Simone Menezes grava álbum com a Orquestra Sinfônica da Rádio de Viena

por João Marcos Coelho 28/09/2026

Em conversa com o Site CONCERTO, maestra brasileira fala da ideia de unir obras de Prokofiev, Villa-Lobos e Poulenc e do momento atual de sua carreira

É significativo que a Outhere Music, grupo internacional de selos dedicados à música clássica, esteja lançando uma nova série intitulada Fuga Latina e convide a maestra brasileira Simone Menezes para um dos primeiros lançamentos: o álbum que acaba de chegar ao streaming leva no título apenas o nome de três compositores: Prokofiev, Villa-Lobos, Poulenc. 

Há dez anos radicada na Europa, ela construiu nesta década um notável itinerário artístico, firmando-se rapidamente na vida musical europeia. Sua tenacidade, talento e criatividade podem ser sentidos neste olhar retrospectivo em suas próprias palavras a respeito de sua trajetória internacional: “Acho que não tinha uma expectativa de carreira clara no senso estrito. A minha expectativa sempre foi fazer música de altíssimo nível e que faça sentido. Não consigo ficar num lugar ou fazer algo que não faça profundo sentido para mim. Acredito que a verdadeira arte, e a música em particular, parte do seu contexto, da sua narrativa, de tudo aquilo que está por trás dela. A partitura, as notas, constituem um cânone que deve ser respeitado. Mas o contexto em que uma obra foi criada traz uma riqueza muito interessante, que às vezes subestimamos. E essa narrativa que eu adoro é a mesma que move grandes artistas em outras formas de arte. Minha ambição é construir narrativas que façam sentido para mim”.

E ela tem obtido amplo reconhecimento em projetos diferenciados como Accents com o Ensemble K, que criou em 2019. Na sequência, vieram outros como Metanoia, Amazônia e ano passado a regência dos concertos de Ravel à frente da Philharmonia Orchestra com o pianista François-Xavier Poizat.  

Nesta temporada, os dois principais highlights são uma turnê com a Sinfônica de Stuttgart e uma turnê com diversas orquestras no Japão. “Nos concertos no Japão, vou trabalhar Rachmaninov e Debussy, mas também Villa-Lobos, com o Choros nº 10. Como o Choros nº 10 tem uma parte coral, eles queriam incluir outra obra para coro, e fizemos uma orquestração para coro a cappella do Prelúdio da Bachiana brasileira nº 4, que eu já havia dirigido várias vezes e que será estreada no Japão.”

Conversamos por WhatsApp sobre o novo álbum, que dá a medida de seu prestígio na vida musical do Velho Continente, porque praticamente abre a série Fuga Latina. “A série tem como objetivo criar pontes entre o repertório latino-americano e o repertório europeu. Para mim, isso é muito importante. Diferentemente de outras séries que têm um objetivo mais biográfico ou de documentação, como a da Naxos ou outras, aqui a proposta é essencialmente curatorial: escolher obras do repertório brasileiro que façam sentido quando colocadas em diálogo com obras europeias e, pouco a pouco, posicioná-las dentro do repertório internacional.”

Foi a partir deste desafio que ela montou o repertório. Sua primeira sacada foi juntar a pouco lembrada Sinfonietta de Villa-Lobos, obra de juventude, à Sinfonia clássica de Prokofiev. Ela justifica assim: “As duas foram compostas no mesmo ano. As duas são neoclássicas, mas partem de referências diferentes: Prokofiev olha para Haydn, enquanto Villa-Lobos faz uma homenagem a Mozart. E há algo muito curioso nisso: os dois estavam fazendo esse movimento ao mesmo tempo, sem saber que o outro estava fazendo algo semelhante, um na Rússia, o outro no Brasil. Para mim, essa combinação me parecia muito natural. Depois, a ideia de acrescentar uma terceira Sinfonietta, a de Poulenc, que é de 1947, também me pareceu muito interessante. Ela não faz necessariamente uma alusão tão direta a um compositor específico, mas conserva esse espírito irreverente e muito particular do neoclassicismo”.

A cereja neste refinado bolo musical foi para Simone poder gravar esse repertório em Viena, com a Orquestra Sinfônica da Rádio de Viena: “Tem um significado especial para mim: é quase como voltar à raiz de onde uma parte importante dessa tradição musical se originou”.

O que seria uma resenha do álbum virou uma entrevista. Perguntei-lhe pelo segredo para uma sul-americana fazer carreira consistente na vida musical europeia. As exceções são os ex-alunos do Sistema venezuelano, claro, porque já andam por estradas solidamente pavimentadas pelo prestígio do projeto e sobretudo pela estrela Gustavo Dudamel. E ela foi direta: “Não me acho inovadora. Acho que faço apenas coisas que obviamente precisam ser feitas. Na verdade, às vezes eu me espanto por que elas não tinham sido feitas antes. Talvez esse seja o lado brasileiro do self-service, onde a gente naturalmente mistura tudo com coisas que parecem inovadoras. São tão óbvias pra gente”. E completa com um lembrete: “A única coisa é que, para você conseguir apresentar essa inovação em sociedades que são altamente estruturadas, tem que apresentá-las com argumentos altamente estruturados”.

A maestra brasileira Simone Menezes [Divulgação]
A maestra brasileira Simone Menezes [Divulgação]

 

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