Viagem musical

por Nelson Rubens Kunze 28/01/2019

Aproveitei o recesso musical no Brasil para viajar e conhecer duas novas salas de concerto e revisitar alguns espaços icônicos da música clássica europeia. Meu primeiro destino foi Hamburgo, na Alemanha, onde fui à nova Elbphilharmonie, uma espetacular sala de concertos construída dentro de um enorme complexo comercial e residencial, na foz do Rio Elba, em frente ao porto da cidade. A construção, inicialmente orçada em 190 milhões de Euros, acabou custando 800 milhões e esteve envolta em polêmicas que atrasaram a sua conclusão em mais de 7 anos. Mas, finalmente pronta, a sala foi inaugurada em janeiro de 2017 em um concerto com a Orquestra Sinfônica da NDR (Rádio do Norte da Alemanha), rebatizada então de Elbphilharmonie da NDR. Dois anos depois, o prédio da Elbphilharmonie transformou-se em um dos principais atrativos turísticos do país – certamente já deve ter gerado receitas diretas e indiretas que cobrem com folga o alto custo de sua construção – e é aceita com orgulho pela cidade. [Clique aqui para assistir no YouTube à reportagem oficial da inauguração da Elbphilharmonie.]

A Elbphilharmonie é mesmo um espetáculo. O projeto arquitetônico é dos suíços Herzog e de Meuren (os mesmos que projetaram o teatro de dança da praça Julio Prestes, em frente à Sala São Paulo, ideia que acabou não sendo realizada), que, utilizando-se das estruturas dos velhos armazéns do porto de Hamburgo desenharam um edifício encravado no mar, que lembra estilisticamente a proa de um navio com velas. Com 2.100 lugares, a sala de concertos tem projeto acústico do renomado engenheiro japonês Yasuhisa Toyota (aliás, Toyota é o responsável pelo projeto acústico da sala do Neojiba, em Salvador, que será inaugurada brevemente – ela será o primeiro projeto de Toyota no Brasil). O detalhe diferencial são milhares de placas acústicas moldadas uma por uma, que revestem, como uma casca de ovo, toda a sala.

A Elbphilharmonie de Hamburgo [arquivo pessoal]
A Elbphilharmonie de Hamburgo [arquivo pessoal]

Ouvi a Bundesjugendorchester, a Orquestra Jovem Federal da Alemanha, sob regência do maestro Kirill Petrenko, o novo regente titular da Filarmônica de Berlim (Petrenko assume o posto em setembro, com a nova temporada 2019-2020). Formada por jovens entre 14 e 19 anos, portanto em sua maioria ainda em nível escolar secundário – o programa afirma que ela é a “mais jovem orquestra de ponta da Alemanha” –, a orquestra teve bom desempenho interpretando as Danças sinfônicas de West Side Story de Bernstein, um concerto para percussão do norte-americano William Kraft (com o solista Wieland Welzel) e a Sagração da primavera, de Stravinsky. Kirill Petrenko, que então vi ao vivo pela primeira vez, tem gestos claros e bem marcados, é expansivo e levemente amaneirado, mas de um entusiasmo cativante e carismático. E o resultado acústico da Elbphilharmonie é realmente muito bom, com ótima definição de timbres e dinâmicas e uma equilibrada reverberação, gerando uma coesão sonora perfeita. 

Minha segunda parada foi em Berlim. Vivi e estudei aqui entre 1984 e 1987 e, apesar de ter voltado à cidade algumas vezes desde então, nunca mais tinha ido a Philharmonie, a sede da Filarmônica de Berlim. Inaugurado em 1963, o edifício foi concebido pelo arquiteto alemão Hans Scharoun. Com linhas angulares que inspiram o logotipo da orquestra, a Philharmonie, ao situar a orquestra no meio da plateia, acabou virando um paradigma para as novas salas sinfônicas no mundo. Como o Carnegie Hall ou o Musikverein em Viena, a sala é mítica, passaram por lá os maiores nomes da música dos últimos 50 anos. Assisti a um concerto sensacional, com a Filarmônica de Berlim em grande performance sob direção do maestro Tugan Sokhiev (estava ali o violinista brasileiro Luiz Filip tocando ao lado do spalla). O repertório russo, com obras de Borodin, Rachmaninov e Prokofiev, contou com a participação do coro do Bolshoi de Moscou e com os ótimos solistas Agunda Kulaeva (mezzosoprano) e Vasily Ladyuk (barítono). (O concerto pode ser assistido na plataforma do Digital Concert Hall. Clique aqui, entre pelo Site CONCERTO e ganhe 10% de desconto.)

A Philharmonie, sede da Filarmônica de Berlim [arquivo pessoal]
A Philharmonie, sede da Filarmônica de Berlim [arquivo pessoal]

Aproveitei a ida a Berlim para conhecer a nova sala de música de câmara Pierre Boulez, inaugurada recentemente e situada atrás da Staatsoper, no centro antigo da cidade. A sala faz parte da Academia Barenboim-Said, criada pelo maestro Daniel Barenboim em 2012 e inspirada nos ideais humanistas de tolerância e compreensão mútua compartilhados com o intelectual palestino Edward Said. Além de servir de palco para as atividades da academia, a Sala Pierre Boulez promove uma temporada anual de mais de 100 concertos com destacados músicos da atualidade. Com arquitetura de Frank Gehry (Walt Disney Hall e Museu Guggenheim Bilbao) e acústica do mesmo Toyota da Elbphilharmonie, a Sala Pierre Boulez contém grandes módulos de plateias circulares, que podem ser deslocados formando diversos espaços, dependendo do tipo de formação que se apresenta. Em cima, um mezzanino elíptico circunda todo o ambiente. 

A Sala Pierre Boulez, em Berlim [arquivo pessoal]
A Sala Pierre Boulez, em Berlim [arquivo pessoal] 

Assisti a um recital de alunos da academia – um quinteto de sopros e um trio de violino, violoncelo e piano, ambos bons. O concerto foi em uma quarta-feira, às 16h, e, apesar de serem músicos estudantes, a sala estava com boa lotação.

A próxima e última estação da viagem foi a cidade de Londres. Cruzando manifestações pró e contra o Brexit – passei por lá na semana em que a proposta de Theresa May foi recusada no parlamento –, revisitei a ótima acústica do Wigmore Hall. A sala é considerada uma das melhores do mundo para música de câmara. Construída em 1901 pela fábrica de pianos Bechstein, o Wigmore Hall passou por diversas fases e reformas. Hoje tem capacidade para 550 pessoas e promove mais de 460 eventos por ano. Assisti a um concerto da série The Radio 3 Lunchtime Concert com o Juilliard String Quartet, de Nova York, transmitido ao vivo em uma parceria com a rádio BBC3, com uma obra do jovem compositor Lembit Beecher (1980) e o Quarteto americano de Dvorák. Voltei ao Wigmore Hall dois dias depois e acompanhei outro evento: uma palestra-recital intitulada “Por que Schubert soa como Schubert?” apresentada pelo pianista alemão Christian Zacharias. 

Juilliard String Quartet no Wigmore Hall, Londres [arquivo pessoal]
Juilliard String Quartet no Wigmore Hall, Londres [arquivo pessoal]

Segui a jornada com duas óperas no Royal Opera House Covent Garden. Com uma tradição centenária, o ROH é um dos principais teatros de ópera do mundo. O prédio atual, o terceiro em sua história, foi inaugurado em 1858, mas sofreu grandes reformas com modernização e acréscimos na década de 1990. 

A primeira ópera a que assisti foi a nova encenação de A dama das espadas, de Tchaikovsky, concebida pelo diretor cênico norueguês Stefan Herheim. A montagem é uma coprodução com a Ópera Nacional de Holanda, onde estreou no ano passado (já há inclusive DVD no comércio, clique aqui). Herheim teve a ideia de criar um paralelo entre a história da ópera e as próprias angústias de Tchaikovsky, que vivia atormentado por sua homossexualidade, colocando o compositor como personagem da encenação. Ainda que funcione em partes do enredo, a solução no geral parece forçada. O que mais me incomodou é que a encenação, ao criar com o personagem Tchaikovsky um intermediário entre os acontecimentos e a plateia, gera um distanciamento do drama de Pushkin esfriando a emoção. É como se, ao invés de se acompanhar diretamente a história que está sendo contada, essa ainda fosse filtrada pelo personagem Tchaikovsky para então chegar a nós.

Mas, seja como for, a produção é magnífica e de alto nível. A execução musical foi dirigida por Antonio Pappano, diretor musical da casa, e atuaram no elenco os solistas Sergey Polyakov (Gherman), Felicity Palmer (Condessa), Eva-Maria Westbroek (Liza), Vladimir Stoyanov (Tchaikovsky e Prince Yeletsky), entre outros.

O Royal Opera House Covent Garden, em Londres [arquivo pessoal]
O Royal Opera House Covent Garden, em Londres [arquivo pessoal]

A minha viagem musical terminou com La traviata de Verdi na famosa encenação de Richard Eyre. É uma bela montagem. A direção musical foi de Antonello Manacorda e o elenco teve os ótimos Ermonela Jaho como Violetta (sensacional!), Charles Castronovo como Alfredo e Igor Golovatenco fazendo Giorgio Germont. (Para quem se interessar, há um bonito DVD dessa encenação, com George Solti regendo e uma deslumbrante Angela Gheorghiu no papel de Violetta.)