Em Santo André, um merecido tributo a Flavio Florence

Em tempos em que o Brasil obstina-se em apagar e reescrever de forma tosca uma memória que sempre negligenciou, o exemplo saudável vem do ABC paulista. No último sábado, dia 25, antes do concerto da Orquestra Sinfônica de Santo André em homenagem aos 70 anos do pianista (e agora também regente) Jean Louis Steuerman, aconteceu o descerramento da placa que marca o rebatizado da casa de espetáculos em que a sinfônica vem se apresentando há três décadas. Agora, ela se chama Teatro Municipal Maestro Flavio Florence.

Nada contra o professor, diplomata, filólogo e tradutor carioca Antonio Houaiss (1915-1999), que antes dava nome ao teatro. Todos que escrevemos profissionalmente recorremos diariamente ao inestimável dicionário de nossa língua deixado por Houaiss, e a sólida trajetória intelectual desse ex-ministro da Cultura (sim, o Brasil já teve um ministério dedicado à Cultura) gabarita-o para dar o nome a qualquer equipamento educacional ou cultural de nosso país.

Mas é que, para quem acompanhou de perto a vida musical paulista entre a década de 1980 e o começo do milênio atual, Teatro Municipal de Santo André é sinônimo de Flavio Florence (1957-2008). Sua vida precocemente ceifada por um câncer, aos 51 anos, foi dedicada sobretudo à Orquestra Sinfônica de Santo André, que ele dirigiu desde a criação, em 1987, até seu falecimento, em 2008.

Placa oficial em homenagem a Flavio Florence [Divulgação]
Placa oficial em homenagem a Flavio Florence [Divulgação]

Toda orquestra leva a marca de seu “pai fundador” no DNA, e Florence soube moldar com carinho a de Santo André, estabelecendo uma programação sólida que era relevante para a cidade e, ao mesmo tempo, conseguia gerar um interesse que transbordava para fora dos âmbitos do município. Com empolgação juvenil, lembro-me de pegar um trem nos tempos de estudante, em 1990, para me deslocar de São Paulo até o teatro que hoje leva o nome do maestro para assistir História do Soldado, de Stravinsky, protagonizada por Antonio Fagundes, com direção de Ulysses Cruz, e regência de Florence. Outra bela recordação, poucos anos mais tarde, foi ver Antonio Meneses, após solar com a orquestra, sentar-se, na segunda metade do programa, no naipe de violoncelos, para participar da execução da sinfonia que encerraria a apresentação. Florence levou a Orquestra Sinfônica de Santo André ao Festival de Inverno de Campos do Jordão (no tempo em que o evento efetivamente ocorria na cidade serrana) e se empenhou em trazer a São Paulo montagens de óperas do bel canto, como Don Pasquale, de Donizetti (em 1995 e 2001) e O Barbeiro de Sevilha, de Rossini (em 2000, no Teatro São Pedro, protagonizada por um então iniciante chamado Paulo Szot, que hoje arrebata as plateias do Metropolitan de Nova York).

Vencedor, por duas vezes, do Concurso Jovens Regentes da Osesp, Florence atuou como flautista antes de virar maestro. Estudou música no ABC, na Fundação das Artes de São Caetano, para se aperfeiçoar no Real Conservatório de Música de Haia (Holanda) e graduar-se em regência na Unicamp. Era, ainda, um cultivado e talentoso comunicador, tendo atuado como articulista no Diário do Grande ABC e na Revista CONCERTO.

Se são por demais conhecidos os exemplos de regentes que se servem da música, é extremamente pertinente lembrar e resgatar o de Flavio Florence, que soube servir à música, deixando um legado que, sabiamente levado adiante por seus sucessores, Carlos Moreno e Abel Rocha (que dirige o grupo desde 2014, com as escolhas inteligentes de programação que vêm sendo a sua marca, e foi, sintomaticamente, o artífice do tributo a Florence), fez da Sinfônica de Santo André um caso bem-sucedido de orquestra que resiste às intempéries do cada vez mais instável cenário musical Brasileiro. Preservar e homenagear essa história é um modo de garantir que ela continue sendo escrita.

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