A Áustria descobriu o Brasil (musical)

por Júlio Medaglia 01/03/2019

Os 200 anos da composição de O amor brasileiro por Sigismund Ritter von Neukomm

A corte portuguesa sempre foi muito culta e, sobretudo, muito musical. Aliás, a segunda maior biblioteca musical da Europa, depois da do Vaticano, era a da corte portuguesa. Curiosamente, ao contrário do que ocorrera em outras conquistas lusitanas mundo afora, o Brasil não foi apenas uma colônia extrativista. Para cá foi trazida a mais sofisticada cultura musical europeia, a ponto de causar enorme surpresa ao próprio d. João VI ao chegar à colônia e ouvir uma composição de um filho de escravos, o padre José Maurício Nunes Garcia. 

Ao implantar em 1808 a única corte real em solo sul-americano, o monarca português fugido de Napoleão incrementaria ainda mais a vida cultural do Brasil. Em 1816, trouxe uma trupe de artistas bem-sucedidos em solo europeu das áreas de pintura, escultura, arquitetura e música. Posteriormente à chegada ao Brasil da chamada Missão Artística Francesa, porém, aportou aqui um compositor austríaco de sucesso em todo o Velho Mundo. Haydn se referia a ele da seguinte maneira: “Beethoven é meu aluno mais talentoso, mas meu predileto é Sigismund Neukomm”. 

A chegada inesperada dessa figura ao Rio de Janeiro causou muitas suspeitas, e nossa história ainda nos deve esclarecimentos mais precisos e confiáveis, pois Neukomm vivia ligado a movimentações políticas europeias e, sobretudo, a Talleyrand, braço direito de Napoleão em diversos momentos da vida. Como se sabe que a França não gostava da estreita relação de Portugal com a Inglaterra, que chegava a proteger seus navios, suspeita-se que esse compositor teria aqui chegado para fazer a cabeça de d. Pedro I para proclamar a independência do Brasil. 

Sigismund Ritter von Neukomm (1778-1858) [Reprodução]
Sigismund Ritter von Neukomm (1778-1858) [Reprodução]

No entanto, o inusitado Neukomm – independentemente das ocultas e suspeitas movimentações políticas que envolviam nossa corte e o novo artista –, além de trazer o sofisticado know-how composicional europeu para cá, dando aulas de música a membros da corte e, sobretudo, a d. Pedro I, descobriu um novo universo sonoro e um tipo de atividade musical que o fascinou sobremaneira. E esse universo não se situava no âmbito da corte real nem na camada “civilizada” do país, e sim nas ruas. E, nas ruas, 60% da população era negra. 

Segundo relatos de um amigo de Neukomm, publicados no precioso livro Música secreta, de Rosana Lanzelotte, o compositor de Salzburg assim se expressava diante do que viu por aqui: “Aprendi a apreciar o ritmo com que bailavam os escravos em seus folguedos d’África, graças aos quais conheci o lundu, dança de tal maneira sensual que sua mera visão nos traz o rubor às faces. Não me lembro de quantas vezes corei diante do encontro daqueles corpos suados, dos quadris que se entrechocam na síncopa da umbigada… De início estão os participantes sentados em torno de uma sala, à espera do início do folguedo. Uma mulher levanta-se, então, e se dirige com passos provocantes para o centro do círculo. Um dos homens, a partir da atenção despertada pelos seus requebros, segue-lhe os movimentos. Os instintos entram em ebulição e a volúpia apodera-se dos dançarinos em escala crescente. Dançam em volteios sensuais até que a mulher, desfalecendo, cai nos braços do homem e cobre o rosto com um lenço para ocultar a emoção. Essas cenas são impensáveis em Viena, Paris ou Londres, onde os casais, tão pudicos, deleitam-se esfogueados com a valsa, com os torços guardando a devida distância da prudência. Nos trópicos, o clima escaldante, que aquece trocas corporais, lascivas, obscenas, transforma fatalmente uma dança em outra coisa”. 

O inusitado Neukomm, além de trazer o sofisticado “know-how” composicional europeu para cá, descobriu um novo universo sonoro que o fascinou

E adiante: “Quis escrever uma fantasia para piano tendo como tema um lundu. Imagino que fui o primeiro a fazê-lo, pois os músicos brasileiros e portugueses não ousam misturar ao que escrevem as melodias do povo. Em O amor brasileiro, o tempo ternário da valsa transforma-se na síncopa do lundu, como, aos poucos, acontecera com meu espírito”.

Depois de lançar essa obra, em 1819, em verdade a dica fundamental para os caminhos de uma música nacional, e quando d. Pedro I estava convencido e prestes a proclamar a independência, Neukomm voltou para a Europa, dizendo que “o Brasil é uma país feérico, onde tudo é maravilhosamente belo e grandioso”. 

Teria sido ele um mensageiro, um agitador político para a libertação do país, ou apenas o “avô” de uma música nacional, já que Alberto Nepomuceno é apontado por todos como o “pai”?