Labirintos da criação

por João Luiz Sampaio 01/09/2018

Entrevista com o compositor Harry Crowl

Uma obra em que nada é aquilo que aparenta ser – “uma superfície plana que esconde um complexo labirinto”. Assim o compositor mineiro Harry Crowl define sua obra, fruto de um rico universo criativo no qual uma linguagem profundamente pessoal dialoga com o mundo à volta, outras manifestações artísticas e episódios históricos. Neste mês, por exemplo, quando Crowl comemora 60 anos, além de ter obras executadas no Festival Artes Vertentes, em Tiradentes, a Orquestra Filarmônica de Goiás apresenta E a cidade desperta, peça que mergulha na paisagem urbana; e a Orquestra Filarmônica da UFPR estreia A morte do caboclo d’água, na qual a inspiração é a recente tragédia do rompimento da barragem da Samarco em Mariana, em Minas Gerais. No mesmo concerto, será tocada a Abertura em ré maior, de João de Deus de Castro Lobo, descoberta por Crowl durante suas pesquisas do acervo musical brasileiro em Minas Gerais, chamando atenção para outro aspecto de sua atividade: a pesquisa musicológica. Sobre todos esses temas, assim como sobre a nova geração de autores brasileiros que ele ajuda a formar como professor da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, em Curitiba, onde vive, ele falou na entrevista à Revista CONCERTO.

Harry Crowl [Divulgação / Sandro Luiz Fernandes]
Harry Crowl [Divulgação / Sandro Luiz Fernandes]

Qual é o significado que o aniversário de 60 anos tem para você? A data lhe sugere algum tipo de balanço a respeito de sua trajetória como artista?
É uma efeméride, apenas. Acho interessante, porém, fazer um balanço de minha produção como compositor a cada dez anos.

Neste mês, a Orquestra Filarmônica de Goiás vai interpretar E a cidade desperta, obra escrita entre 2016 e 2017, sob regência de Norton Morozowicz. Como você define a peça?
E a cidade desperta vem da crescente movimentação de uma cidade grande no momento do amanhecer e das cores tanto visuais quanto sonoras que se revelam. Nesse aspecto, ao compor a partitura pensei nos grandes painéis de grafite espalhados pelos centros urbanos do mundo, em particular por São Paulo, que colorem a paisagem daqueles que estão a caminho de suas funções do dia a dia e quebram com a monotonia do cinza do concreto armado onipresente.

Também em setembro, a Orquestra Filarmônica da UFPR estreia A morte do caboclo d’água, com regência de Márcio Steuernagel. Você poderia falar um pouco da obra? Em que sentido ela é significativa de suas preocupações atuais como autor?
Trata-se de uma composição para fliscorne (flugelhorn) solista, orquestra e sons eletrônicos. Venho pensando nela há mais de dois anos, desde a tragédia do rompimento da barragem da empresa Samarco no município de Mariana, em Minas Gerais, inundando e destruindo a vila de Bento Rodrigues e região e, posteriormente, sufocando o rio Doce com a lama tóxica. O título foi sugerido por um texto em formato de folhetim publicado na internet pelas jornalistas Maria Paola de Salvo e Karla Mendes, A morte do caboclo d’água. São três movimentos que apresentam marcantes contrastes de timbres obtidos por orquestrações diferentes para cada um deles e enriquecidos pelos sons eletrônicos pré-gravados desenvolvidos a partir de notas gravadas do próprio flugelhorn. A obra é dedicada ao trompetista paranaense Jorge Scheffer e à Orquestra Filarmônica da UFPR. É a primeira composição em que faço uso dessa técnica mista de sons acústicos ao vivo acrescidos de sons gerados eletronicamente. O trabalho foi todo realizado no LaMusa – Laboratório de Música, Sonologia e Áudio, da Embap/Unespar, por Antonio Spoladore, com minha participação.

Você poderia falar um pouco sobre as demais obras que serão apresentadas?
Teremos na mesma apresentação o Concerto para clarone, percussão e piano (1994), que escrevi para o grupo Novo Horizonte, com Sérgio Albach no clarone, Vinícius Portes e Bruno Oliveira na percussão e Santiago Beis ao piano. Ocorrerão também a estreia da obra Jaguaretê-Pixuna, para duo de percussão, com o UM2UO, e a Abertura em ré maior, de João de Deus de Castro Lobo (1797-1832), minha descoberta mais importante em Ouro Preto, em 1986. Além disso, uma homenagem a Radamés Gnattali, pelos 30 anos de seu falecimento, com o Concerto para bandolim e cordas interpretado por Daniel Migliavacca. Esse repertório bem eclético faz um percurso cronológico que dialoga com minha atividade de musicólogo.

Em uma entrevista publicada há alguns anos, você afirmou que há, em sua música, “um estado de contemplação no plano mais superficial e uma grande inquietação subliminar”. Você poderia falar um pouco mais sobre essa dualidade?
É uma relação de aparente calma e passividade que se apresenta por meio de andamentos lentos, nos quais em algum momento pode surgir uma movimentação com subdivisões rítmicas nas vozes intermediárias – e, dependendo da intenção da obra, essa inquietação pode aparecer de forma progressiva ou abrupta. Nada é aquilo que aparenta ser. Na construção musical propriamente dita, pode ser um fragmento coral dos séculos XVII ou XVIII que se desfaz num discurso atonal ou um pequeno motivo melódico que se transforma numa textura densa, que por sua vez pode se diluir a ponto de esgarçar a textura harmônica por meio de um andamento extremamente lento. Uma superfície plana que esconde um complexo labirinto polifônico subterrâneo.

No fim dos anos 1970, você viveu nos Estados Unidos, onde estudou na Juilliard School of Music. Que lembrança tem desse período, tanto do ponto de vista pessoal quanto da cena da criação musical, e como ele o influenciou?
O acesso à informação foi o mais importante. Um mundo novo se descortinou para mim ainda numa época em que não havia internet e a importância de grandes bibliotecas era inquestionável. Foi quando tomei conhecimento da obra de compositores como Messiaen, Cage, Berio, Carter, Boulez, Stockhausen, Xenakis, Penderecki, entre outros. Sem sair de dentro da escola, pude absorver muito sobre tudo o que acontecia no mundo da música contemporânea tanto nos Estados Unidos quanto na Europa.

De volta ao Brasil, você atuou como músico de orquestra, estreou obras e se dedicou à pesquisa do acervo de música brasileira em Ouro Preto. Como o trabalho de pesquisador influenciou – ou ainda influencia – o do compositor? É possível encontrar, em meio a ambas as atividades, um interesse, um ponto comum?
Minha atuação como músico de orquestra foi breve, nunca em orquestras profissionais e logo me fez perceber a importância de investir em orquestras formativas. Quando fui para Minas Gerais trabalhar na Universidade Federal de Ouro Preto, queria me aprofundar no universo da música que foi escrita em Minas nos séculos XVIII e XIX. Para tanto, não só fiz a reconstrução de muitas partituras de obras existentes nos acervos da região, mas também mergulhei nos estudos sobre barroco e classicismo. Por outro lado, nunca me afastei da composição e queria achar um ponto a partir do qual construir um discurso que dialogasse com o passado de alguma maneira. Nesse momento, percebi que os procedimentos de muitos compositores da época me atraiam, uma vez que, frequentemente eles encontravam soluções originais para compensar a falta de conhecimento de técnicas importantes, como contraponto. Fiz experiências com formas observadas em ofícios da Semana Santa, nos quais constam lamentações e trechos das paixões.

A literatura aparece com destaque em sua criação, como na ópera Sarapalha, escrita a partir de texto de Guimarães Rosa, ou na cantata Turris ebúrnea, em que você dialoga com a poesia simbolista. O que lhe atrai em um texto? Como esse trabalho com a palavra se transformou ao longo de sua trajetória como compositor?
As imagens sugeridas pelos textos me fascinam. Como também estudei letras na universidade, tenho uma forte atração pela literatura e pela poesia. Questões como a sonoridade da língua e a prosódia formada a partir de acentos regionais são pontos de partida para mim não somente quando vou colocar música nos textos, mas também quando escrevo uma obra instrumental. No caso da cantata Turris ebúrnea, queria desenvolver um universo musical que dialogasse com o entorno. No caso, com Curitiba. Percebi que a poesia simbolista, especialmente a do Paraná, foi uma contribuição importante para a percepção de um mundo subtropical no Brasil e explorei isso de forma mais intensa no plano musical. No caso de Sarapalha, as estórias de Guimarães Rosa sempre me instigaram. Pois, como disse antes, nessa literatura, assim como na música que faço, nada é o que aparenta ser. Atrás do regionalismo muito marcado, há um humanismo universal. Outro escritor/poeta muito importante em minha carreira foi Haroldo de Campos, para cujo poema “Finismundo”escrevi um moteto/uma cantata com o mesmo título para o grupo Novo Horizonte.

Como professor, e também como apoiador de iniciativas como a Bienal Música Hoje, você tem tido contato com jovens compositores. Como define essa geração nova com que tem trabalhado? Em que sentido ela é diferente da sua geração?
É verdade. Tive contato com muitas gerações de compositores. E percebo que a geração que tem hoje entre 30 e 40 anos está mais focada no que acontece no mundo e sente uma necessidade de criar seu próprio espaço, mas sem confrontos políticos ou estéticos. O que me parece ainda mais contrastante com relação a minha geração e as anteriores é o diálogo com a cultura pop, de modo geral. A maioria deles está muito mais ligada às intersecções de jazz, rock e MPB com as linguagens da música de concerto contemporânea que com o universo da música erudita tradicional, sem necessariamente a excluir. Isso tem possibilitado tanto uma atitude eclética saudável quanto, no caso de Curitiba, a realização de projetos ambiciosos como as Bienais Música Hoje e o SiMN, Simpósio Internacional de Música Nova – eles têm acontecido em anos alternados.

Você está trabalhando em alguma obra? Poderia falar sobre ela?
Neste ano, fiquei muito envolvido com a revisão de várias obras, mas iniciei novos projetos também. Estou retomando agora uma peça para violão com o título de Capim-cheiroso, dedicada ao violonista Eric Moreira. O título foi sugerido por uma cachaça mineira do mesmo nome, assim como por um perfume artesanal que descobri por acaso na internet. Apesar do aspecto insólito e pitoresco, é uma obra muito elaborada e que ocasionalmente sugere o desenho desta planta tão frequente na paisagem brasileira.

Obrigado pela entrevista.


AGENDA
Orquestra Filarmônica de Goiás
Norton Morozowicz
– regente
Dia 6, Teatro Goiânia (Goiânia, GO)
Orquestra Filarmônica da Universidade Federal do Paraná
Márcio Steuernagel
– regente
Dias 20 e 21, Teatro da Reitoria da UFPR (Curitiba, PR)