Freedom Unbound, apresentado pela Tucca, é artisticamente irretocável e fundamental para nos tira do torpor com que ficamos sabendo diariamente dos horrores na Ucrânia, em Gaza e em tantos outros lugares no planeta
Embora desgastada pelo uso abusivo, a palavra “atual” é essencial para uma arte que se quer viva, pulsante, conectada com as realidades boas e ruins que nos odeiam. Mas apenas boas intenções não têm serventia. É preciso lutar. Aos compositores, a missão é tentar conectar-se com a realidade que os envolve. Aos músicos, escolher repertórios que rompam a bolha da sala de concertos concebida como “spa” de almas cansadas da dura realidade do dia-a-dia. Freedom Unbound, literalmente liberdade sem limites ou ilimitada, concebida por um grupo de artistas antenados com nossos conturbados tempos, traduziu muitas das dúvidas, decepções e raras sensações de alegria que nos rodeiam neste 2025. O espetáculo, combinando música e dança nos últimos dias 25 e 26 no Teatro de Cultura Artística, pela temporada da Tucca, é, para mim, desde já um dos melhores do ano.
Primeiro, por trazer para o século XXI o ideal de liberdade que moldou o nascimento da modernidade no século XVIII. Com o detalhe emocionante: a atuação dos quatro casais de bailarinos ucranianos oriundos de Kiev, Kharkiv e Lviv. Eles criaram em 2022 o Balé de Câmara de Hamburgo. Liderados pelo coreógrafo Edwin Revazov, diz o texto do programa, “numa iniciativa artística e solidária (...) que se tornou símbolo de resistência e reinvenção artística”. Não tenho qualificação técnica para avaliar suas performances, mas sua luta por seu país invadido estabelece uma empatia muito forte com o público. Musicalmente, também, foi emocionante. O barítono Thomas Hampson possui uma voz não apenas bela mas potente, e uma adequação precisa ao repertório que associou canções de Schubert e Mahler com as de Charles Ives e Kurt Weill. E os 10 integrantes da Orquestra Acadêmica de Viena.
O momento mais emocionante aconteceu na canção final, “Contra toda esperança, eu espero”, do compositor russo Vladimir Genin, 67 anos, nascido em Moscou, mas morando em Munique desde 1997. Versos da poeta ucraniana Lesya Ukrainka (1871-1913) que tocam fundo: “Sim! No meio das lágrimas/ eu estarei rindo,/ No meio da tristeza/ cantarei canções./ Sem esperança, ainda manterei a esperança,/ Eu viverei! Longe/ dos pensamentos tão sombrios!”.
Por que Beethoven? A resposta mais óbvia é que é dele a música do balé As criaturas de Prometeu, apresentado em 1801 em Viena. O compositor era apaixonado pela Revolução Francesa, chegou a frequentar a efêmera embaixada que divulgou a revolução para outros países europeus nos anos finais do século XVIII. A ideia original do coreógrafo italiano Salvatore Vigano (1769-1821) era levar ao palco uma então novíssima concepção do mito grego de Prometeu. Resumindo: a partir de filósofos como Winckelmann, Herder e Goethe, Prometeu tornou-se o símbolo do artista criador, do gênio que cria segundo suas próprias leis. Esta interpretação, conta Elisabeth Brisson, marcou a ruptura, por parte da geração dos gênios, com a estética da imitação, “para afirmar o imperativo de uma estética da criação”.
Outro musicólogo, Scott Burnham, escreve que Beethoven “continua a nos estimular, a nos provocar e não podemos deixá-lo ir embora porque sua música permanece uma provocação sonora que nos coloca diante do que adoramos pensar que é o melhor de nós mesmos”.
De fato, Burnham, eu e 100% do público e dos músicos de concerto estamos de acordo. Ele esteve presente, por meio de sua obra, de uma maneira tão impactante como durante sua vida, principalmente de 1970 para cá: bicentenário de nascimento e consolidação simbólica de um herói culturalmente construído, único capaz de sintetizar os grandes momentos históricos, como a queda do Muro de Berlim, em 1989, festejada com uma execução da Nona sinfonia com Leonard Bernstein. O maestro substituiu a palavra “alegria” do monumental coral final por “liberdade”. Assim a célebre “Ode à Alegria” virou “Ode à Liberdade”.
Freedom Unbound parte virtuosamente de sua música – seis das 13 partes do espetáculo são ocupadas por sua música, da música do balé, seu opus 43, a movimentos de sonatas e a abertura Coriolano – para criar um espetáculo artisticamente irretocável e absolutamente necessário para nos tira do torpor com que ficamos sabendo diariamente dos horrores na Ucrânia, em Gaza e em tantos outros lugares no planeta.
P.S.: antes que me esqueça, sabemos do famoso episódio em que Beethoven eliminou a dedicatória da Eroica a Napoleão Bonaparte quando ele coroou a si próprio imperador. O que não é tão falado é que, em 1809, quando consumou-se a invasão da Áustria pelas tropas napoleônicas, respirava-se patriotismo em todos os cantos. Daí o caráter majestoso, o tom militar e sobretudo o tratamento inovador de ritmos bélicos, motivos de vitória, melodias impetuosas e caráter afirmativo, que levaram terceiros a apelidarem seu Concerto para piano nº 5 de “Imperador”. Beethoven avisou os editores que não admitia isso. No máximo, a expressão "Grande Concerto".
![O barítono Thomas Hampson [Divulgação/Jiyang Chen]](/sites/default/files/inline-images/w-Thomas-Hampson-by-Jiyang-Chen.jpg)
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