Eterna descoberta

por João Luiz Sampaio 01/09/2018

O maestro britânico Jonathan Nott fala sobre concertos no Brasil com a Filarmônica Jovem Alemã 

Nos anos 1970, um grupo de músicos alemães chegou a uma conclusão: havia algo de muito burocrático no modo de apresentar concertos no país. Era uma situação alarmante, consideraram, pois colocava em risco a percepção do valor que a enorme herança musical do passado tinha e a necessidade de mantê-la viva, o que precisava ser feito não apenas pela interpretação do chamado grande repertório, mas também pelo incentivo ao trabalho de novos criadores, atores fundamentais na manutenção do fascínio que a música pode provocar no ouvinte.

Como mudar esse cenário? A resposta foi voltar-se ao trabalho com os jovens músicos que eram formados por academias e conservatórios. “Foi assim que nasceu a Orquestra Filarmônica Jovem Alemã, com esta preocupação tão importante: desenvolver no jovem artista a crença na necessidade de saber comunicar ao público a riqueza daquilo que eles fazem”, explica o maestro britânico Jonathan Nott, que neste mês traz o grupo ao Brasil. “O meu objetivo é exatamente o mesmo. Não sou diretor artístico, regente titular. Sou alguém com quem eles podem conversar, cuja função é ajudá-los a descobrir sua voz individual por meio da compreensão de que o que eles fazem como artistas é transformar ideias e pensamentos em som.”

Foi por meio de uma conversa, aliás, que Nott e os músicos escolheram o repertório dos concertos, que vai ser o mesmo na Sala São Paulo (em promoção da Cultura Artística) e no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (na série da Dell’Arte) e inclui duas grandes obras: a Sinfonia nº 4 de Brahms e a Sinfonia nº 1 de Mahler. “A orquestra, que é composta por músicos de 18 a 27 anos, tem uma atenção a repertórios múltiplos, com especial cuidado com a música nova. Mas, além disso, esses jovens se entendem como parte de uma tradição musical que os define de alguma forma e, juntos, chegamos a esse formato”, explica o maestro. 

Jonathan Nott [Divulgação]
Jonathan Nott [Divulgação]

Nott ficou contente com a escolha e não esconde isso. “Desde pequenos, esses músicos trabalham com a tradição que remonta a Haydn, Mozart, Beethoven e assim por diante. Mas qual o sentido disso? O que quer dizer exatamente? É preciso pensar sobre isso se você assume como uma de suas funções manter essa chama viva”, diz. E sua resposta tem a ver, acredita, justamente com o pensamento, com a filosofia.

“Já dirigi uma orquestra alemã, hoje estou à frente de uma orquestra de origem francesa [a Suisse Romande, com a qual esteve no Brasil no primeiro semestre em concertos elogiados pela crítica] e também comando uma sinfônica japonesa. A filosofia alemã não é a mesma que a filosofia francesa ou japonesa, cada cultura elegeu temas e questões diferentes – e isso é fascinante, porque, quando você considera o individual, o local e o global, misturando tradições, você chega a uma metáfora da humanidade”, diz o maestro, que logo dá um exemplo: “A Sinfonia nº 1 de Mahler e a Sinfonia nº 4 de Brahms são obras distintas, mas, recentemente, após um ensaio do Brahms com a Suisse Romande, me dei conta de que a leitura dos músicos sugeriu para a peça uma tristeza que me fez pensar nela como uma das mais violentas partituras da história. E aí, talvez, ela esteja muito mais próxima da nº 1 de Mahler”.

Lidar com essas possibilidades, com esses novos olhares constantes, é para Nott a missão do intérprete. E do maestro. “A maior parte das sinfônicas mundo afora pode tocar sem um regente, então preciso pensar para que estou ali. E acredito que minha função seja criar uma atmosfera em que todos podem dar o melhor de si, juntos, ousando sair da zona de conforto na relação que têm com as peças. No caso de uma orquestra formada por jovens, preciso tentar mostrar a eles quão longe podem ir nesse processo, os guiando a lugares ainda não conhecidos. Um músico de 18 anos que toca Mahler pela primeira vez precisa lidar com a ideia da morte, por mais distante que ela possa parecer a ele, precisa encontrar uma forma de se relacionar com essas questões.” É só assim, conclui, que estará presente “o sentido de descoberta que jamais pode se perder no músico. Tampouco no público”.


AGENDA
Filarmônica Jovem Alemã
Jonathan Nott
– regente
Dia 10, Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Dia 12, Sala São Paulo