Tallis Scholars faz exímia apresentação no Festival Sesc

por Nelson Rubens Kunze 26/11/2018

O famoso Tallis Scholars da Inglaterra fez uma apresentação sensacional ontem, dia 25 de novembro, no Sesc Bom Retiro. O Tallis é considerado um dos principais grupos vocais do mundo. Ele foi fundado há mais de 40 anos pelo maestro Peter Phillips – que também dirige as apresentações aqui no Brasil – e percorreu uma trajetória única, apresentando-se nas principais salas e conquistando os principais prêmios internacionais. Sua especialidade é a música sacra renascentista – o nome do grupo é uma homenagem ao compositor inglês Thomas Tallis (1505-1585), uma das principais figuras da música inglesa do século XVI.

Articulação apurada, afinação calibradíssima e uma coesão musical impressionante – mesmo na acústica relativamente seca do teatro formou-se uma homogênea amálgama sonora – marcaram o concerto. Os compositores interpretados foram, além do próprio Tallis, os também renascentistas Tomás Luis de Victoria (c. 1548-1611), Giovanni Pierluigi da Palestrina (c. 1525-1594), Gregorio Allegri (1582-1652), Jean Mouton (c. 1459-1522) e Hieronymus Praetorius (1560-1629), além dos modernos John Tavener (1944-2013) e Arvo Pärt (1935). Foi interessante ouvir esses contemporâneos no contexto da música antiga, por compartilharem uma abordagem meditativa e transcendental – portanto muito parecidos na intenção musical dos renascentistas –, mas com conduções melódicas e harmônicas de características modernas.

Tallis Scholars no Festival Sesc de Música de Câmara [Revista CONCERTO]
Tallis Scholars em apresentação no Festival Sesc de Música de Câmara [Revista CONCERTO]

Em uma apresentação no todo de altíssimo nível, quero destacar duas obras. Inicialmente a incrível The Lamb, de Tavener, peça escrita em 1982 sobre um dos poemas da coleção Canções de inocência, do escritor romântico William Blake (1757-1827). Iniciando com uma melodia de inflexão modal, a obra desenvolve em uma estrutura simples e direta com uma singeleza desconcertante e comovente – há uma interpretação igualmente ótima do conjunto The Sixteen disponível no YouTube:

 

A segunda obra é a espetacular Miserere do italiano Gregorio Allegri, escrita na década de 1630 sobre o texto do salmo 51, para o serviço religioso na Capela Sistina do Vaticano. Ela foi composta para dois coros, que devem estar separados fisicamente – o Tallis posicionou o primeiro coro sobre o palco e o segundo, que tece comentários em diálogo com o primeiro como se fosse um refrão, atrás dos rebatedores acústicos. A obra de Allegri potencializa com uma impressionante força emocional a mensagem de submissão e arrependimento do texto que inicia com “tem misericórdia de mim, Deus”. 

Também esta obra pode ser encontrada no YouTube em interpretação do grupo Tenebrae, dirigido por Nigel Short:

 

[Esse Miserere está cercado ainda de uma curiosidade histórica. Como parte do serviço litúrgico do Vaticano, a obra só podia ser executada na Capela Sistina, onde se guardava a única partitura. Até que, reza a lenda, o jovem Mozart, então com 14 anos, assistiu à missa e, voltando para a casa, transcreveu-a toda de memória, tornando-a pública...]

Sem dúvida, o concerto do Tallis Scholars no Sesc Bom Retiro foi um dos grandes momentos da música no ano (eles ainda se apresentam no Sesc Jundiaí, na quarta, dia 28). Mas o Festival Sesc de Música de Câmara segue ainda com ótimas atrações nos próximos dias, com o conjunto Berlin Counterpoint da Alemanha (com estreia de peça de Leonardo Martinelli), o Duo Contexto de percussão com convidados, o espetáculo Sopro Transcendente (com estreia de obra de Michelle Agnes) e o Tesla Quartet dos Estados Unidos com o pianista Ricardo Castro.

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