenados, de Oswald de Andrade. A história se passa em São Paulo no início do século XX e trata de temas como amor obsessivo, exclusão social, violência e desigualdade.
O título estreou em Manaus, cidade natal do compositor, em 1998. No ano de 2019, o Festival Amazonas de Ópera realizou uma encenação que incorporou à partitura adições manuscritas descobertas pelo filho do compositor, o cravista Alessandro Santoro.
A produção do Anhaltisches Theater Dessau será feita em português, com legendas em alemão. No papel-título se apresenta a solista Iordanka Derilova, que é “Kammersängerin”, título concedido na Alemanha a solistas de excelência, acompanhada entre outros por Costa Latsos (João do Carmo), Michael Tews (Lucas), Kay Stiefermann (Mauro), Edilson Silva Junior (Teles Melo), Alexander Argirov (Lobão), Marcelo de Souza Felix (Dagoberto Lessa) e Alyson Rosales (Dona Rosaura). A produção reúne também o Coro e o Balé do Anhaltisches Theater Dessau, além da Anhaltische Philharmonie Dessau. A direção musical e regência é de Markus L. Frank e a direção cênica de Christiane Iven.
A Revista CONCERTO conversou com o brasileiro Yuri Colossale, dramaturgo do teatro:
Yuri Colossale, como vocês chegaram a Alma?
A gente começou a planejar isso dois anos atrás. Na verdade, desde que eu comecei a trabalhar aqui, eu queria fazer uma ópera brasileira, ou pelo menos uma ópera sul-americana. Pensamos na Menina das nuvens de Villa-Lobos, em Um homem só, de Camargo Guarnieri, em Florencia en el Amazonas, de Daniel Catán.
O intendente do teatro, Johannes Weigand, que quando era jovem conheceu um LP em que Aldo Baldin cantava algumas canções do Santoro, perguntou: “E Claudio Santoro, tem ópera?”. Fui ver e tinha, né? Mandei o link da gravação de Alma feita pelo Festival Amazonas de Ópera e ele falou: “Olha, eu gostei da música. Será que conseguimos a partitura?”. E aí fui procurar o Alessandro Santoro.
Pegamos também a gravação de 1998, com Rosana Lamosa e com Marcos Tadeu, e mostramos para o diretor musical do teatro, Marcus L. Frank. Ele também gostou e se convenceu quando viu a partitura. Só faltava ainda acertar os direitos autorais. Mais ou menos em julho de 2024 estava decidido que a gente ia fazer Alma.
A ópera está editada?
Sim, a edição final foi feita pelo Alessandro Santoro, junto com outros dois editores. Um trabalhou principalmente na partitura, e o outro fez a redução para piano a partir das partituras prontas. Mas a edição é bem próxima do que foi feito em 2019, em Manaus.
A nossa montagem aqui tem uma coisa especial: a cena do sonho da Alma vai ser feita exatamente como Claudio Santoro escreveu, com música eletrônica e distorção das vozes ao vivo. Essa cena nunca foi realizada dessa forma antes. Vai ser a primeira vez que ela será feita como está na partitura.
Quem fará a direção cênica?
Eu queria que a direção cênica fosse de uma mulher, porque o assunto é muito específico. Eu quis que fosse Livia Sabag, mas tinha que ser uma diretora que falasse alemão... então convidamos a diretora Christiane Iven. Na temporada passada, a gente teve um grande sucesso com a encenação que ela dirigiu de Wozzeck, com a qual ela foi indicada a diversos prêmios aqui na Alemanha. Ela soube trabalhar muito bem esse tema da violência contra a mulher, do feminicídio, trazendo isso de forma sensível, mas não leve demais, nem poética demais. A gente não queria que ficasse numa esfera muito poética. As cenas de violência precisavam ser reais, verdadeiras, mas sem chocar gratuitamente. Precisavam ser tratadas com sensibilidade.
Fiquei totalmente à disposição da diretora para ajudar em tudo: especialmente no português, mas também para explicar quem é Oswald de Andrade, o que é esse romance, o que foi a Semana de Arte Moderna, como Cláudio Santoro decidiu compor a ópera, todo esse universo.
E como será a encenação?
Foi difícil encontrar a solução para trazer isso para o palco. De um lado, era necessário contar uma história brasileira – porque é uma ópera brasileira e o público espera isso –, por outro tem que ser algo com que os alemães pudessem se identificar.
Na montagem, toda a ópera se passa no prostíbulo de Dona Rosaura, onde Alma trabalha. Todas as personagens vão para esse espaço para ver Alma, como se ela fosse a grande atração. Nesse prostíbulo existe também um palco de apresentações, quase como um cabaré. Alma se apresenta ali, o balé também. Tudo gira em torno dela, que é o fio condutor da história.
A gente conta a história do Oswald de Andrade quase como se fosse uma novela acontecendo dentro desse prostíbulo, tudo muito real e verdadeiro.
A gente começa a noite com o prostíbulo aberto antes mesmo de a ópera iniciar: as prostitutas chegando, trocando de roupa, os músicos aquecendo, o pianista tocando, os dançarinos se alongando, a clientela chegando. Quando todos estão sentados, a música abaixa e começa a primeira cena de violência de Alma, com uma grande cena de dança, como se os frequentadores estivessem assistindo à apresentação dela.
Está funcionando muito bem. Está ficando muito bacana mesmo.
Fale um pouco do elenco. Há algum brasileiro?
A gente trabalha principalmente com os cantores fixos do teatro. Alma será feita pela soprano dramática Iordanka Derilova. Ela é fantástica e trabalhou uma ótima pronúncia do português. Como ela é búlgara, creio que tenha mais facilidade para nosso idioma. João do Carmo será o tenor greco-australiano Costa Latsos.
Do elenco fixo do teatro, o único brasileiro é o tenor Edilson Silva Junior, que faz o papel do engenheiro. E aí ainda temos, entre os convidados, o barítono brasileiro Marcelo de Souza Felix. Ele mora em Berlim e fará o papel de Dagoberto Lessa. É um papel pequeno, mas como tem muito texto, fiz questão que fosse um brasileiro.
Como está sendo a repercussão da montagem de Alma aí na Alemanha?
Estamos surpresos, a gente nem achou que ia repercutir tanto. Muitos veículos culturais da Alemanha começaram a se interessar espontaneamente. Saiu inclusive como recomendação da rádio NDR [Rádio do Norte da Alemanha] dentro da lista de óperas imperdíveis de 2026. A divulgação tem sido muito mais fácil do que com outras produções.
Também ajuda o momento do Brasil. O cinema brasileiro está em evidência, com Eu estou aqui e agora com O agente secreto. Colegas alemães comentam, assistem. Isso cria uma ponte com a história do Cláudio Santoro, que foi exilado durante a ditadura e viveu na Alemanha. Quando os jornalistas leem a biografia dele, já se interessam de imediato.
Obrigado pela entrevista.
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