Maria Callas: uma lenda e suas contradições

por João Luiz Sampaio 14/12/2018

Durante uma conversa a respeito do filme Maria Callas – em suas próprias palavras, o diretor Tom Volf me corrigiu de maneira enfática quando falei das imagens raras que ele conseguiu reunir. “Raras não seria o termo exato. Elas na verdade são inéditas”.

Estávamos ambos nos referindo a cenas da soprano cantando óperas como Madama Butterfly e Norma, assim como a takes de ensaios com artistas como o cineasta Lucchino Visconti e Carlo Maria Giulini – suficientes para fascinar o público de ópera acostumado à máxima de que não existem vídeos de Callas no palco, com exceção daquele lendário segundo ato de Tosca ao lado do barítono italiano Tito Gobbi.

A questão do ineditismo é importante para Volf. Dá a seu filme, que está em cartaz no Reserva Cultural, em São Paulo, um interesse especial, mas também permite a ele defender o conceito do projeto: “Essas imagens existiam em acervos particulares e na própria Fundação Maria Callas, não estavam perdidas. O fato é que estavam todos esperando um documentário que se propusesse a ouvi-la de verdade, sem fofocas. E foi isso que ofereci a eles”, disse o diretor.

É esse o ponto de partida de Volf: recriar a história de Callas em suas próprias palavras, ou seja, utilizando cartas da soprano e uma série de entrevistas concedidas em diversos momentos de sua carreira, para “permitir que Maria falasse de Callas”.

Maria (e) Callas revolucionaram a interpretação operística. Ela fala disso no documentário, por sinal. A ópera, explica, pode ser profundamente enfadonha, a não ser que os cantores entendam que são também atores. No entanto, tendo em vista os poucos registros de vídeo de fato disponíveis, a percepção sobre seu talento de atriz de quem não a viu no palco está mais ligada a suas gravações em áudio, o que faz da exaltação da presença cênica de Callas a exaltação da voz como instrumento dramático, da capacidade do cantor, em cada palavra, cada frase, cada inflexão, atuar com o canto.

Mas há ainda um outro elemento na nossa relação com o legado da soprano: a ideia de que Callas não interpretou papeis como Violeta, Tosca, Norma – ela foi Violeta, Tosca, Norma, compartilhou com elas um senso de tragédia que, no final das contas, torna difícil entender quem era a mulher e quem era a artista. “Minha biografia está nos papeis que eu interpretei”, ela diz, confundindo ainda mais a questão.

Mas há ainda um outro elemento na nossa relação com o legado de Maria Callas: a ideia de que ela não interpretou papeis como Violeta, Tosca, Norma – ela foi Violeta, Tosca, Norma, compartilhou com elas e tantas outras personagens um senso de tragédia que torna difícil entender quem era a mulher e quem era a artista. É ela quem diz, afinal: “minha biografia está nos papeis que eu interpretei.”

Nesse sentido, como separá-las e fazer Maria falar de Callas? De certa forma, é esse o grande assunto do documentário. A todo instante, somos lembrados por ela – e pela maneira como o diretor seleciona seus depoimentos, naturalmente – de que a grande carreira significou a perda de algo muito íntimo. E de um paradoxo: ainda que entendesse o canto como destino, e se identificasse com suas personagens, para Callas a vida e a liberdade só poderiam existir fora do palco.

O retrato de “Callas por Maria” não é definitivo. As contradições, o olhar que revela muitas vezes medo, terror mesmo, as declarações sobre sua vida pessoal, os silêncios, as pausas. Vejam a última cena do filme. Ela em volta de uma piscina nos EUA, as imagens captadas contra a luz, não sabemos em que contexto, ela ficando cada vez mais desconfortável. Talvez o que aproximava Callas de suas personagens não fosse necessariamente um sentido trágico. Mas uma simples humanidade, que aparece em uma simples melodia – ou nas frestas de uma existência, no fundo, solitária.

A soprano Maria Callas [Divulgação]
A soprano Maria Callas [Divulgação]