Um ser humano humanista

por Jorge Coli 01/09/2018

Promovendo diálogos e construindo pontes, repercussão das atividades do mítico Daniel Barenboim transcende a música

A Argentina tem muito do que se orgulhar com seus três BBB, personalidades imensas: Borges, Bergoglio e Barenboim. Alguém poderá dizer que Barenboim saiu de lá com 10 anos de idade. É verdade. Ele é um cidadão do mundo, com nacionalidade argentina, espanhola, israelense e palestina e que mora em Berlim. É verdade também que levou muitos anos para voltar a seu berço e que foi declarado desertor por não ter se apresentado ao serviço militar argentino. No entanto, seria possível dizer, ainda, que ele se torna mais e mais argentino à medida que envelhece. Ele mesmo declarou que só se sente em casa quando está em Buenos Aires. No recente Festival Barenboim, em que levou a Staatskapelle Berlin para concertos e uma apresentação histórica de Tristão e Isolda  em sua cidade natal, em julho passado, comprou 120 alfajores para distribuir aos músicos da orquestra: prova indiscutível de sua essência portenha.

Barenboim, além de um músico mítico, é um profundo e sincero humanista, como não se faz mais. Acredita na humanidade para além da política. Acredita na música como manifestação sonora desse humanismo. Luta para que Wagner possa ser ouvido em Israel, buscando separar a beleza musical da tragédia tremenda a que essa música se liga na história dos judeus. Atua em favor dos refugiados que os conflitos no Oriente Médio engendram. Com seu amigo Edward Saïd, crítico literário, professor universitário, ativista da causa palestina, criou a West-Eastern Divan Orchestra (o nome é inspirado em um livro de poemas de Goethe), composta por jovens provenientes de países do Oriente Médio: Egito, Irã, Israel, Jordânia, Líbano, Palestina e Síria. Sua declaração sobre essa orquestra é admirável da confiança na humanidade e na música, sem cair em angelismos ilusórios: “A Divan não é uma história de amor e não é uma história de paz. Foi descrita, de modo laudatório, como projeto de paz. Não é. Não vai trazer paz, mesmo que você toque bem ou não tão bem. A Divan foi concebida como projeto contra a ignorância, projeto contra o fato de que é fundamental que as pessoas conheçam o outro, entendam o que o outro pensa e sente, sem necessariamente concordar com ele. Não almejo converter os membros árabes da Divan ao ponto de vista israelense nem convencer os israelenses do ponto de vista árabe, mas quero – e infelizmente estou sozinho nisso, pois Edward [Saïd] morreu há alguns anos – criar uma plataforma em que os dois lados possam discordar sem puxar as facas”.

Barenboim voltou pela primeira vez à Argentina apenas em julho de 1980, para dar concertos à frente da Orquestra de Paris, da qual foi diretor de 1975 a 1989. Teve uma revelação. Muitos músicos dessa orquestra não estavam tranquilos. Debateram antes da viagem: era político, era ético tocar sob a ditadura militar de Videla sem nenhuma manifestação? Estebán Buch, pesquisador especialista nas relações entre música e política, reconstituiu o acontecimento em um livro intitulado Trauermarsch (marcha fúnebre que abre a Sinfonia nº 5 de Mahler). Conta que a imprensa argentina chamou-os de antiargentinos, assinalando a hostilidade dos instrumentistas contra o regime. Os músicos não escondiam a solidariedade com os desparecidos. Isso não impediu que o concerto no Colón, no qual a orquestra tocou a Quinta de Mahler, fosse um absoluto, imenso triunfo, com aplausos que pareciam não terminar mais e chamadas repetidas do maestro ao palco. Barenboim, nesse momento, percebeu que a música não pode ficar indiferente aos regimes de injustiça e opressão. Tal convicção, que ele transformou em ética humanista pairando além das escolhas políticas para melhor determiná-las, nunca mais o deixaria.

Barenboim tem também uma relação “humana” com a música. Aluno de Markevich, assistiu a ensaios de Furtwängler, os quais o marcaram e cuja arte ele comenta assim: “[Furtwängler tinha o] rigor do ritmo aliado a certa fluidez e a certa faculdade de adaptação. Havia nele uma vontade de deixar o andamento flutuar de um modo que era necessário à música”. Barenboim é atento às tradições, é um ouvinte de discos antigos, interessado pelas versões que seus ilustres colegas do passado deixaram. Nem como pianista nem como maestro ele obedece à moda filológica das leituras pretensamente estritas que esvaziam a complexidade cultural própria aos sons em nome de uma execução “autêntica”.  

Daniel Barenboim [Divulgação]
Daniel Barenboim [Divulgação]