Impressões de um Carlos Gomes em concerto

por João Luiz Sampaio 18/03/2019

Na literatura sobre Carlos Gomes é comum encontrar, na descrição de sua produção, a categoria de “ópera dos especialistas”. De maneira geral, ela serve para criar uma distinção entre uma obra mais conhecida, mas supostamente menos interessante musicalmente, como O Guarani, e outras mais sofisticadas do ponto de vista da construção musical, ainda que menos interessantes ao olhar do público. 

É tão pequena e errática a presença das óperas do compositor nas programações que definir o gosto do público por um ou outro título faz pouco sentido. Mas a separação tem ainda um outro problema, pois de um lado diminui obras importantes e, de outro, reveste de uma aura de exclusividade óperas de apelo irresistível.

É o caso de Condor, última ópera de Carlos Gomes, que abriu a temporada do Theatro Municipal do Rio de Janeiro na última sexta-feira, em versão de concerto, com regência do novo diretor musical da casa, o maestro Luiz Fernando Malheiro, e elenco encabeçado pela soprano Eliane Coelho e o tenor Fernando Portari. 
A ópera narra a história de amor entre Odalea, rainha da Samarcanda, e Condor, líder das inimigas e temíveis hordas negras. Dizer que o libreto é terrível é lugar comum. 

Mas o que Carlos Gomes faz com ele só reforça a importância que o compositor teve na renovação da linguagem operística. Como diz Malheiro, a obra é como “um poema sinfônico-vocal de estrutura contínua”, ou seja, com a riqueza melódica e a expressividade do canto que o aproximam da tradição italiana somadas à linguagem sinfônica alemã e à criação de ambientes sonoros que encontra eco na música francesa. 

Elenco da apresentação de “Condor” [Divulgação]
Elenco da apresentação de Condor [Divulgação]

Manter de pé essa estrutura é, de cara, um desafio que Malheiro supera com habilidade. Sua capacidade de construir dramaticamente cada momento é o que faz, por exemplo, com que funcione o diálogo entre diferentes passagens. Basta ouvirmos o modo como a delicada música da entrada de Odalea vira sensualidade no primeiro no dueto de amor com Condor e, no terceiro ato, passa a retratar a angústia de uma mulher dividida.

Essa transformação é também a de Odalea, que Eliane Coelho marca com segurança, em forma vocal invejável, definindo cada palavra, cada frase, e nos surpreendendo como se ouvíssemos a música pela primeira vez. Ao seu lado, Fernando Portari é pura musicalidade, a voz mais encorpada desde que cantou o papel em Manaus, em 2005.  
Duas sopranos da nova geração chamaram atenção. Como Zuleida, a mãe de Condor, Mariana Lima, de timbre muito bonito e expressivo, saiu-se bem ao enfrentar uma escrita que leva a personagem a todo instante do grave ao agudo, característica da escola verista que Carlos Gomes de alguma forma ajuda a definir. Michele Menezes, da mesma forma, apresentou desenvoltura no misto de inocência e bravura do pajem Adin. 

Os corpos estáveis do Theatro Municipal vêm de anos difíceis – depois de longos períodos sem salários, enfrentaram no ano passado o cancelamento de uma temporada fantasiosa, que acabou antes mesmo que o primeiro espetáculo anunciado chegasse ao fim. Não há segredo: o desempenho errático, em especial do coro, é testemunho dos perigos de não se ter uma programação regular e mínimas condições de trabalho. Também na orquestra há espaço para maior refinamento, em especial nos metais – em que pese o bom desempenho das madeiras, como no Noturno.

Há a bravura dos artistas, sempre, mas não há milagres – como a própria história recente do Municipal prova. A ideia de fortalecimento da instituição, colocada pelo diretor artístico André Heller-Lopes, é precisa. Mas só funciona se houver, em todas as esferas, um comprometimento comum, e verdadeiro, com a ideia da cultura como valor fundamental. Se não houver, sabemos infelizmente para onde essa história nos leva.

 

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