Notas sobre um ato contra a tesoura

por Leonardo Martinelli 08/04/2019

Desde que o Governo do Estado de São Paulo anunciou cortes na ordem de 23% nos programas de sua Secretaria de Cultura e Economia Criativa teve início uma grande mobilização no setor para tentar deter o colapso que tal ação acarretará.

Primeiramente, houve grande comoção em torno do impacto no Projeto Guri, programa de iniciação musical de forte ênfase social, que atende jovens em diferentes regiões do Estado. A gritaria foi grande na internet e reverberou na grande imprensa: afinal, além da amoralidade de uma resolução que piora a qualidade de vida de crianças em sua maioria carentes (no melhor estilo “Lei Herodes”), ela cutucou o “paulista profundo”, a comunidade do interior do Estado e uma classe política que teria que arcar localmente com os prejuízos financeiros e políticos da canetada.

Em 1º de abril, o próprio governador João Dória anunciou, em uma coletiva de imprensa, que o Projeto Guri “fica como está”, mas completou: “Cultura é importante, é parte da minha vida. Mas as prioridades da minha gestão são Educação, Saúde, Habitação, Segurança Pública e Assistência Social. Governar é estabelecer prioridades, ter capacidade de gestão e coragem de fazer as coisas".

Na prática, isso significa que a trajetória da tesoura tem que passar por ajustes: o corte de 23% na pasta (o maior dentre todas as secretarias, o que em si é de se causar estranheza) será mantido, mas uma vez que o Projeto Guri foi poupado de tesourada, os cortes a serem realizados nas demais instituições será ainda maior. Em muitos casos isso inviabilizará até mesmo atividades básicas: quem não fechar imediatamente irá fatalmente “morrer por inanição”. Mais uma vez era necessário se movimentar, dessa vez com uma marcha ontem, dia 7 de abril.

 


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Quando ao meio-dia a famigerada sirene do Edifício Gazeta soou pela Avenida Paulista, já se reunia no vão livre do MASP uma grande quantidade de pessoas para uma manifestação de repúdio aos cortes na cultura, que terminou a quilômetros de distância dali, no Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera, após uma longa e sonora caminhada por importantes avenidas da capital paulista.

Organizadas de forma exemplar, as mais diferentes tribos estavam lá reunidas: músicos clássicos (em notório protagonismo), dançarinos, educadores, museólogos, artistas plásticos, administradores, acadêmicos, direitas, esquerdas, centros e isentões. A bandeira única era a da defesa da cultura, da educação e da civilização, e não havia flamejando nenhuma bandeira vermelha ou verde-e-amarela.

Não que não houvesse entre os presentes eleitores de diferentes representações: apesar do voto ser secreto, bem sabemos que as redes sociais tornaram pública as inclinações políticas de grande parte dos brasileiros, e de minha parte foi fácil identificar as mais diferentes cores políticas (incluindo muitos eleitores do atual governador).

Tamanha diversidade de valores, ideias e ideologias costumam terminar em confusão no Brasil contemporâneo, mas o que se viu foi a demonstração de cartazes com palavras de ordem que expressavam apenas valores básicos, como “cultura é educação”. Um valor tão básico que nem toda a polarização da sociedade brasileira resistiu ao consenso que ele agrega.

Na noite anterior ao ato, antes de concerto na Sala São Paulo, os integrantes da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo agiram com coragem, gigantes morais que realizaram um protesto civilizado e emocionante, ao qual se sucedeu a fala do compositor Paulo Zuben, atual diretor da Abraosc (Associação Brasileira das Organizações Sociais de Cultura), entidade que reúne muitas das instituições ameaçadas. Zuben mostrou para plateia o “xis” da questão de forma clara e informativa, e foi imediatamente ecoado pelo seu colega, o francês Bruno Mantovani, que prestes a reger o concerto endossou seu apoio à causa e manifestou seu espanto com o absurdo de toda a situação. Muitos dos que não puderam dar as caras na avenida manifestaram seu apoio em textos e vídeos nas redes sociais.

Claro, houve e há ainda silêncio e ausências, de personalidade e representantes importantes da cena artística e cultural paulista, incompreensíveis dada a gravidade da situação. Dado esse vácuo, a grande surpresa ficou por conta da presença de João Carlos Martins na manifestação. O músico, que também é a maior celebridade da música clássica no país, possui notória relação pessoal com o governador (tendo inclusive atuado como conselheiro informal de Dória na reconfiguração do Theatro Municipal, quando ele ainda ocupava o cargo de prefeito da capital), mas saiu da neutralidade e se colocou de forma clara contra os cortes, que em princípio não o atingem de forma direta.

Não me lembro da última vez que vi no Brasil uma causa que reunisse segmentos tão diferentes de nossa sociedade de forma tão respeitosa, ainda mais no mundo da arte e da cultura, o que faz desse ato não apenas algo inédito, mas à sua maneira, histórico. Seja lá o que acontecer depois disso.

E o que poderia acontecer depois disso? O melhor seria que os governantes em questão atuassem conforme a agenda que pregam, pois simplesmente “passar a tesoura” para gerir seus orçamentos não é algo que exige nem criatividade (tal como apregoa o titular da pasta Sérgio Sá Leitão) nem coragem (tal como defendeu o governador). Esses cortes nada mais são que uma decisão, do ponto de vista político, temerária e inconsequente, e da perspectiva da gestão, preguiçosa e previsível. Criatividade seria chamar os “players” da cultura e das artes no Estado para aprimorar o tesouro que já temos, e com isso fomentar o desenvolvimento de novos projetos de forma sustentável. Coragem seria voltar atrás dessa decisão e tornar parceiros aqueles que por ora são vistos como estorvo.

Manifestação teve início na vão do Masp, na Avenida Paulista [Revista CONCERTO/ Leonardo Martinelli]
Manifestação teve início no vão do Masp, na Avenida Paulista [Revista CONCERTO/ Leonardo Martinelli]

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