Filarmônica de Minas Gerais faz ótimo concerto

por Nelson Rubens Kunze 31/10/2018

É, Belo Horizonte tem mais que pãozinho de queijo, doce de leite e feijão tropeiro (o que já é muito bom). Ontem escrevi aqui sobre a ópera do Palácio das Artes, hoje vou escrever sobre a Filarmônica de Minas Gerais. Pois fui assistir ao concerto da quinta-feira passada, dia 25 de outubro, na nova Sala Minas Gerais. (Na verdade, nem tão nova assim, foi inaugurada em 2015; se você ainda não a conhece, não deixe de visitá-la, vale a viagem. Com um impactante e moderno desenho arquitetônico exterior, a sala é convidativa e acolhedora.)

A Filarmônica de Minas Gerais se apresentou sob regência de seu titular, maestro Fabio Mechetti, e com a participação da jovem soprano Camila Titinger. O programa teve Mozart – trechos das óperas A flauta mágica e As bodas de Fígaro – e a Sinfonia nº 4 de Mahler. 

A noite começou com Mozart. Com ampla sonoridade, a orquestra privilegiou um som de caráter mais próximo ao romantismo do século 19 – hoje, muitos grupos modernos adotam interpretações mais sóbrias (aliás, sobre isso, leia a ótima entrevista com o maestro e violinista Luis Otavio Santos, publicada na edição de novembro da Revista CONCERTO). Mas o conjunto exibiu virtuosismo e emulou a agilidade, a delicadeza e o frescor próprios do estilo clássico. Titinger cantou uma ária de Pamina (Ach, ich fühl’s), a cavatina Porgi, amor e a ária Dove, sono, da condessa de Almaviva. 

Filarmônica de Minas Gerais sob regência de Fabio Mechetti, com Camila Titinger [Divulgação / Alexandre Rezende]
Filarmônica de Minas Gerais sob regência de Fabio Mechetti, com Camila Titinger [Divulgação / Alexandre Rezende]

E Camila Titinger é uma cantora de exceção, uma das grandes vozes da nova geração. Desde 2014 a artista vem se destacando nos principais palcos do país em óperas como As bodas de Fígaro (Mozart, Theatro São Pedro de São Paulo, 2014), Ainadamar (Golijov, Theatro Municipal de São Paulo, 2015) e Os pescadores de pérolas (Bizet, Festival de Ópera do Theatro da Paz, 2015). E também tem feito apresentações importantes no exterior, onde, entre outras, cantou na abertura da Festival de Bregenz, na Áustria (2016). Atualmente está se especializando em Valência, na Espanha, com incentivo de Plácido Domingo. Titinger tem uma voz versátil de belo timbre, ampla tessitura de generosos graves. É flexível para chegar bem aos agudos, onde tem ótima projeção com controlados vibratos. 

Mas o grande destaque da noite foi a Sinfonia nº 4, de Gustav Mahler, partitura que ganhou uma interpretação emocionante. Regendo de cor (aliás, todo programa), com gestual claro e elegante, Mechetti construiu um sensível e vigoroso discurso musical, costurado organicamente (o que talvez seja o maior desafio das grandes partituras do romantismo tardio). E, claro, com uma orquestra que respondeu à altura e uma excelente participação de Titinger no movimento final.

A Filarmônica é daquelas poucas orquestras brasileiras em que você pode esquecer de questões técnicas como ataque, afinação, conjunto e equilíbrio – tudo funciona, a orquestra é ótima! Uma das características que a distingue é o equilíbrio dinâmico do conjunto, com uma transparência tímbrica que lhe confere um amplo leque de cores. Outra, é a sonoridade da orquestra como um todo – clara, brilhante, aberta. Para mim, talvez um pouco brilhante demais. Mas aí é uma questão de gosto e certamente influenciada pela acústica e reverberação da própria Sala Minas Gerais.

Como de resto em todo Brasil, também Minas Gerais sofre com a crise econômica e política. E isso afeta diretamente a música clássica, que depende de recursos públicos. (Como sabemos, no mundo inteiro a música clássica só sobrevive graças ao apoio governamental, seja por meio de investimento estatal direto, seja por meio de incentivos fiscais.) A excelência da Filarmônica de Minas Gerais em sua espetacular sala de concertos e o investimento do Palácio das Artes na arte lírica – além de O holandês errante, o Palácio das Artes produziu uma ótima Traviata em abril – colocam o estado de Minas Gerais entre os principais apoiadores da música clássica no país. Oxalá a situação melhore e o estado cumpra – e siga cumprindo – seu compromisso com a cultura. 

Sempre é bom lembrar, que a música e a cultura, além de importantes ferramentas para educação e promoção social, são propulsores econômicos cujos benefícios vão muito além da beleza e da emoção que elas transmitem...

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