Música na ilha

por Redação CONCERTO 01/03/2019

Vermelhos, na Ilhabela, reúne artistas excepcionais e atua na formação musical de jovens

Há neste mundo doidos que merecem toda admiração. Escrevi esta frase pensando em Samuel Mac Dowell de Figueiredo. No extremo fim do ano passado, fui, pela primeira vez, assistir a dois recitais no Festival Vermelhos – Música e Artes Cênicas – nome dado a uma baía de Ilhabela por causa dos peixes rubros, abundantes nessas águas.

Mac Dowell, advogado, construiu ali um auditório extraordinário, o Teatro de Vermelhos, com capacidade que varia de 900 a 1.100 espectadores. Extraordinário por várias razões, a começar pela acústica, natural, fina, perfeita, sem dúvida uma das melhores que temos no Brasil. O declive do terreno foi aproveitado sem nenhuma ofensa ao ambiente natural, à beleza da vegetação. Os assentos são de madeira laminada colada, e Mac Dowell conta que, depois de algumas tentativas insatisfatórias, tentou uma solução: cortou pelo meio uma cadeira de jardim, de plástico, tão cômoda, e levou a um artesão, pedindo que tomasse o perfil como modelo. O resultado não poderia ser melhor: fixos, os assentos são muito confortáveis e perfeitamente silenciosos.

O palco central é vasto. Nele cabe facilmente uma orquestra sinfônica. Um fosso pode ser aberto, permitindo a representação de óperas e balés.

Estive lá no dia 29 de dezembro, quando se sucediam dois recitais.  

O primeiro reuniu o barítono Homero Velho, a soprano Carla Cottini e o pianista Ricardo Ballestero. Não havia público muito grande. Fico me perguntando quem vai à Ilhabela ouvir os Calligrames, de François Poulenc, As cinq mélodies populaires grecqyes, de Maurice Ravel, ou as Mädchenblumen, de Richard Strauss. Uma das tarefas desse festival é, mantendo o alto nível das apresentações, formar um público específico, seguro de que vale a pena viajar para a Ilhabela motivado pelo que o evento apresenta. Samuel Mac Dowell Figueiredo investe também na formação musical das crianças da ilha, por meio das escolas. Esta é, porém, uma visão de prazo mais longo.

O público agregou-se no palco, numa relação próxima com os artistas. Homero Velho foi soberbo com a beleza de sua voz, e Carla Cottini, adorável, com musicalidade ímpar.

A grande atração internacional estava reservada para a noite, quando se apresentaria Nelson Freire. O grande pianista, com a generosidade que lhe é própria, não hesita em apoiar projetos musicais como o de Ilhabela. Propôs que com ele se apresentasse Juliana Steinbach, pianista brasileira que, como Guiomar Novaes no início do século XX, foi primeiro prêmio de 2002 no Conservatório de Paris. Mais ainda, Freire decidiu apresentar-se em abertura, na primeira parte, deixando sua jovem colega para o gran finale

Celebrava-se também a inauguração de um piano que a Blüthner, fabricante alemã, uma das “quatro grandes” (ao lado de Bechstein, Bösendorfer e Steinway), doou para o Instituto Baia dos Vermelhos. Juliana Steinbach escolheu especialmente o instrumento que havia acabado de chegar.

Nelson Freire tocou divinamente, em sua sonoridade enluarada, tão característica. Abriu o programa com a Sonata K 331, de Mozart, com a “Marcha turca” no último movimento, arrebatando a audiência. Em seguida, a Sonata ao luar, de Beethoven, a Barcarola op. 60, de Chopin, e duas de suas Mazurkas em bis. Não é preciso detalhar o que foram essas admiráveis interpretações.

Não é tarefa fácil suceder a Nelson Freire. Clima de grande expectativa. Juliana Steinbach escolhera uma única obra. E que obra! Quadros de uma exposição, de Modest Mussorgsky, que ela havia gravado em CD: longa, variada e muito exigente do virtuose.

Não se poderiam imaginar duas sonoridades pianísticas mais contrastantes. Ao mundo transcendente, aéreo, lunar, de Nelson Freire, sucedia-se uma fremência telúrica, sensual, arrebatadora. Foi um triunfo. No bis, a Festa no sertão de Villa-Lobos levou o público ao delírio. Juliana Steinbach concluiu com um bis favorito de Guiomar Novaes, a serena Dança dos espíritos abençoados, que Sgambati extraiu da ópera Orfeu e Eurídice, de Gluck. A partitura dessa obra foi oferecida a Juliana Steinbach pelo próprio Nelson Freire.

Em meio a tantas infames barafundas a que assistimos neste nosso Brasil tão desbussolado, é um consolo saber que existem um Samuel Mac Dowell de Figueiredo e um projeto como o do Instituto Baía dos Vermelhos, capaz de reunir artistas excepcionais e de atuar na formação musical de jovens. Que os leitores da Revista CONCERTO aprendam o caminho: a paisagem é belíssima e a música, sublime. 

Teatro de Vermelhos [Divulgação]
Teatro de Vermelhos [Divulgação]