Em audiência pública realizada em novembro passado, Amadio afirmou que salário de músico de fila da orquestra era de R$ 1.618,72: “desculpem, mas a cegueira deste Estado para uma orquestra tão importante como essa me dói”, disse em emocionado e corajoso depoimento; quarenta dias depois a maestra foi demitida
Em 26 de novembro do ano passado, a Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais realizou uma audiência pública para debater a “precarização do trabalho dos músicos”. A reunião, organizada por ocasião dos 80 anos do Sindicato dos Músicos de Minas Gerais, homenageou a diretora musical e regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Ligia Amadio. A orquestra, que completa 50 anos de atividades em 2025, é um dos corpos artísticos do Palácio das Artes, gerido pela Fundação Clóvis Salgado, principal complexo cultural público de Minas Gerais e um dos mais relevantes do Brasil. Inaugurado em 1970, o conjunto ocupa um edifício projetado por Oscar Niemeyer, em Belo Horizonte.
Após receber a homenagem, Ligia Amadio fez um emocionado e corajoso discurso em que expôs a situação salarial do grupo. Procurando conter as lágrimas, ela afirmou: “A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais é a orquestra mais mal paga deste país. Eu tenho a honra de dirigi-la, mas tenho a vergonha de que os músicos, sob a minha direção, enfrentem essa situação. Vou dizer quanto ganha um músico de fila quando entra na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, patrimônio público cultural e histórico deste Estado: um músico de fila ganha R$ 1.618,72 [...] Me desculpem, mas a cegueira deste Estado para uma orquestra tão importante como essa me dói. E me dói muito”.
Mais adiante, Amadio pediu atenção aos deputados, para que o assunto fosse tratado com a máxima seriedade, para que essa situação de “profunda injustiça” seja debatida. “Não digo sanada”, ressaltou, “porque nunca o valor de uma pessoa será retribuído em dinheiro. Mas que, ao menos, a situação tão precarizada do emprego seja revista. E não apenas da orquestra, mas também do coro, do balé, de todos”.
Na semana passada, pouco mais de quarenta dias após o seu enfático pronunciamento na Audiência Pública da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, a maestra Ligia Amadio foi demitida de seu cargo de diretora musical e regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (clique aqui para ler). Em um comunicado enviado em resposta a um questionamento da Revista CONCERTO, a Fundação Clóvis Salgado declara: “A Fundação Clóvis Salgado (FCS) informa que, para comemorar os 55 anos, decidiu convidar regentes de renome nacional, que fazem parte da história e já estiveram à frente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, para conduzir as apresentações previstas para este ano de 2026. Em virtude dessa readequação, a execução do contrato da Diretora Musical e Regente Titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Ligia Amadio, será encerrado definitivamente, abrindo espaço para um novo momento na música erudita em Minas Gerais”.
A FCS não entrou no mérito do pronunciamento respeitoso e lúcido feito por Ligia Amadio naquele espaço apropriado em que foi convidada a falar sobre a precarização do trabalho dos músicos. Pela nota lacônica e evasiva da FCS, não parece que o anunciado “novo momento na música erudita em Minas Gerais” vá finalmente enfrentar a questão estrutural do financiamento da cultura em um Estado que detém o terceiro maior orçamento do país e responde por cerca de 10% do PIB nacional. É uma pena...
Veja abaixo o vídeo completo da Audiência Pública realizada pela Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais em 26 de novembro de 2025. A fala de Ligia Amadio se inicia em 2h08min.
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