Embaixadora da alma musical brasileira

por Júlio Medaglia 01/09/2018

GuitarCoop lança coletânea de gravações da cantora e violonista brasileira Olga Praguer Coelho 

Na década de 1930, os Estados Unidos não só procuravam se recuperar da mais grave crise de sua história, a de 1929, como queriam estabelecer melhores relacionamentos com a América Latina. Era hora de criar um novo mercado para seus produtos no continente, assim como de blindá-lo da influência da Alemanha, que se expandia mundo afora em consequência da recuperação econômica. Essa influência – como temiam os norte-americanos e como efetivamente ocorreu – podia ter um lado bélico que a todos preocupava. Assim surgiu a Política da Boa Vizinhança, no sentido de desenvolver intercâmbio de produtos diversos entre os países do continente.

Se a maioria desses produtos era de natureza tecnológica e industrial – o governo americano chegou a financiar sob condições especialíssimas uma das maiores siderúrgicas do mundo em nosso país, a CSN –, havia também o lado das relações humanas para facilitar a receptividade dessa política em ambas as nações. Orson Welles vinha filmar a amabilidade, o bom humor e as coisas típicas do Brasil; Hollywood lançava filmes superproduzidos nos quais um papagaio malandro e simpático, Zé Carioca, se tornava grande amigo do Pato Donald e coisas assim. Em contrapartida, abria-se naquele país um caminho para a música, para os ritmos latino-americanos e seus artistas.

No bojo desse relacionamento, surgiam duas cantoras brasileiras para, como uma espécie de “Zé Carioca de saias”, seduzir a classe média norte-americana com gracinhas. Enganaram-se redondamente. Carmen Miranda introduziu naquele país novos comportamentos femininos, outra moda e ritmos afro-brasileiros de nossa música popular urbana e tornou-se a mulher mais bem paga dos estúdios de Hollywood. A outra, Olga Praguer Coelho, cantou para o presidente e atuou por muito tempo com destaque nas mídias mostrando nosso folclore da maneira mais simples e autêntica.

Olga Praguer Coelho [Reprodução]
Olga Praguer Coelho [Reprodução]

Sobre Carmen, pelas inúmeras facetas de seu talento e pela divulgação de seu legado, não seria necessário tecer mais comentários; mas a propósito de Olga Praguer Coelho temos agora a chance de conhecê-la melhor por meio do lançamento de um CD pela Guitarcoop: The Art of Olga Praguer Coelho. São 22 gravações realizadas em vários países que incluem diversos repertórios. Do mais ingênuo folclore nacional de autores anônimos – A mosca na moça, Virgem do rosário, Róseas flores, Casinha pequenina – a composições de autores brasileiros que trabalharam os motivos de nossa cultura, como Hekel Tavares (Dança do caboclo), Jaime Ovalle (Azulão), Brasílio Itiberê (Cordão de prata), Villa-Lobos (que recolheu Xangô) e outros. Há também no CD composições de latino-americanos, já que o hemisfério sul entrou “na moda” naquele país por ocasião desses relacionamentos excepcionais de natureza política. Como Olga Praguer Coelho tinha formação vocal e instrumental, gravou também composições de autores eruditos como De Falla, Marie Antoinette, Scarlatti e outros. 

Ela nasceu em Manaus, em 1909. Aos 12 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fez seus estudos musicais, inicialmente de piano e depois de violão clássico e canto. Com 18 anos, fez suas primeiras apresentações públicas, inclusive na rádio, e, dois anos depois, as primeiras gravações pela Odeon. Devido ao brilho de suas atuações e à autenticidade musical de suas interpretações, com 27 anos foi enviada pelo governo brasileiro para turnês por diversos países da Europa, como uma espécie de embaixadora de nossa música. Uma das viagens à Alemanha fez no dirigível Graff Zeppelin. No Velho Continente, relacionou-se com grandes artistas que não economizaram elogios a sua arte. Em 1941, ela e o marido se mudaram para Nova York, onde teve início uma nova fase de sua vida. Apresentou-se na Casa Branca e foi contratada pela CBS, cujas transmissões em onda curta faziam parte desse relacionamento dos artistas com todo o país e o continente americano. 

Aos 34 anos, aconteceu uma reviravolta na vida da artista quando ela conheceu Andrés Segovia. Eles se separaram de seus cônjuges e passaram a viver juntos; a relação durou vinte anos. Na companhia do grande violonista espanhol, Olga aperfeiçoou-se ainda mais e recebeu dele arranjos e composições especialmente escritas para ela. Realizaram recitais e gravações para importantes empresas, algumas das quais presentes neste CD. 

Após a guerra, Olga Praguer Coelho fez um recital no Town Hall de Nova York, onde apresentou pela primeira vez ao público um encordoamento de náilon em substituição às cordas de tripa de seu violão. Disso resultou um LP para a gravadora Vanguard. Em 1960, ela lançou seu último disco e, em meados da década de 1970, voltou a viver no Brasil, apresentando-se esporadicamente aqui e no exterior. Em 2004, foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República; morreu em fevereiro de 2008, aos 98 anos. Nos últimos anos de vida, incentivou a formação de uma nova geração de artistas brasileiros que demonstram ainda hoje grande carinho por sua memória.

Como se vê, não só de commodities e sobretaxas vive o relacionamento entre nações…