Sujeito a Guincho, com humor e refinamento

Há 35 anos, o quinteto de clarinetes encara o desafio de fazer música de câmara, como no concerto do último domingo, na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Lá se vão 90 anos que Mário de Andrade, diagnosticando com precisão a carência de apresentações de música de câmara em São Paulo, decidiu fomentar o gênero fundando um quarteto de cordas municipal. A formação criada por Mário, o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, felizmente continua firme e forte; porém seria necessário mais do que esta andorinha solitária para produzir o verão da música de câmara em terras de Piratininga, e a ausência de oportunidades para essa prática tem o efeito de desestimular o surgimento de grupos que se dediquem a ela – ou de condená-los à efemeridade.

Assim, nada mais acertado do que a decisão do pianista Eduardo Monteiro, curador da série de concertos de um dos poucos espaços paulistanos que dão tratamento nobre à música de câmara, a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, de convidar para a abertura de sua série, no último domingo, dia 22, um grupo que está comemorando 35 anos de existência: o quinteto de clarinetas Sujeito a Guincho.

O Sujeito sacudiu o provincianismo da vida musical de São Paulo ao surgir, em 1991. Ganhou a oitava edição do então prestigiadíssimo e saudoso Prêmio Eldorado de Música, em 1995, gravou dois CDs nesta mesma década, realizou apresentações internacionais e colaborou com artistas como Monica Salmaso, Antônio Nóbrega e Léa Freire. Porém, para um grupo de câmara em São Paulo, nem este currículo e a excelência técnica são garantia de atividade regular, e as apresentações do Sujeito são de periodicidade errática, à mercê da notória escassez de espaços e oportunidades.

Ao longo destas três décadas e meia, o que surpreende não é que tenha havido mudanças na formação do grupo – e sim que ele tenha continuado a existir. Hoje seguem ainda três “pais fundadores” (Sérgio Burgani, Edmilson Nery e Luca Raele), aos quais se juntaram Daniel Oliveira e Diogo Maia.

O nome – uma brincadeira com o aviso das placas de estacionamento proibido e o som agudo produzido pela clarineta durante “acidentes” de execução – já revela, se não um compromisso direto com o humor, uma atitude de palco mais relaxada com relação aos rituais arcaicos e ossificados da chamada “música erudita”. O Sujeito não chega a ser um equivalente brasileiro do Les Luthiers, mas as falas de Luca Raele durante as apresentações ecoam de certa forma a atuação que Marcos Mudstock tinha no grupo argentino – com toques de nonsense à la Monty Python.

Para quinteto de clarinetas não há uma grande quantidade de repertório original. E a obra para esta formação incluída no programa revelou-se original no sentido amplo do termo. Quinteto para 2 clarinetas e ½, de Luca Raele, leva este nome porque cada um dos cinco instrumentos do palco está reduzido à sua metade inferior – os músicos montam suas clarinetas deste modo idiossincrático antes de tocar a partitura. O que poderia ser um exercício árido ou uma mera brincadeira com a sonoridade alterada da clarineta revela-se uma prazerosa exploração das fronteiras entre composição e improvisação.

De resto, o repertório consiste essencialmente em transcrições, cujas escolhas revelam o gosto eclético e a cultura musical ampla dos membros do grupo, que partem do século XVIII, com versões de Una pastorale per il Santissimo Natale, de Torelli, e do sublime – difícil encontrar outro adjetivo – adágio da Gran Partita, de Mozart. Quando feita de modo imaginativo, a transcrição normalmente ilumina novos aspectos da obra. Desta forma, não seria ocioso que alguns violonistas de “cintura dura” que abordam esta peça aprendessem com o molejo com que o Sujeito toca os Choros nº 1, de Villa-Lobos. E pianistas talvez achassem instrutivo o tratamento das vozes no Intermezzo Op. 118 nº 2, de Brahms.

Um dos aspectos mais fascinantes da trajetória do Sujeito a Guincho é a naturalidade com que o grupo demole os limites entre o “popular” e o “erudito”. Sua versão de Ouro sobre azul, de Ernesto Nazareth, é puro deleite, e Choro negro, de Paulinho da Viola, e Uma valsa para um dia de chuva, de Nelson Ayres, para além do lirismo e riqueza melódica, revelam uma consistência estrutural que nada deixa a dever aos outros itens do programa. Isso para não falar em Espinha de bacalhau, de um virtuosismo lúdico irresistível – minha faixa favorita do CD Die Klarinetmaschine (1999), uma espécie de amiga querida que é sempre um prazer reencontrar ao vivo.

Uma abertura de temporada não deve ser um mero concerto. Via de regra, trata-se também de uma declaração de princípios e intenções, de uma amostra do que vem a seguir. A julgar pela saborosa mescla de descontração e refinamento oferecida pelo Sujeito a Guincho, a temporada 2026 da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano é para lá de promissora.
 

Sujeito a Guincho [Divulgação/Edgardo Gonzalez]
Sujeito a Guincho [Divulgação/Edgardo Gonzalez]

 

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