O bom governo

por Jorge Coli 29/04/2019

Pela primeira vez em São Paulo (fato que é possível controlar graças aos livros de Paulo de Oliveira Castro Cerqueira e Sergio Casoy) e, é provável, no Brasil, foi apresentada a ópera La clemenza di Tito, escrita, juntamente com A flauta mágica, em 1791, por Mozart nos últimos meses de sua vida.

La clemenza di Tito significa uma formidável renovação do gênero chamado opera seria, que se impôs na primeira metade do século XVIII. Uma florada quase final: em seguida, Rossini daria nova energia a esse gênero, terminando por transformá-lo, por meio de Guilherme Tell, no grand opéra francês.

A opera seria pressupõe personagens de grandeza moral muito elevada, superiores à humanidade comum. São nobres, aristocratas, reis, rainhas, que sofrem com altivez e intervém no destino dos povos. Nelas, sucedem-se árias e mais árias, exprimindo sentimentos e eliminando quase toda ação. No caso de La clemenza di Tito, Mozart inseriu duetos, tercetos, quintetos, para variar admiravelmente as atmosferas, mas trata-se sempre de um teatro interior, teatro da alma, nutrido por conflitos e paixões.

Por isso, por esse caráter estático, é bem difícil montar uma opera seria hoje em dia. Alguns diretores de cena, em desespero de causa, ficam entupindo o momento das árias com ações paralelas que ocorrem no palco – para evitar um tédio que eles imaginam. Isso leva sempre ao desastre, porque distrai e afasta a percepção da música. O importante é pôr em evidência o que ocorre dentro daqueles seres e, portanto, obedecer à presença da música.

A montagem de Caetano Vilela evitou a facilidade desastrada de multiplicar as distrações. Mas não transformou a ópera num oratório, sem vida cênica. Concentrou-se na música e fez a obra fluir. Seus intérpretes, dirigidos com atenção e inteligência, deram alma aos papéis. 

Cena da ópera “La clemenza di Tito” [Divulgação / Heloisa Bortz]
Cena da ópera La clemenza di Tito [Divulgação / Heloisa Bortz]

Caetano Vilela serviu-se de andaimes tubulares em metal como cenários, desses comuns nas construções, e que atravancavam um pouco o palco. Austeros, nada sedutores (metáfora ou consequência das infames restrições pelas quais passa a cultura?), no entanto funcionaram com felicidade, para a mobilidade e organização das cenas. Vilela tem um formidável talento de iluminador, que faz transfigurar o mais ingrato acessório. E o mundo de Tito animou-se quando chegaram os troféus dourados e, sobretudo, graças ao excelente guarda-roupa de Fause Haten: para o coro, fidelidade maior à antiguidade romana; para a guarda imperial, estilo normalista-steampunk-SM; para os outros, um neo-hipster-futurista. Tito teve, em suas vestes, belos ouros metafóricos de sua luz moral e uma apropriada coroa com raios solares, evocando o governante iluminado que foi.

Porque La clemenza di Tito é uma ópera iluminista, que exalta o déspota esclarecido. Foi composta para aquele que podia ser apontado como o exemplo perfeito do soberano progressista e sábio das Luzes, o imperador Leopoldo II, quando de sua coroação em Praga como rei da Boêmia. Tito passou para a história como o modelo histórico do monarca sábio e justo; pondo-o em cena a alusão a Leopoldo era clara. A ópera, estreada em 6 de setembro de 1791, surgia dentro dos abalos provocados pela revolução francesa: dia 14 de setembro, Luís XVI, rei da França, jurou a constituição, terminando o absolutismo. Foi um momento rápido em que toda a Europa podia pensar que uma solução equilibrada iria pacificar os ânimos revolucionários graças à sabedoria dos monarcas. Portanto, grande atualidade dessa ópera que, justamente, exaltava a clemência e o bom governo do soberano esclarecido.

La clemenza di Tito exprime o conflito entre os desregramentos da paixão e o controle que se deve ter sobre elas – este último claramente exposto pelas mais nobres e pacíficas decisões tomadas pelo imperador, diante de intrigas, do atentado contra sua vida, e do incêndio no Capitólio. Tudo é vencido não pela força, mas pela clemência.

Para tanto, Mozart compôs a música mais nobre, mais elevada, jamais concebida. Apesar do seu caráter hierático, ela avança animada por uma tremenda força dramática. O maestro alemão Felix Krieger deu à partitura, com autoridade indiscutível, a veemência grandiosa que necessita. Os intérpretes, todos com belas qualidades, souberam demonstrar as dilacerações da alma sem abdicar da nobreza (exceção – pequena – de Vitellia, que, duas ou três vezes, soltou uma risada de bruxa em teatro infantil). Mas a mesma Vitellia – Gabriella Pace – embora sofrendo um pouco nos graves, mostrou o alcance e o brilho de sua voz. Caio Duran foi o tenor que encarnou o nobilíssimo Tito Vespasiano. Não importam alguns esforços nas notas mais agudas: sua linha de canto, seu timbre, foram de grande beleza. O papel de Sesto foi escrito originalmente para castrato, e de Annio, seu amigo, para uma cantora. As duas cúmplices, Luisa Francesconi e Luciana Bueno, com barbas, foram maravilhosas. A mais célebre ária da ópera, “Parto, ma tu ben mio”, em que Sesto, cedendo às fraquezas de seu amor por Vitellia, deixa-se convencer e sai para matar Tito, teve um canto nuançado, com beleza vocal e expressão. Marly Montoni, a suo agio como sempre, ótima no papel de Servilia, e a poderosa presença vocal de Saulo Javan completaram um elenco de belo nível. 

Não sabemos o que ocorrerá com o São Pedro (nem com o resto da cultura no Estado). O teatro ainda não estabeleceu um programa para 2019. Esperemos que este excelente Mozart signifique um início e não um término.

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